AFOGAR O GANSO

Relação sexual, todo mundo sabe disso, é a prática do coito envolvendo geralmente dois indivíduos de sexos opostos ou não, cuja finalidade é o prazer e/ou a procriação. Porém, mesmo sendo um procedimento natural, corriqueiro, e até necessário, o encontro amoroso, no sentido do prazer carnal que proporciona aos parceiros, continua sendo uma espécie de tabu para homens e mulheres, que ao falarem dele preferem quase sempre utilizar a forma indireta, ou figurada. Essa é a razão pela qual os órgãos genitais humanos, nas diversas regiões do país, recebem uma grande quantidade de nomes e apelidos.

 

A palavra pênis vem de phallus (falo), de origem latina, muito utilizada simbolicamente para expressar força, poder e agressão, que culturalmente estão relacionados à visão de masculinidade, enquanto vagina vem do latim vaginae, significando bainha da espada, invólucro, casca, forma eufêmica de se indicar a condição de guardar, de envolver, de agasalhar. Como falar de ambos, abertamente, pode despertar vergonha e ansiedade nas pessoas, dada a função sensual que lhes é atribuída (tida como socialmente imoral), tornou-se comum denominar os dois órgãos de várias outras formas, primeiro porque isso atende à necessidade que impele o ser humano a reduzir o impacto ou esconder o sentido do nome real, criando apelidos para driblar os preconceitos sociais existentes, e depois porque é através delas que se pode expressar, qualificar ou ressaltar as características do órgão, como no caso de Pau, Espada, Mastro, Pistola, Ferro e Cacete, que representam objetos duros (o pênis em sua atividade fisiológica) e dotados de potencial agressivo, diferentes do mole e frágil Pintinho da criança.

 

É comum também o uso de nomes próprios, tipo o Braúlio, o Zezinho, a Ritinha e a Greta Garbo lá de baixo, ou então de animais, como Passarinho, Peru, Pinto, Minhoca, Perereca, Periquita, Pomba, além de outros que aparentemente não representam nada maldoso quando mencionados porque esse é justamente o seu objetivo, tais como Bilau, Piça, Pino, Xana, Xota, Xoxota, Xexeca. Mas a variedade desses nomes, apelidos ou eufemismos, é muito grande, vai bem além do que qualquer indivíduo possa imaginar, como demonstra a relação abaixo:

 

Para o pênis temos: alavanca-de-arquimedes, aparelho, arame, arma, badalhoco, badalo, bagre, banana, barbarroxa, bicho, bimba, bordão, brachola, caceta, cacete, cahado, caibro, camandro, cambanje, cambão, canivete, caralho, careca, carimbo, catano, catatau, catso, cazzo, chouriço, cobra, espada, espeto, espiga, estaca, estrovenga, ferramenta, ferro, fumo, fuso, ganso, instrumento, jeba, judas, lascão, lenha, lingüiça, madeira, mala, malho, mangalho, mango, manjuba, manzape, manzapo, marsapa, marsapo, marzapo, mastro, mastruço, membro, minhoca, minhocão, minhocuçu, nabo, negócio, nervo, parte, parte central, passarinho, pau, pau-barbado, pau-barbudo, pau-de-cabeleira, pau-de-fumo, pau-de-sebo, pé-de-mesa, peça, peia, peru, pica, piça, picha, pichuleta, picirica, piciroca, picolé, picolé-quente, pila, pimba, pingola, pinguelo, pingulin, pino, pinto, piroca, piru, pirulito, pissa, pistola, pito, piu,piuporraz, porrete, prativai, pua, reta, robalo, rola, sarrafo, seringa, tora, trolha, vara, verga, vergalho.

 

E para a vagina: aranha, babaca, bacalhau, barata, bichochota, bixoxota, bombril, boceta, buceta, brecha, buça, buraco, caranguejeira, carne-mijada, chana, chavasca, chibiu, chincha, chochota, chota, cona, cono, concha, crica, gaveta, greta, greta-garbo, grota, gruta, gruta-do-amor, inhanha, lacraia, lasca, manteigueira, negócio, nhanha, nica, pachacha, pachocho, pachoucho, pachucha, parte, parte central, passarinha, perereca, periquita, periquito, perseguida, pito, pixana, pomba, pombinha, precheca, quirica, racha, tabaca, tabaco, xana, xereca, xibiu, xinxa, xota, xoxota, xuxa.

 

Com o ato sexual acontece a mesma coisa. Por isso expressões como Afogar o ganso, Molhar o biscoito, Tirar o atraso, Trocar o óleo e outras mais, expressam com bem-humorada sutileza o relacionamento íntimo praticado por homens e mulheres, cada uma delas tendo a sua razão de ser, a sua causa, a sua origem. A primeira, por exemplo, é explicada da seguinte maneira: diz-se que em tempos passados, na época em que os costumes eram outros e por isso a permissividade não se manifestava da forma assustadora como acontece hoje em dia, quando é cada vez maior o número de meninas de 11 a 15 anos se tornando mães, os chineses que por qualquer motivo não tinham uma companheira, ou uma parceira habitual, nem mesmo condição financeira para procurar as profissionais do ramo, satisfaziam suas necessidades sexuais em gansos. Pouco antes de ejacularem, os homens mergulhavam na água a cabeça da ave de que se serviam, para que as contrações anais da vítima lhes dessem maior prazer.

 

Hoje em dia os orientais certamente já não fazem mais isso, porque a atividade sexual se tornou aberta e escancarada em quase todas as partes do mundo. Entre nós, brasileiros, ela é impulsionada pelas novelas apelativas, pela obsessão de uso do tema no ensinamento escolar primário, pela fartura de camisinhas distribuídas gratuitamente, pela indução sistemática presente em livros, jornais e revistas, pela vontade incontida de aparentar modernidade, o que paulatinamente vai transformando o país em um imenso e frenético balança-mas-não-cai. Por isso a expressão afogar o ganso permanece atualíssima, porque cada vez mais usada por homens e mulheres para demonstrar inteira obediência à recomendação divina: "crescei e multiplicai-vos”.