No século 10 o Ocidente foi marcado por um grande desenvolvimento, mas mesmo assim ainda não havia coesão como no Oriente, onde se situavam enormes impérios unidos religiosa e politicamente. O bizantino, que resistiu às invasões bárbaras até o século 11, constituía um posto avançado do cristianismo no mundo oriental, mas essa situação mudou quando nômades asiáticos se instalaram na região da atual Bulgária, sendo logo seguidos por normandos que tentaram ocupar parte da Grécia, e também por turcos que chegaram a Anatólia após terem conquistado a Pérsia e parte do Egito. Em 1071, Damasco e os lugares santos eram dominados pelos otomanos.
Diante disso o papa Urbano II, no Concílio de Clermont, realizado em 1095 (na iustração acima, pintura retratando Urbano II presidindo o Concílio de Clermont), apelou aos reis e chefes cristãos no sentido de que organizassem uma cruzada para salvar o império bizantino do perigo muçulmano, já que considerava um dever do mundo cristão a defesa de Constantinopla, sua capital, ameaçada pelos infiéis. Contudo, a fé não era o único estímulo para essas expedições, pois além do interesse de mercadores italianos que previam bons negócios salvando o império ocidental, a igreja também pretendia desviar os guerreiros europeus para um novo objetivo, o Oriente, uma vez que isso acabaria com as lutas entre eles e reforçaria o seu poder. Retornando às suas terras, bispos e cavaleiros difundiram pela Europa o apelo papal, recomendando que os futuros salvadores do Oriente deveriam mostrar uma grande cruz em suas vestes (daí o nome cruzadas dado às lutas que se seguiram). A partir dessa convocação, grupos organizados na França juntaram-se às forças do cavaleiro franco Gautier-Sans-Avoir e partiram rumo ao Oriente. Chegando a Constantinopla, a Cruzada Popular, como ficou conhecida, acabou destruída no primeiro ataque desfechado pelos turcos.
Enquanto isso, os preparativos da cruzada oficial chegavam ao fim com a formação e partida de quatro exércitos compostos por alemães, flamengos, franceses, italianos, ingleses e outros, que chegaram a Constantinopla em maio de 1097. Em 1º de julho, depois de conquistarem Nicéia, eles derrotaram os turcos em Doriléia e se dirigiram para Antióquia, que sitiaram durante um ano. Apoderando-se da cidade em 04 de junho, os cristãos logo foram cercados e isolados pelos persas e turcos, sendo salvos, segundo uma lenda, graças à descoberta de uma lança sagrada que os estimulou para o combate e vitória. Em 13 de janeiro de 1099 os cruzados (ilustração - Larousse-1922)artiram em direção a Jerusalém, ultrapassaram Trípoli, Beirute e Tyr, e alcançaram a cidade santa em 14 de julho, tornando-se senhores da mesma no dia imediato.
Os vencedores pretenderam, então, partilhar suas conquistas. Enquanto o papa Urbano II reivindicava a soberania pontifical sobre os lugares santos, eles instalaram o reino de Jerusalém e coroaram Boudin de Boulogme em 1100. Para melhor controlar o Oriente, constituiu-se também o condado de Tripoli e o principado de Edessa, ao mesmo tempo em que o reino recém-instalado fez dos outros principados francos seus vassalos. Mas essa dominação era precária, não só porque os cruzados se achavam cercados pelos turcos, mas principalmente porque vários vassalos cristãos guerreavam freqüentemente entre si, enfraquecendo-se e abrindo brechas que permitiam o avanço das forças inimigas. Para proteger os cavaleiros que estavam no Oriente o papa criou uma ordem especial, a dos Templários, e transformou a dos Hospitalários em uma milícia de cavaleiros-monges vivendo unicamente para defender o Santo Sepulcro. Dessa forma, os Templários, extremamente corajosos e fanáticos, e os Hospitalários, formaram o exército permanente que até então faltava ao reino de Jerusalém.
Em 1144 o condado de Edessa caiu nas mãos do emir Mossol. Para complicar a situação, o principado de Antioquia foi forçado a reconhecer a suzerania de Bizâncio. Foi então que o novo papa, Eugênio III, decidiu organizar outra cruzada para pôr ordem nas colônias cristãs do Oriente, mas dessa vez não foram apenas príncipes e duques que dirigiram a expedição. As cruzadas tiveram como chefes os próprios reis europeus: o imperador Conrado II à frente dos alemães e o rei Luiz VII chefiando os cavaleiros franceses. Em 1148 esses dois soberanos tentaram tomar Damasco, mas a expedição terminou de modo catastrófico, pois além da cidade não ser conquistada, o principado de Antioquia foi ocupado parcialmente pelos turcos, e seu príncipe, Raimundo de Poitiers, assassinado.
Em 1171, um acontecimento ainda mais grave ameaçou os francos no Oriente. A dinastia egípcia dos Fatimidas, em plena decadência, entregou seu trono aos turcos, sem combate, e com isso o príncipe Saladino conseguiu colocar a Síria e o Egito sob seu domínio. Fortalecido por esses dois povos religiosamente ligados, Saladino resolveu expulsar os cruzados da Síria. Violentos combates foram então travados entre os dois oponentes, os turcos combatendo fanaticamente e movidos pelo desejo de vingar os peregrinos que haviam sido chacinados pelos cristãos quando se dirigiam a Meca. Em 1187, Guy de Lusignan, rei de Jerusalém, deixou-se influenciar por Gerard de Rideford, chefe dos templários, e decidiu atacar as tropas turcas que cercavam sua cidade, mas acabou sendo aprisionado. Os monges templários, barões e duques que estavam com ele foram decapitados, destino de que só escapou o rei, depois libertado (na ilustração, cavaleiros templários, em tela de Juan Díaz).
Em 20 de dezembro de 1187 o exército sarraceno chegou às portas de Jerusalém, que capitulou sem combater. Em conseqüência dessa rendição, 16.000 cristãos foram vendidos como escravos pelos turcos, e do reino de Jerusalém só restaram aos francos as cidades de Tyr, Trípoli e Antioquia. Não havia mais rei, e Saladino era o único senhor da região. Mas a chegada do cavaleiro Conrado de Montferrat deu novo alento aos cruzados, que saindo de Tyr esboçaram uma reconquista. Além disso, a notícia da queda de Jerusalém alvoroçou a Europa e uma terceira cruzada foi imediatamente organizada pelo papa Clemente III, dela tomando parte os reis mais importantes da Europa: Frederico Barba-Ruiva (que morreu na conquista de Chipre aos bizantinos), Ricardo Coração de Leão e Filipe Augusto. Mas Jerusalém não capitulou, apesar dos ataques que sofreu. Impacientes, os reis europeus optaram por uma negociação, e assim, em fins de 1191, os dois lados firmaram um compromisso: a cidade permanecia em mãos turcas, mas os cristãos tinham livre acesso ao Santo Sepulcro.
Os reis retornaram à Europa porque conflitos nacionais (guerra entre a França e a Inglaterra) eram mais importantes que os problemas do Oriente. Abandonou-se então, por algum tempo, a idéia de libertar Jerusalém.
Fonte: Enciclopédia Abril – Atlas da História Universal.