Vendedor ambulante é o indivíduo que anda pelas ruas de cidade em cidade, nas feiras e em lugares públicos de maior movimento, a vender suas mercadorias. No século 12, esses vendedores andantes que exerciam suas atividades nas ruas de Paris, França, ofereciam aos que passavam pelas vias públicas daquela cidade, um tipo de tecido feito com pele de camelo, muito apreciado pela população por ser extremamente macio, brilhante e oferecer excelente proteção contra o frio rigoroso das noites de inverno.
Esse material era importado do norte da África e do Oriente Médio, onde tinha o nome de khmalat , com significado de tecido rústico e felpudo, mas como ele era difícil de ser pronunciado pelos europeus, acabou ganhando entre os parisienses o nome de camelot, que identificava tanto a mercadoria colocada à venda como também os vendedores que a ofereciam.
Muitas vezes, porém, as peças negociadas por esses vendedores ambulantes não eram verdadeiras, mas apenas imitações baratas feitas com pele de cabra, o que só mais tarde era descoberto pelos compradores. Por causa disso os enganados passaram a afirmar, e com justa razão, que os itinerantes eram, na realidade, negociantes de produtos falsificados, convicção que a partir daí se incorporou à fama desse tipo de comerciantes de rua e permanece viva até hoje.
As variações ocorridas na língua francesa provocaram no século 17 o surgimento do verbo cameloter, que significava "vender objetos sem valor, ou tratar os outros com pouca educação e cortesia”, e por isso traduzia o sentido extremamente pejorativo que se emprestava a essa forma de procedimento. Decorridos mais dois séculos, registrou-se nova alteração na palavra, quando a variação camelote passou a ser usada pela população para designar a “mercadoria grosseira e de acabamento inferior” que supostamente era oferecida pelos vendedores ambulantes à sua clientela.
Esse vocábulo só chegou ao Brasil no início do século 20, mantendo o mesmo sentido depreciativo com que era usado na França de oitocentos anos atrás. Talvez, por isso, o abrasileirado camelô venha sendo substituído pela expressão ambulante, que ao contrário do que seu sentido indica, identifica os barraqueiros que hoje trabalham em locais fixos, e contam até mesmo com dirigentes que controlam sua organização e funcionamento.
Matéria publicada na Folha de São Paulo em 07 de maio de 2002, de autoria da jornalista Raquel de Souza, diz que “A venda ambulante não é trabalho. Essa é a opinião de 38 camelôs de São Paulo. Expulsos ou sequer convidados para o mercado formal, essas pessoas se viram obrigadas a montar uma barraquinha e vender bugigangas nas ruas da cidade. No entanto, creditam à prática apenas um ‘jeito de ganhar a vida’ sem cometer crimes. Eles não criam uma identidade de trabalhador como outro profissional qualquer. O trabalho de camelô é encarado como ganha pão e o jeito de distinguir-se daqueles que cometem atos ilícitos para ter dinheiro, ‘apesar da perseguição policial’, comenta Francisco José Ramires, que pesquisou o tema entre 1999 e 2001. Os resultados estão em seu trabalho de mestrado, apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP”.
Prosseguindo em seu trabalho, Raquel de Souza revela:
"Intitulado ‘Severinos na metrópole: a negação do trabalho na cidade de São Paulo’, a pesquisa conta com depoimentos de camelôs de diversos cantos da cidade - do Dom Pedro II, Praça da Sé, Hospital das Clínicas e da rua Teodoro Sampaio. As histórias de vida variam bastante. Possuem em comum o fato de serem quase que na totalidade nordestinos ou filhos de migrantes. Os mais velhos (compreenda como aqueles que passaram dos 38 anos) possuem baixa escolarização, em média 4a série do Ensino Fundamental. Já os jovens concluíram o Ensino Médio e, em alguns casos, fizeram até cursos profissionalizantes e o primeiro ano de faculdade (que foi abandonada por falta de recurso financeiro). Todos gostariam de trabalhar tendo um patrão - contrariando o mito de que a venda ambulante é uma maneira de ganhar autonomia e maiores dividendos. Muitos daqueles que sobrevivem graças ao trabalho informal gostariam de voltar ou integrar-se a formalidade. Isso é quase um sonho para muitos".
E finaliza:
“Ramires explica que a maioria dos ambulantes veio de trabalhos com registro em carteira e, por isso, sabe das 'tranqüilidades' que o mercado formal possibilita, como a previdência social, o fundo de garantia e o décimo terceiro salário, entre outros. São pouquíssimos os que ganham mais de 300,00 por mês. O pesquisador encontrou alguns que guardam o colchão sob a barraca e que quando anoitece dormem embaixo dela. Em alguns casos, os camelôs pagam a comerciantes e clínicas médicas para guardar seus produtos em seus estabelecimentos. Assim, parte da renda obtida por essas instituições é proveniente do comércio informal. ‘Essa idéia de que existe uma linha divisória entre o trabalho formal e informal não existe. Ambas fazem parte de um único sistema econômico’, finaliza Ramires”.