O bairro da Graça, um dos mais antigos de Salvador, fica no local inicialmente conhecido como Vila Velha, e sua localização no alto de um morro tinha como finalidade estratégica permitir uma visão panorâmica do mar, o que dava à cidade condição de preparar-se defensivamente contra ataques inimigos. Na Graça está situada a primeira igreja construída em Salvador, a de Nossa Senhora da Graça, por ordem de Catarina Paraguaçu, mulher de Diogo Álvares, o Caramuru.
Catarina Álvares Paraguaçu (?-1586), ou simplesmente Catarina do Brasil, era o nome cristão de uma índia tupinambá nativa da região onde hoje se encontra a cidade de Salvador, capital baiana. Segundo o frei Santa Rita Durão, que escreveu o poema Caramuru, ela era conhecida como Guaibimpará, e não Paraguaçu (que significa mar grande), e teria sido oferecida por seu pai, o cacique da tribo, a Diogo Álvares Correia, o Caramuru (1475/1557), um náufrago português que gozava de grande prestígio entre os tupinambás daquela região, facilitando, por isso, o contato entre os primeiros administradores e missionários portugueses. Os restos mortais de Catarina Paraguaçu repousam na Igreja da Graça, em Salvador.
Os dois são protagonistas de uma passagem que se tornou lendária na história baiana, cujo conteúdo diz que ambos moravam na aldeia dos índios que o tinham acolhido, situada na entrada da baía de Todos os Santos. Certo dia, logo depois que o sol se mostrou por inteiro acima do horizonte, ela lhe disse que naquela noite havia sonhado duas vezes com um navio destroçado e encalhado bem próximo a uma praia que não reconhecera, com alguns homens em farrapos ainda em seu interior. Mas o que lhe despertara a atenção fora a presença, entre eles, de uma mulher muito bonita, de pele clara, muito clara, carregando nos braços uma criancinha que dormia tranqüila e sossegada.
Como também já havia vivido o drama de um naufrágio que causara a morte de todos os seus companheiros, Caramuru entendeu que o sonho de Paraguaçu teria sido um aviso dos céus, e por isso ele e mais alguns índios embarcaram em meia dúzia de canoas e passaram a explorar as praias vizinhas à procura dos restos de alguma embarcação naufragada, pois eles certamente lhes indicariam onde procurar os sobreviventes que sua esposa mencionara. Mas o dia findou, e nada foi encontrado. Nessa noite, o sonho se repetiu, e por isso Caramuru organizou novas buscas que novamente terminaram sem sucesso. Uma semana depois, quando chegou até eles a notícia de que um navio havia afundado ao largo da ilha de Boipeba, ao sul de Salvador, Diogo Álvares partiu em socorro dos náufragos, que encontrou e os levou para sua aldeia. Mas nenhuma mulher estava entre eles.
Nessa noite Paraguaçu voltou a sonhar com a moça. Que lhe apareceu sozinha nessa nova visão noturna, pedindo-lhe que a mandasse buscar e que fizesse uma casa para ela. De sua fisionomia transparecia tanta paz, tanta ternura, tanta harmonia e suavidade, que a índia despertou extasiada, e jogando-se aos pés do marido suplicou-lhe que retornasse imediatamente à ilha de Boipeba e que lá procurasse a misteriosa criatura com atenção redobrada. Foi o que ele fez.
Chegando ao local, Diogo procurou pela moça dos sonhos da esposa em todas as aldeias tupinambás da região, pois conhecedor, como era, dos costumes indígenas, ele suspeitava que ela pudesse ter sido escondida por alguns deles. E de tanto vasculha-las acabou encontrando em certa cabana uma mala velha que as ondas do mar haviam levado até a praia, juntamente com outros destroços do navio naufragado. Ao abri-la, o jovem português quase não acreditou no que viu guardado em seu interior: uma imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus em seus braços. Suas feições eram idênticas às que lhe haviam sido descritas pela esposa, e isso o deixou muito alegre e satisfeito.
Retornando à aldeia ele entregou a imagem à sua mulher, que a reconheceu de imediato e a abraçou chorando, com respeito amoroso. Em seguida pediu ao marido que mandasse erguer uma ermida para a santa, o que ele fez em pouco tempo, levantando uma ermida de taipa perto de sua casa e nela guardando a linda imagem que trouxera da ilha. Mas deu-lhe o nome de Nossa Senhora da Graça em atenção ao fato de que fora ela que o conduzira até os marinheiros resgatados. Algum tempo depois Diogo construiu outra igrejinha, dessa vez usando pedra e cal, e esta, por sua vez, foi reedificada em 1770.
Nas palavras de Theobaldo Miranda Santos, professor, escritor e folclorista, essa é, em linhas gerais, a história e a lenda da abadia de Nossa Senhora da Graça, protetora dos náufragos, onde jazem as cinzas da piedosa esposa de Diogo Álvares Caramuru. A imagem que ainda hoje se venera no altar-mor dessa igreja é a mesma que foi encontrada na palhoça do índio de Boipeba, há quase cinco séculos.
O Primeiro Congresso da História da Bahia (1949), promovido pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, fez colocar na fachada da Igreja da Graça uma placa de mármore com os seguintes dizeres:
“O PRIMEIRO CONGRESSO DE HISTÓRIA DA BAHIA TRIBUTA A GRATIDÃO NACIONAL A DIOGO E CATARINA ALVARES CARAMURU, PRIMEIRO CASAL CRISTÃO DESTA TERRA, ONDE O MILAGRE DO SEU AMOR FLORESCEU NA CIVILIZAÇAO – QUE ASSIM COMEÇOU – E NA CIDADE QUE O IMORTALIZA. - 1549 - MARÇO - 1949”