CURIANGO

Pássaro da família dos Caprimulgídeos (que possui vários gêneros) o curiango encontra-se espalhado pelo mundo, sendo mais abundante nas regiões tropicais. Nas de clima temperado, quase todas as espécies migram durante o inverno em busca de temperaturas mais amenas (somente uma delas permanece em seu habitat durante o período frio).

 

Um dos nomes que lhe dão em nosso país (curiango) seria um abrasileiramento de kurianka, palavra da língua do grupo banto de Angola (quimbundo). Além dessa denominação ele também é conhecido por várias outras nas diferentes regiões do nosso país, como engole-vento, porque come insetos em pleno vôo; cabeça-de-cabra, porque os pastores acreditavam que ele mamava o leite de suas cabras, ou sapo-voador, por causa de seu estranho formato e cor, além  de joão-corta-pau, bacurau, maria-angu, maria-faz-angu, tabaco-bom, bacurau-da-telha, bacurau-rupestre, bacurauzinho-da-caatinga, bacurau-da-caatinga, bacurau-pigmeu, dorminhoco e outras mais. Em Portugal, chamam-no de notibó.

 

Por serem arredios, desconfiados e de hábitos noturnos, os curiangos são tão pouco conhecidos que muita gente não tem idéia de como sejam. De forma geral, eles têm comprimento que pode chegar aos 30cm, cabeça chata e alargada, olhos grandes e saltados, boca rasgada que vai além dos olhos, plumagem de cor marrom-ferruginosa entremeada de manchas escuras, com diversas espécies apresentando na garganta uma malha branca em forma de meia-lua. Como suas cores se assemelham à do ambiente em que vivem, esses pássaros não são percebidos facilmente por quem passa até mesmo próximo a eles, só sendo descobertos por aqueles que os estejam procurando com atenção.

 

As aves pertencentes à maioria de suas espécies repousam no solo durante o dia, ocultos pela vegetação, de onde saem voando em zigue-zague quando ameaçados, para despistar potenciais predadores. Outras preferem dormir em árvores de menor tamanho. A melhor forma de encontrá-los é dirigir seu carro à noite, em estradas de terra e próximo a rios e lagos, usando faroletes ou o próprio farol. A ave é denunciada pelo brilho de um dos olhos. 

 

As fêmeas da espécie não nidificam, preferindo depositar seus ovos no solo, sobre palhas e folhas e escondidos sob alguma moita. Eles são brancos, salpicados de roxo, suspeitando-se que as mães os mudem de lugar toda vez que percebam terem sido tocados. Na época do acasalamento, os machos ficam ciumentos e irritáveis. Como o curiango não faz ninho, a fêmea põe os ovos em campo aberto e os choca sozinha. Os filhotes permanecem com os pais durante um mês, e para alimentá-los durante esse tempo, estes lhes regurgitam na boca aberta uma papa de insetos.

 

Donos de asas longas, os curiangos costumam voar baixo e com o bico aberto, tentando apanhar insetos (traças, mosquitos e mariposas grandes, inclusive), só deixando de fazer isso para digerir o alimento conseguido quando seu apetite fica plenamente satisfeito. Rápidos e vorazes, seu sucesso nessa caçada em pleno vôo é conseqüência da capacidade que têm de escancarar amplamente o bico (como nenhuma outra ave consegue fazer) e transformá-lo numa grande abertura que lhe permite capturar a vítima com facilidade, fazendo-a desaparecer rapidamente pela goela abaixo.

 

Em certas regiões do país o curiango é uma ave de mau agouro, mensageira das assombrações e indicadora do coisa-ruim. Quando pia, pode-se ter certeza de que tem fantasma por perto. O diabo adota a forma de curiango e atormenta cavaleiros que passam pela noite. Bater ou matar um curiango traz imenso azar à pessoa, que passa então a ser perseguida constantemente até enlouquecer, ou perde o rumo da casa, andando em círculos por horas à fio.

 

Não se sabe ao certo o porque dessa ave ter sido associada a tantas coisas más no universo do nosso caboclo, embora também seja verdade que existem lendas boas sobre ela. Uma, registrada pelo folclorista Luis da Câmara Cascudo, trata do uso do bacurau como amuleto. Segundo ela, uma pena de sua asa cura dor de dente e outras mais. Quando o cavaleiro as coloca entre a manta e sela, sua montaria não cairá nem entrará em rio cheio. O autor também revela que um de seus nomes populares (mede-léguas) surgiu porque a ave passa a noite pelos caminhos, olhos acesos, contando as léguas numa medição gratuita e sem fim.

 

O também folclorista Eurico Santos, autor de vários trabalhos sobre o nosso reino animal, conta que para os nortistas brasileiros a esposa do curiango vive xingando o marido de joão-corta-pau, ao passo que ele, em resposta, a chama pelo apelido de maria-angu. Assim acontece em todas as noites, especialmente nas de lua-cheia, quando é possível se ouvir claramente os xingamentos vindos da beira das matas, dos campos ou dos cerrados: João-corta-pau! Maria-angu! João-corta-pau! Maria-angu! E dessa forma continuam eles trocando insultos pela vida à fora, mas sempre juntos, como costuma acontecer com certos bípedes implumes.

 

O boletim da Comissão Estadual de Folclore (nº 01-1997), editada pelo governo de São Paulo, publica a história do bacurau, que segundo ela é muito parecido e confundido com o curiango.  A narrativa diz que para participar de uma festa no céu, essa ave conseguiu convencer diversos outros pássaros a lhe emprestarem suas penas mais bonitas. E assim, todo embelezado, lá foi o bacurau para a festança, disposto a se divertir o quanto pudesse. Mas no dia seguinte ele não devolveu as penas a seus donos, como era de sua obrigação, e estes reclamaram a São Pedro, que reconhecendo a razão dos reclamantes acabou castigando a mal-agradecida, tornando-a uma ave de hábitos noturnos e que solta o grito amanhã eu vou, amanhã eu vou, referindo-se à devolução das penas.