A calcinha, peça do vestuário usada pelas mulheres por baixo da roupa que vestem, tem uma história relativamente recente. Segundo os historiadores, o conceito moderno de roupa de baixo, modelo confeccionado com a finalidade de proteger as partes íntimas femininas, além de aquecê-las e manter sua higiene, tornou-se conhecido há quinhentos anos, mais ou menos, muito embora os usos e costumes de então tenham feito com que seu desenho, tamanho e praticidade fossem completamente diferentes da que hoje é conhecida em qualquer canto do planeta. No decorrer de cinco séculos, a concepção da calcinha, bem como a sua configuração e elaboração, foram sendo modificadas paulatinamente, fazendo com que ela, nos tempos atuais, deixasse de ser meramente funcional para transformar-se em uma poderosa arma de sedução.
Os estudos a respeito são poucos, mas apesar disso revelam que do império da Babilônia, situado entre os rios Tigre e Eufrates (atual Iraque), na Ásia, nos chegaram indícios de que cerca de 3.000 anos antes de Cristo as mulheres daquele povo usavam algo semelhante ao que, mais adiante, as gregas e romanas dos tempos antigos também faziam: elas amarravam ao corpo uma espécie de tanga, e para isso passavam entre as pernas uma tira comprida de couro (atada a uma corda fina na altura da cintura), ou de pano (presa ao corpo da mesma forma como hoje se faz com as fraldas dos bebês). Registros desse procedimento datam de 40 antes de Cristo, em Roma, revelando, inclusive, que faixas de tecido de algodão, lã ou linho, também eram amarradas na altura dos seios, para firmá-los.
Daí em diante, muito pouca coisa, ou quase nada, se conhece a respeito das calcinhas, e o que se divulga sobre elas é muito mais fruto da imaginação dos que se manifestam sobre o assunto, do que resultado de pesquisas sérias feitas em busca da verdade histórica. Diz-se, no entanto (e já aí como verdade aceita por quantos tenham algum tipo de ligação com a moda feminina), que em meados do século 16, Catarina de Médicis (1519-1589), rainha da França porque se casara em 1533 com o duque de Orleans, que assumiria o trono em 1547 com o nome de Henrique II, criou, ou mandou que criassem, uma espécie de calção inspirado nos culotes masculinos (calça larga da cintura até os joelhos, a partir dos quais se ajusta às pernas; usada na prática da equitação).
Isso porque, segundo dizem os pesquisadores, ela gostava de passear a cavalo, e não desejava que na hora em que fosse montar, ou apear, ou ainda se porventura caísse do animal, seus documentos ficassem expostos a olhos indiscretos, donde se depreende que naqueles tempos as mulheres não usavam coisa alguma por baixo das roupas (na ilustração abaixo, um calção semelhante ao de Catarina de Médicis).
Sobre essa mesma passagem dizem alguns pesquisadores que Catarina de Médicis, que era de origem italiana, teve, realmente, participação importante no aparecimento do acessório que até o século XVI não existia. Quando se viu traída por Henrique II, ela, que não era bonita, achou melhor explorar a parte mais interessante de sua anatomia: as pernas opulentas e chamativas para o gosto da época. Para tanto, ela inventou uma maneira nova de andar a cavalo, pois ao invés de acomodar-se numa cadeirinha, com as pernas juntas, como era o costume na época, sentou-se de lado, diretamente sobre o cavalo com as pernas cruzadas. Quando o vento soprou, a saia levantou. Só que para amenizar os protestos de ministros, usou por baixo das saias um tipo diferente de calção que constava de duas pernas presas a um cós, mas sem costura no meio, cobrindo as coxas e deixando de fora as pernas e os pés. Apesar disso, os protestos continuaram, já aí sob a alegação de estar uma mulher usando roupas de homem. De qualquer forma, estava inventada, não a calcinha, mas o calção.
A partir dessa época a roupa íntima feminina foi evoluindo aos poucos, tornando-se mais elaborada e com melhor acabamento, procurando apertar mais a cintura e os seios para que ficasse a impressão de quadris bem largos. Foi quando o espartilho surgiu na Espanha, ainda no mesmo século. Tratava-se de uma peça do vestuário feminino com barbatanas metálicas e amarração nas costas, que tinha como objetivo reduzir a cintura e manter o tronco ereto, a fim de lhe dar maior elegância. Dela se dizia que “Cada vez mais apertada para modelar o corpo, essa peça acabou obrigatória para mulheres, provocando desconforto e alguns desmaios”. Tais modelos sufocavam a mulher enquanto lhe achatavam o busto, mas apesar disso tornaram-se populares nesse período.
No final do século 18 os calções foram substituídos por collants que iam dos pés à cintura. A Imperatriz Josefina (1763-1814), esposa de Napoleão Bonaparte, só usava collants da cor da pele. No início do século 19, o calção, que ainda estava longe de ser calcinha, passou a ser enfeitado com rendas, bordados e outras guarnições, embora permanecesse escondido. Por volta de 1870 a calcinha começou a ser encurtada pouco a pouco, mas com o advento da Belle Epoque, período na história da França que começou no fim do século 19 e se estendeu até a guerra de 1914-1918, as pernas finalmente apareceram. Com a revolução da moda, após o encerramento do conflito mundial, os calções foram dando lugar a calças menores. Até que na década de 20 os vestidos curtos impuseram o uso definitivo da calcinha.
Após a Segunda Guerra Mundial (1938-1945) ela foi encurtando mais e mais, até transformar-se nos modelos atuais que atendem todos os gostos e preferências. Para preservar a memória dessa evolução, a exposição Knickers! 500 years of Underwear (Calcinhas! 500 anos de Peças Íntimas) apresentou há pouco tempo em Londres, Inglaterra, cerca de 100 peças de roupas íntimas, mostrando modelos de calcinhas, sutiãs e camisolas usados pelas mulheres do século 16 até agora.