ÁGUA DE CHUVA

A água é o composto mais amplamente distribuído pela Terra, podendo ser encontrada naturalmente como sólido (sob a forma de gelo ou neve) no cume das montanhas, nos pólos terrestres e sempre que a temperatura cai abaixo de 0°C. Como líquido ela cobre cerca de três quartos da superfície terrestre, formando os mares, os rios e os lagos; e como gás, sob a forma de vapor d’água presente no ar atmosférico, sendo interessante salientar que o ar que gravita sobre um quilômetro quadrado da superfície terrestre contém, em média, dezoito mil toneladas dessas gotículas em suspensão.

 

As águas naturais não são puras porque contém impurezas como sais e gases desenvolvidos, matérias em suspensão, bactérias e micro-organismos, e muitas vezes apresentam-se coloridas e com sabor ou cheiro desagradável. A mesma coisa acontece com a que é proveniente da chuva, pois em nenhum lugar do mundo esse tipo de precipitação está completamente livre de misturas, uma vez que quando essas gotinhas se formam, reúnem também um pouco de tudo que está ao seu redor e em suspensão na atmosfera. Assim, as chuvas que caem nas cidades grandes trazem com elas muitos venenos, como o amônio (que vem da amônia, substância produzida em processos de decomposição, inclusive os ligados ao metabolismo dos seres humanos); nitrato (resultante da emissão de óxidos de nitrogênio pelos escapamentos); sulfato (originados dos óxidos de enxofre lançados ao ar com a queima de combustíveis); ácidos fórmicos e acéticos (vindos dos hidrocarbonetos também liberados pelos carros); além, é claro, dos minúsculos grãos de poeira e fuligem (aquela fumaça preta), ou até mesmo vírus e bactérias que podem pegar uma carona nas gotas.

 

Já nas zonas rurais e florestas a água da chuva é bem mais limpa que a das capitais e outros centros urbanos de grande porte. No interior, por exemplo, as chuvas são ricas em cálcio e potássio vindos do solo, enquanto no litoral os temporais devolvem o sódio que evaporou juntamente com o sal da água do mar. Mas beber a água da chuva não traz grandes riscos à saúde humana, porque os poluentes nela contidos prejudicam bem mais o aparelho respiratório que o digestivo. Em outras palavras, pode-se dizer que o problema maior está mesmo no ar que respiramos, uma vez que a chuva ajuda a diluir a poluição presente na atmosfera.

 

As águas de chuva hoje são encaradas pela legislação brasileira em vigor como esgoto, pois elas usualmente vão dos telhados e dos pisos para as bocas de lobo, de onde, como solvente universal, prosseguem carreando todo tipo de impurezas, dissolvidas, suspensas, ou simplesmente arrastadas mecanicamente para um córrego que vai acabar dando num rio, que por sua vez vai suprir uma captação para Tratamento de Água Potável. Claro que essas águas sofrem um processo natural de diluição e autodepuração, ao longo de seu percurso hídrico, como dito anteriormente, mas nem sempre suficiente para depurá-las adequadamente. Uma pesquisa da Universidade da Malásia, deixou claro que após o início da chuva, somente as primeiras águas carreiam ácidos, microorganismos, e outros poluentes atmosféricos, sendo que normalmente, pouco tempo depois ela já adquire características de água destilada, que pode ser coletada em reservatórios fechados. Para uso humano, inclusive como água potável, ela deve, evidentemente, sofrer filtração e cloração, o que pode ser feito com equipamento barato e simplíssimo. Em resumo, a água de chuva sofre uma destilação natural muito eficiente e gratuita.

 

Esta utilização é especialmente indicada para o ambiente rural, chácaras, condomínios e indústrias. O baixo custo da água nas cidades, pelo menos para residências, inviabiliza qualquer aproveitamento econômico da água de chuva para consumo humano, mas quanto às indústrias, que recebem água tratada a um preço bem mais alto, isso é viável. O semi-árido nordestino tem projetos onde tanto competência como persistência fazem frente ao usual imobilismo do ser humano, viabilizando a construção de cisternas para armazenagem de água de beber para seus habitantes.

 

Esforços nesse sentido vêm sendo desenvolvidos pela Associação Brasileira de Manejo e Captação de Água de Chuva (www.abcmac.org.br), que no final de 2006 promoveu em Vargem da Cruz, município de Juazeiro, Bahia, um Curso sobre Captação e Manejo de Água de Chuva no Semi-Árido Brasileiro. Já o site da Universidade de São Paulo (www.usp.br) esclarece que um processo de captação de águas das chuvas, de baixo custo e de simples utilização, pode auxiliar a combater a seca do Nordeste brasileiro. Segundo o texto, a alternativa, que vem crescendo em todo o mundo, tem um custo entre R$ 200 e R$ 500, de acordo com o tipo de material utilizado, já que o processo é relativamente simples: basta instalar calhas no telhado, que devem ser ligadas a uma cisterna – um buraco no chão medindo entre dez e 20 metros cúbicos, com capacidade para dez e 20 mil litros – revestida com material impermeabilizante.

       

Em palestra proferida no 2º Fórum Mundial da Água de Chuva, realizado em Haia, Holanda, no mês de março de 2.000, o vice-presidente da Associação Internacional de Sistemas de Captação de Água de Chuva, João Gnadlinger, declarou que “a captação de água de chuva vai fazer uma contribuição importante para resolver a escassez da água no futuro. Pelo menos durante três milênios, pessoas pelo mundo inteiro captaram água de chuva para uso doméstico, para os animais e a agricultura. Com o advento de grandes e centralizados sistemas de fornecimento de água, a captação de água de chuva começou a ser negligenciada, apesar do uso intensivo de energia não renovável e de sérios problemas ambientais. A captação de água de chuva pode ser tão simples como uma pequena barragem que impede a água escoar de uma ladeira ou tecnicamente avançada como um reservatório que capta água de chuva para beber ou para agricultura. Ela oferece uma riqueza em possibilidades para países desenvolvidos e em desenvolvimento”.