HOMEM CAÇADOR, O

Durante mais de 3 milhões de anos o homem viveu caçando animais selvagens e colhendo frutas, sementes e mel. Esta forma de vida, a primeira com a qual ele subsistiu após ter atingido um estágio de evolução mais aperfeiçoado, baseava-se na divisão do trabalho, na criatividade e na cooperação. O conhecimento que temos desse estilo de comportamento provém, de um lado, do estudo de povos que ainda hoje vivem da caça e da coleta, e de outro, das evidências presentes nos restos e artefatos usados pelo homem primitivo, muitos deles na forma fossilizada.

 

A partir de dado momento as características físicas que o homem havia alcançado lhe permitiram desenvolver melhores técnicas de caça e coleta de alimentos, dando-lhe a condição de que precisava para estender sua presença além das terras originais da África, penetrando pela Ásia e Europa e cruzando mais tarde para a América e para a Austrália. Sobre essa fase é possível obter dados a partir dos ossos desmembrados dos animais caçados, das armas e utensílios com que o homem feria, matava suas presas e tratava da carne, tendões, ossos e peles, e, posteriormente, pelas gravuras, esculturas e pinturas feitas em cavernas. Neste período o homem desenvolveu seu cérebro e sua destreza em relação ao uso das armas e ferramentas de que precisava, usando para fabricá-las, preferencialmente, o quartzo, a obsidiana, o sílex, a quartzita e outros materiais rochosos capazes de se manterem afiados.

 

Os utensílios mais antigos, apesar de rudimentares e simples, eram adequados ao absolutamente necessário: cortar a carne e esmigalhar os alimentos vegetais. Com o Homo erectus encontram-se ferramentas cortantes maiores, mais elaboradas e diversificadas, enquanto outros restos indicam que há uns 450 mil anos ele não só usava o fogo para cozinhar, como também era capaz de organizar a perseguição em grupo e a coordenação inteligente das ações necessárias à captura e sacrifício de grandes animais. Em outros jazigos de Homo erectus têm-se encontrado machados de mão mais refinados, onde o processo de desprendimento das lascas prosseguia ao redor da pedra para lhe dar duas faces com aresta irregular. No entanto, a confecção de ferramentas mais sofisticadas tem relação direta com o homem de Neanderthal, um novo tipo humano cujo cérebro era de tamanho semelhante ao do homem moderno (1.500 cm3), embora seu crânio tivesse um formato diferente e seus membros se assentassem sobre ossos mais robustos. Suas ferramentas consistiam numa combinação de machados manuais e lascas, raspadores pontiagudos, folhas de faca na forma de triângulo, pedras de martelo e pequenos machados de mão.

 

O período Neanderthal, que precede e avança pela última glaciação européia, proporciona a primeira evidência clara do desenvolvimento de práticas rituais, como por exemplo, a dos enterros, o que levanta a hipótese de que eles possivelmente aceitavam a idéia de uma vida futura. Entretanto, somente na aparição do Homo sapiens moderno, durante a última glaciação, é que a forma de vida baseada na caça atinge toda sua riqueza e complexidade. Este homem foi o inventor das pontas de lança de osso, assim como também as características pontas de pedras para lanças e flechas, além de desenhar arcos e arpões belamente decorados. A partir daí ele conseguiu caçar suas presas a certa distância, de tal maneira que ampliou suas possibilidades de alimentação e exploração dos animais, não se descartando uma possível domesticação incipiente de certas espécies.

 

O homem primitivo exibiu muito cedo alguns pendores artísticos, pois as pinturas rupestres (desenhos pré-históricos em grutas e cavernas) testemunham sua grande habilidade e poder de imaginação. A arte por eles desenvolvida sempre teve a ver com os animais, pois reproduzia à tinta nas paredes de pedra, e de forma quase obsessiva, a vida selvagem que se desenvolvia à sua volta. Nela, as figuras humanas quase nunca aparecem, e quando isso acontece, são mostradas como caçadores atacando os animais, ou como sacerdotes realizando ritos mágicos, vestindo peles de animais. Outro aspecto da arte primitiva que tem despertado admiração são as esculturas de ossos, marfim e chifre de animais, descobertas na Europa e Ásia Oriental. A figura feminina é a mais notável. Com seios, ventres e coxas exagerados, ela tem servido para alguns estudiosos associarem-na com a imagem de Vênus, e deve ter sido usada como símbolo da fertilidade. Qualquer sinal ou detalhe sugere que as imagens e figuras eram manipuladas com certos fins determinados, e dessa forma, em alguns casos, estas figuras estão rodeadas de representações de animais, o que poderia significar que foram usadas como talismãs para as caçadas. Foram encontrados também alguns objetos de osso que mostram uma série de corte e incisões, os quais têm sido interpretados como evidência de um precário sistema para numerar e registrar, desenvolvido por essas comunidades primitivas. Os avanços em tecnologia e cultura mostram o homem dos fins da última glaciação com um desenvolvimento e habilidade intelectual que o situa muitíssimo mais adiante que qualquer outro homem até então.

 

O Homo erectus estendeu-se pela África até a Europa e Ásia, mas para o Homo sapiens ficou a missão de completar o processo, ocupando os continentes restantes da Austrália, Ásia e América. O clima rigoroso da última glaciação foi um aliado neste avanço do homem, porque ao congelar grandes quantidades de água perto dos pólos, provocou rebaixamento nos níveis dos mares no mundo, o que fez surgir, em muitos casos, pontes de terra ou gelo unindo continentes. Esse é o caso de Austrália e Tasmânia, que conformaram novos territórios como Nova Guiné, Filipinas e Indonésia, reduzindo a distância entre a Austrália e as terras do Sudeste asiático, e permitindo, assim, o povoamento dessas regiões. Da mesma forma, outra faixa uniu Coréia e Japão, possibilitando a colonização deste último, e mais ao norte no Estreito de Bering, ligando a Ásia à América e ensejando a passagem, de lá para cá, de grandes quantidades de animais, tais como bisões, cavalos, alces e mamutes, entre outros, atrás dos quais avançou o homem caçador.

 

Anos depois o homem tinha percorrido este continente americano em toda a sua extensão, atingindo inclusive os seus pontos mais meridionais, como o Chile e a Terra do Fogo. Há dez mil anos, quando a última gladiação chegava ao fim, o homem tinha-se estabelecido em quase todas as partes, transformando-se, assim, no ser mais disseminado, próspero e produtivo de todo o mundo.

 

Fonte: Atlas da História Universal.