Relembrando - em texto de sua autoria - os ataques de tubarões a surfistas e banhistas, ocorridos de 1992 a 2002 em praias da região metropolitana de Recife, o professor Fábio Hissa Vieira Hazin, diretor do Departamento de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (www.depaq.ufrpe.br), ressalta a inexistência de registros anteriores desse tipo de acidente, naquele trecho da orla marítima pernambucana.
Segundo o cientista, o tamanho dos peixes envolvidos nos ataques variou de 1 a 3m, aproximadamente, tendo sido confirmados como espécie agressora o tubarão tigre, em um caso, e o cabeça-chata, em pelo menos seis. Essa assustadora constatação provocou a proibição da prática do surfe na área de risco (entre o porto de Suape e o porto de Recife), decretada pelo governo do estado em janeiro de 1995 e confirmada por decreto de 1999.
Discorrendo sobre o assunto, o professor informa que desde 1994 o Laboratório de Oceanografia Pesqueira, do departamento por ele dirigido, realiza pesquisa sobre a presença de tubarões nas águas do litoral recifense, inclusive sua distribuição, abundância, reprodução e hábitos alimentares, além das possíveis causas do aumento na incidência de ataques. Paralelamente, a instituição realizou em Recife, no período entre 14 e 18 de novembro de 1995, um seminário internacional sobre acidentes provocados por tubarões, do qual participaram diversos cientistas nacionais e de países como a Austrália, Estados Unidos e África do Sul, evento que serviu para apontar os prováveis motivos desse aumento no número de agressões, sendo indicado como principal deles a construção do porto de Suape, ao sul de Recife, que provocou grave impacto ambiental e acentuado aumento no tráfego marítimo.
Ao que tudo indica, sugere o professor, “os navios parecem exercer uma ação atrativa para os tubarões, aumentando a probabilidade dos mesmos se aproximarem da praia”. E esclarece que esses peixes “reconhecidamente costumam seguir grandes embarcações, atraídos pelos restos de alimentos e dejetos lançados ao mar, ou mesmo pelo som emitido pelo motor e pela hélice. Em quase um quarto dos ataques a seres humanos, há indicações do lançamento de lixo e dejetos em áreas próximas, o que demonstra claramente que os tubarões são atraídos e/ou excitados pela presença dos mesmos”. Concluindo o raciocínio, Hazim assevera que “Áreas portuárias são consideradas potencialmente perigosas em função da maior abundância de tubarões, provavelmente atraídos pelo lixo que os navios comumente despejam no mar. Esses resultados parecem indicar, portanto, que a presença de navios pode exercer uma influência direta no comportamento dos tubarões. Os navios costumam trafegar em rotas distantes da costa, próximas ao talude continental, habitat de espécies e indivíduos de maior porte, que podem ser atraídos pelas grandes embarcações para áreas mais rasas, alcançando então as zonas portuárias, como no caso de Suape”.
Para o professor, o grave impacto ecológico provocado pela construção do porto inclui a destruição de manguezais, aterros e até mesmo o desvio do curso de dois rios (Ipojuca e Merepe), acarretando com isso o desaparecimento de áreas relativamente virgens provavelmente freqüentadas por fêmeas do tubarão cabeça-chata como maternidade, “já que é comum, nessa espécie, o hábito de parir os seus filhotes em desembocadura de rios”. A partir da degradação ambiental verificada, é provável que um número maior dessas fêmeas tenha passado a se deslocar para o estuário mais próximo, o do rio Jaboatão, localizado ao norte, que deságua próximo às praias aonde ocorreram todos os ataques. A captura de fêmeas prenhes de cabeça-chata, no estuário do referido rio, parece confirmar esta hipótese”.
O professor Fábio lembra, também, que ataques de tubarão aos seres humanos não constituem problema recente, já que deles se tem conhecimento desde que o primeiro banhista resolveu refrescar-se nas águas do mar. O que ainda não se sabe é por que eles fazem isso, acreditando-se que na maior parte das vezes a investida aconteça por engano, ou seja, pelo fato do homem ter sido confundido com uma presa regular.
É por esse motivo que na maioria dos casos os predadores soltam suas vítimas após o ataque (e se afastam da área), e elas morrem quase sempre por hemorragia. Não é incomum, inclusive, o tubarão decepar um membro para regurgitá-lo em seguida. Ataques podem ainda acontecer quando os tubarões se sentem ameaçados pela presença humana, ou em defesa de seus territórios.
A exemplo do que tem acontecido nas praias do Recife - explica Fábio Hazim - os surfistas são as vítimas mais freqüentes dos tubarões em razão das características peculiares à prática deste esporte, entre elas o costume dos praticantes passarem a maior parte do tempo sobre as pranchas, com as pernas e braços balançando dentro d’água, o que para o tubarão pode se assemelhar aos movimentos de um peixe debatendo-se na superfície. Por esse motivo, em quase todos os casos de ataques a região atingida foi a dos membros inferiores ou superiores. Além do mais, a prática do surfe ocorre necessariamente na zona de arrebentação, que tem correntes, ondas fortes e profundidade geralmente maior que na área freqüentada pelos banhistas, o que força o tubarão a decisões e movimentos rápidos, dificultando assim a identificação de uma presa em potencial.
Os tubarões não se alimentam de seres humanos, preferindo principalmente pequenos peixes e, em menor escala, moluscos e crustáceos, conforme evidenciado pelo estudo de seus hábitos alimentares.
Avançando em seu raciocínio, o cientista assegura que “a análise dos casos de ataque não deixa nenhuma dúvida de que os mesmos não foram causados por um único tubarão, apesar de indicarem que em alguns casos seqüenciados, e com grande proximidade de data, um único animal possa de fato ter sido responsável. O padrão parece seguir o modelo mais comum em casos de ataques sucessivos, em que animais isolados, ao que parece, permaneceriam em uma determinada área por breves períodos de tempo, afastando-se da mesma após uma curta série de ataques. A hipótese de que os ataques tenham sido provocados por indivíduos isolados parece encontrar respaldo nos baixos índices de abundância observados”.
E finaliza: “Definitivamente, a costa de Pernambuco não se encontra infestada por tubarões, não se podendo, conseqüentemente, atribuir a elevação do número de ataques a uma superabundância de exemplares dessa espécie”.