Chegado o seu momento de surgir para o mundo, o pinto decidiu abandonar a casca que lhe servira de incubadora. Para tanto ele a atacou a bicadas, e o fez com tanto empenho que as outras aves do galinheiro, inclusive alguns passarinhos que por ali se achavam, correram em alvoroço para o ninho em que o recém-nascido se encontrava, e o ouviram dizer, tão logo colocou a cabeça para fora do invólucro em que fora gerado, que a missão que lhe fora atribuída neste mundo era de grande responsabilidade, pois lhe competia a tarefa de fazer com que em todos os lugares, o não fosse substituído pelo sim.
Isso provocou uma enorme confusão no galinheiro, pois as galinhas, os patos, os gansos, os pavões, os canários, os abutres, as andorinhas e quem mais de pena se encontrasse no local, passaram a discutir a proposição inovadora, mas apesar das confabulações e votações seguidas, os interesses pessoais de cada participante não permitiam que se chegasse a um acordo.
Como era de se esperar, aquela barafunda acabou provocando o alheamento total a respeito do objetivo verdadeiro da discussão, o que somado ao cansaço generalizado, resultou em uma certeza absoluta: o pinto deveria voltar o mais depressa possível para a casca de onde saíra.
Moral da história: Idéias renovadoras são sempre encaradas com desconfiança e insatisfação pelos que deverão se adaptar a elas.
Baseado em uma fábula de La Fontaine.