TORRENTE E O RIO, A

Havia chovido muito nas montanhas altas que ficavam à direita do caminho por onde o viajante passava, e por isso as águas do pequeno rio que vinha da serra desciam com estrondo ensurdecedor, encachoeirando seu leito numa visão assustadora. O homem sabia que a perseguí-lo vinham dois salteadores desalmados, e por isso, considerando a ameaça terrível que dele se aproximava, ele hesitou só o tempo que lhe foi preciso para engolir o medo e decidir enfrentar os vagalhões espumantes que iam de uma margem à outra do curso d’água que barrava o seu roteiro.

 

Ele o fez, e assim colocou a torrente furiosa entre si e os ladrões. Mas isso foi por pouco tempo, porque os meliantes também a atravessaram, dando continuidade à perseguição. Mais adiante, já do lado esquerdo do caminho antes trilhado, região onde não havia chovido, o viajante em fuga chegou à margem de um outro rio, este calmo e sossegado, de margens lisas e praias de areia branca como a neve. Considerando o que havia passado momentos antes, ele imediatamente dirigiu seu cavalo para a água e iniciou a travessia que tinha como tranqüila e sem problemas.

 

Mas no meio do caminho um poço fundo engoliu o cavaleiro e seu animal, que atrapalhados e prejudicados pela quantidade e peso da carga que levavam, quase nada puderam fazer para evitar que afundassem e não mais retornassem à superfície das águas.

 

Moral da história: Homens quietos demais são perigosos. O mesmo não se dá com os espalhafatosos.

 

Baseado em uma fábula de La Fontaine