MARCAS DA IDADE

Provavelmente já aconteceu de você, ao olhar para alguma pessoa da sua faixa de idade, avaliar que as dezenas de anos vividos provocaram muitos mais “estragos” nele, ou nela, do que em si mesmo. Diz o ditado que cada um só vê aquilo que quer, e por isso uma mulher, vítima dessa situação, conta que:

 

Eu estava sentada na sala de espera para a minha primeira consulta com um novo dentista, quando observei que o diploma do mesmo estava dependurado na parede. Ao lê-lo, constatei que o nome nele escrito era idêntico ao de um moreno alto que estudara na mesma classe que a minha, no colegial, cerca de quarenta atrás, e por isso eu me perguntava se não estaria enganada, se ele seria, realmente, “aquele” rapaz por quem eu havia me apaixonado na época, mas, infelizmente, sem ser correspondida.  

 

Perdida em meio a essas lembranças agradáveis dos tempos de escola, não me dei conta da passagem do tempo até ser convidada a entrar na sala de atendimento, mas quando fiz isso tratei imediatamente de afastar do meu espírito esse pensamento porque me deparei lá dentro com um senhor grisalho, de calvície acentuada, rosto profundamente enrugado e marcado não sei se por dissabores, preocupações ou desenganos. E pensei, desapontada: “Não é ele! Esse cara é velho demais, não pode ter sido o meu amor secreto!”.

 

Ficamos em silêncio durante o exame do dente que eu desejava tratar, mas quando tudo terminou perguntei, assim como quem não quer nada, se ele tinha sido aluno do colégio em que eu estudara.

 

- Sim – foi a sua resposta.

 

- Quando se formou? – voltei a perguntar.

 

- Em 1965. Mas por que essa pergunta?

 

- Bem… Pelo que estou percebendo, você era da minha classe - consegui exclamei meio desajeitada.

 

E então aquele velho horrível, cretino, filho de uma puta, me perguntou com cara de quem não está nem aí para a informação que eu acabara de lhe dar:

 

- A senhora era professora do quê?