Saiu do telefone e anunciou para todo o escritório:
- Topou! Topou!
Foi envolvido, cercado por três ou quatro companheiros. O Meireles cutuca:
- Batata?
Menezes abre o colarinho:
- Batatíssima!
Outro insiste:
- Vale? Justifica?
Fez um escândalo:
- Se vale? Se justifica? Ó rapaz! É a melhor mulher do Rio de Janeiro! Casada e te digo mais: séria pra chuchu!
Alguém insinuou: - Séria e trai o marido?
Então, o Menezes improvisou um comício em defesa da bem-amada:
- Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta: o marido é uma fera! O marido é uma besta!
Ao lado, o Meireles, impressionado, rosna:
- Você dá sorte com mulher! Como você, nunca vi! - E repetia, ralado de inveja: - Você tem uma estrela miserável!
O AMOR IMORTAL
Há três ou quatro semanas que o Menezes falava num novo amor imortal. Contava para os companheiros embasbacados: - Mulher de um pediatra, mas olha: um colosso! Queriam saber: Topa ou não topa?. Esfregava as mãos, radiante:
- Estou dando em cima, salivando. Está indo.
Todas as manhãs, quando o Menezes pisava no escritório, os companheiros o recebiam com a pergunta: - "E a cara?". Tirando o paletó, feliz da vida, respondia:
- Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas! Os colegas pasmavam para esse desperdício:
- Isso não é mais cantada, é ...E o vento levou.
Meireles sustentava o princípio que nem a Ava Gardner, nem a Cleópatra justificam quatro horas de telefone. Menezes protestava:
- Essa vale! Vale, sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além disso, nunca fez isso! É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia!
E ele, que tinha filhos naturais em vários bairros do Rio de Janeiro, abandonara todos os outros casos e dava plena e total exclusividade à esposa do pediatra. Abria o coração no escritório:
- Sempre tive a tara da mulher séria! Só acho graça em mulher séria!
Finalmente, após quarenta e cinco dias de telefonemas desvairados, eis que a moça capitula. Toda a firma exulta. E o Menezes, passando o lenço no suor da testa, admitia:
- Custou, puxa vida! Nunca uma mulher me resistiu tanto!
E, súbito, o Menezes bate na testa:
- É mesmo! Está faltando um detalhe! O apartamento!
Agarra o Meireles pelo braço:
- Tu emprestas o teu?
O outro tem um repelão pânico:
- Você é besta, rapaz! Minha mãe mora lá! Sossega o periquito!
Mas o Menezes era teimoso. Argumenta:
- Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro. Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar para uma baiúca. Tem que ser,olha: — apartamento residencial e familiar. É um favor de mãe pra filho caçula.
O outro reagia:
- E minha mãe? Mora lá, rapaz!
Durante umas duas horas, pediu por tudo:
- Só essa vez. Faz o seguinte: manda a tua mãe dar uma volta. Eu passo lá duas horas no máximo!
Tanto insistiu que, finalmente, o amigo bufa:
- Vá lá! Vá lá! Mas escuta: pela primeira e última vez! Aperta a mão do companheiro:
- És uma mãe!
DECISÃO
Pouco depois, Menezes ligava para o ser amado:
- Arranjei um apartamento genial.
Do outro lado, aflita, ela queria saber tudinho:
- Mas é como, hein?
Febril de desejo, deu todas as explicações:
- Um edifício residencial na rua Voluntários. Inclusive, mora lá a mãe de um amigo. Do apartamento, ouve-se a algazarra das crianças.
Ela, que se chamava Ieda, suspira:
- Tenho medo! Tenho medo!
Ficou tudo combinado para o dia seguinte, às quatro da tarde. No escritório, perguntaram:
- E o pediatra?
Menezes chegou a tomar um susto. De tanto desejar a mulher, esquecera completamente o marido. E havia qualquer coisa de pungente, de tocante, na especialidade do traído, do enganado. Fosse médico de nariz e garganta, ou simplesmente de clínica geral, ou tisiólogo, vá lá. Mas pediatra! O próprio Menezes pensava:
- Enquanto o desgraçado trata de criancinhas, é passado pra trás!
E, por um momento, ele teve remorso de fazer aquele papel com um pediatra. Na manhã seguinte, com a conivência de todo o escritório, não foi ao trabalho. Os colegas fizeram apenas uma exigência: que ele contasse tudo, todas as reações da moça. Ele queria se concentrar para a tarde de amor. Tomou, como diria mais tarde, textualmente, "um banho de Cleópatra". A mãe, que era uma santa, emprestou-lhe o perfume. Cerca do meio-dia, já pronto e de branco, cheiroso como um bebê, liga para o Meireles:
- Como é? Combinaste tudo com a velha?
- Combinei. Mamãe vai passar a tarde em Realengo. Menezes trata de almoçar. "Preciso me alimentar bem", era o que pensava. Comeu e reforçou o almoço com uma gemada. Antes de sair de casa, ligou para Ieda:
- Meu amor, escuta. Vou pra lá.
E ela:
- Já?
Explica:
- Tenho que chegar primeiro. E olha: vou deixar a porta apenas encostada. Você chega e empurra. Não precisa bater. Basta empurrar.
Geme:
- Estou nervosíssima!
E ele, com o coração aos pinotes:
- Um beijo bem molhado nesta boquinha.
- Pra ti também.
ESPANTO
Às três e meia, ele estava no apartamento, fumando um cigarro atrás do outro. Às quatro, estava junto à porta, esperando. Ieda só apareceu às quatro e meia. Ela põe a bolsa em cima da mesa e vai explicando:
- Demorei porque meu marido se atrasou.
Menezes não entende:
-Teu marido?
E ela:
- Ele veio me trazer e se atrasou. Meu filho, vamos que eu não posso ficar mais de meia hora. Meu marido está lá embaixo, esperando.
Assombrado, puxa a pequena:
- Escuta aqui. Teu marido? Que negócio é esse? Está lá embaixo! Diz pra mim: teu marido sabe?.
Ela começou:
- Desabotoa aqui nas costas. Meu marido sabe, sim. Desabotoa. Sabe, claro.
Desatinado, apertava a cabeça entre as mãos:
- Não é possível! Não pode ser! Ou é piada tua?.
Já impaciente, Ieda teve de levá-lo até a janela. Ele olha e vê, embaixo, obeso e careca, o pediatra. Desesperado, Menezes gagueja:
- Quer dizer que...
E continua:
- Olha aqui. Acho melhor a gente desistir. Melhor, entende? Não convém. Assim não quero.
Então, aquela moça bonita, de seio farto, estende a mão:
- Dois mil cruzeiros. É quanto cobra o meu marido. Meu marido é quem trata dos preços. Dois mil cruzeiros.
Menezes desatou a chorar.
O texto acima foi extraído do livro "A vida como ela é...", Companhia das Letras- São Paulo, 1992, pág. 12.