HOMEM QUE O BOTO LEVOU, O

O município de Tapauá, no Amazonas, foi criado pela Lei Estadual 96/1955, publicada no Diário Oficial do Estado em 20 de dezembro de 1955. Assim como Brasília-DF, Tapauá não se originou de algum povoado ou vila porque já nasceu cidade, recebendo como nome o do rio às margens do qual foi sendo erguida.

 

Daniel Albuquerque, ex-prefeito tapauense, esclarece em seu livro Tapauá - 1ª Geração, que ao contrário do que acontece hoje em dia, o município, naquela época, poderia ser instalado logo após sua criação, pois havia a figura do prefeito nomeado - geralmente um aliado do governo, ou então um parente ou amigo do mesmo. Foi assim que o governador Plínio Ramos Coelho nomeou Antônio Ferreira de Oliveira, também chamado de Antônio Cariri, como prefeito do novo município, tendo este cidadão, em 1º de fevereiro de 1956, proferido declaração solene de instalação do território municipal recém-criado na localidade Foz do Tapauá, iniciando em seguida as suas atividades administrativas.

 

Como acontece normalmente em todas as regiões que ainda preservam o misticismo cultural dos grupos étnicos que as habitavam em tempos passados, as cidades que surgiram e cresceram em meio à floresta amazônica são ricas em lendas que gerações de seus habitantes mantiveram vivas, apesar da passagem do tempo. E Tapauá não constitui uma exceção a essa regra, já que a história do Homem que o Boto Levou testemunha a veracidade desse comportamento.

 

No relato da professora aposentada Maria das Dores Abreu dos Santos, de 51 anos, publicado no livro Universo Mítico da Amazônia – Resgatando a arte de contar histórias, tudo aconteceu há muitos anos, “em uma tarde de verão como outra qualquer”, quando alguns amigos saíram para pescar no rio que passava próximo à vila em que moravam. Eles faziam isso quase todos os dias, sempre no horário costumeiro: nessa hora, cada um deles pegava a sua canoa e saía remando correnteza acima, levando a vara de pescar e iscas, buscando o igapó (trecho da floresta invadido pela enchente, onde a água fica estagnada) em que tentariam capturar os peixes que desejavam levar para casa. Horas depois, já à tardinha, eles se encontravam novamente e, nessa oportunidade, quem havia pescado muito tucunaré, por exemplo, trocava alguns deles com qualquer dos companheiros que estivesse trazendo maior quantidade de alguma outra espécie.

 

Naquele dia, às seis horas da tarde, quando todos já deveriam ter retornado, ainda faltava um, de nome Biriba. Seus amigos preocuparam-se com a ausência, e logo alguns saíram à sua procura. Quando a notícia se espalhou, a cidade inteira se mobilizou esperançosa, mas anoiteceu, amanheceu, e Biriba não apareceu. Durante alguns dias as buscas continuaram, embora sem resultado, pois não encontraram nem a canoa, nem o corpo, e muito menos qualquer sinal de que Biriba tivesse estado no rio. Após uma semana a família do pescador conformou-se com o seu sumiço e mandou celebrar a missa de sétimo dia, última homenagem que poderia lhe ser prestada.


Como nessa vida tudo passa, em pouco tempo todos se referiam naturalmente ao pescador como o finado Biriba. Até que na missa de um mês, quando parentes e amigos estavam reunidos em frente à igreja construída em um barranco mais alto do Tapauá, aguardando o início da celebração religiosa, alguém avisou que no meio do rio, ainda bem distante, vinha vindo um homem em sua canoa. Na medida em que o mesmo foi se aproximando devagar, os que o observavam perceberam que ele era magro, muito magro, e que estava fazendo muita força para remar contra a correnteza. Pouco depois, os que assistiam a essa cena olharam-se boquiabertos, parecendo não acreditar no que os seus olhos estavam lhes mostrando. Pois o canoeiro era ele, o finado Biriba, que reaparecia depois de permanecer desaparecido durante trinta dias. Era ele mesmo, bem mais magro e muito abatido, mas vivo. E era isso que importava.

 

Assim que colocou os pés em terra ele desmaiou. Levado às pressas para o hospital, lá foi medicado e colocado em repouso absoluto porque não falava coisa com coisa. O pouco que alguns conseguiram entender foi o alerta incompreensível de que os botos iriam se vingar, mensagem que o médico procurava explicar, ou amenizar, dizendo que “ele está delirando porque muito fraco”. Dias depois, quando finalmente deixou o hospital já em condições normais de vida, Biriba revelou aos amigos mais chegados que fora levado pelos botos para onde existia uma grande cidade no fundo do rio, habitada por botos e sereias, e que nela ele tivera oportunidade de perceber a presença de muitos humanos - homens e mulheres, adultos, jovens e crianças - que também haviam sido levados pelas criaturas das águas (na ilustração, desenho de Denis José Pinheiro Ribeiro).

 

Por pura sorte ele havia conseguido fugir, embora soubesse que estava marcado, que não tinha mais jeito, pois seus raptores tentariam levá-lo novamente para as profundezas do rio. O único meio de escapar desse destino indesejável, o único recurso ao seu alcance seria o de nunca mais entrar no Tapauá, o que ele conseguiu fazer durante muitos anos, vivendo sempre afastado das margens ribeirinhas, das pescarias e das festas noturnas em embarcações ou em lugares situados a pouca distância das águas que lhe transmitiam a sensação de ameaça.

 

Até que depois de muito tempo, em um dia de sol brilhante, Biriba acreditou que já não seria tão perigoso ir até ao flutuante do outro lado do rio, onde se realizava uma festa. O dia era de calor escaldante, insuportável, e por isso a vontade de refrescar o corpo levou o rapaz a imaginar que não haveria risco algum em banhar-se na beira do Tapauá que lhe fazia tanta falta. Por isso ele avançou sem hesitação pelo leito do rio à dentro, até sentir o frescor da água acima da barriga, e então se agachou para molhar a cabeça. Foi o seu último mergulho.

 

Os que buscavam seu corpo insistiram nessa tarefa durante vários dias, a vila mais uma vez se mobilizou esperançosa, mas desta vez o Biriba nunca mais voltou a ser visto pelos moradores da comunidade ribeirinha.