O extenso deserto situado ao norte da China e sul da Mongólia, região central da Ásia, tem o nome de Gobi, palavra que no idioma mongol significa lugar sem água. Medindo, em números redondos, cerca de 800km no sentido norte-sul, e 1.600km no de leste-oeste, o que equivale a uma área de 1.295.000km2, aproximadamente (pouco menor que a do estado brasileiro do Amazonas, que é de 1.570.745,680km²), ele constitui uma vasta depressão rodeada por montanhas e situada em região plana, cuja altitude média varia entre 900 a 1.500 metros.
As primeiras notícias sobre a existência do deserto de Gobi chegaram ao ocidente através das narrativas do aventureiro veneziano Marco Pólo (1254-1324). Posteriormente, a partir do século 15, a área veio sendo descrita por viajantes que passaram por ela, enquanto em tempos mais recentes, expedições científicas que a percorreram e percorrem, tiveram ainda mais fortalecidas a atenção e o interesse dos paleontólogos porque as pesquisas ali realizadas demonstraram que aquele território, durante milhões de anos, foi extremamente favorável à evolução de répteis, mamíferos, insetos e plantas, resultando daí a riqueza e qualidade de suas jazidas fósseis, que propiciaram pela primeira vez a descrição de muitas espécies de dinossauros. Por isso ele é considerado um dos maiores sítios arqueológicos do mundo.
Além de encontrados em quantidade e com relativa facilidade, os fósseis petrificados do deserto de Gobi geralmente estão em bom estado. Foi por um desses ossos bem preservados que os pesquisadores chegaram a novas conclusões sobre os Velociraptores mongolienses, um dinossauro carnívoro e bípede que viveu durante o período Cretáceo. Medindo entre um e dois metros de comprimento, e com peso aproximado de 80 quilos, ele possuía no segundo dedo da pata uma garra retrátil arredondada e em forma de foice, usada não para rasgar, mas sim, segundo conclusões recentes, para perfurar, pois dessa forma tinha boa chance de acertar a traquéia ou a jugular da vítima e assim matá-la. Foram neles que os desenhistas se inspiraram para criar os répteis ferozes que atacam as crianças no filme Parque dos Dinossauros.
O clima em Gobi é continental, ou seja, os invernos são frios e os verões muito quentes, com acentuada variação térmica anual. No período de frio as temperaturas variam entre -25 e -10°C. A primavera é fria e seca e o verão muito quente, com temperaturas de até 45°C, no mês de julho. As chuvas são escassas no oeste, e um pouco melhores no nordeste. Como no verão ocorrem fortes temporais, a média anual de toda a região alcança um patamar em torno de 174 milímetros (unidade utilizada para medir a quantidade de chuva num determinado local - 1mm de chuva equivale a 1 litro de água por metro quadrado). Para se ter uma idéia do que isso representa, basta saber que a precipitação média no Brasil é da ordem de 1.800mm anuais. Regionalmente, as médias variam de 600mm no nordeste, a 2.700mm no litoral norte da Amazônia.
O deserto de Gobi é habitado somente por grupos de nômades criadores de cabras, cavalos e camelos, e que por isso são forçados a se mudarem constantemente, de um lugar para outro, a fim de garantir a sobrevivência dos animais. Nos deserto existem oásis com vegetação irrigada por fontes subterrâneas, poços ou por irrigação artificial. São nesses lugares, e exclusivamente neles, que o homem consegue plantios e fixar moradia permanente.
O vasto planalto apresenta zonas rochosas, enquanto outras são arenosas, cobertas de dunas e pedreiras em que não faltam areias movediças. A rede de drenagem é subterrânea e a vegetação muito pobre, tanto em quantidade como em variedade, mas perfeitamente adaptada às condições do meio. É composta principalmente de matagais diminutos, ervas rasteiras e vegetação que consegue sobreviver nos terrenos salinos que rodeiam os pequenos pântanos salgados. A fauna apresenta poucas espécies, como camelos, asnos, cavalos, gazelas e antílopes, todas bem aclimatadas. Entre elas, dois animais raros: o camelo-bactriano, de duas corcovas, e o raríssimo cavalo-de-przewalski.
O camelo-bactriano é um mamífero nativo da Báctria, região histórica que fazia parte da Pérsia medieval e hoje pertence em grande parte ao Afeganistão. Daí a razão do seu nome. Muito parecido com o camelo-árabe, ou dromedário, distinguindo-se dele pelo seu tamanho maior e pela presença de duas corcovas, agüenta condições climáticas extremas, onde as temperaturas no verão podem chegar a 60ºC de dia, e à noite são inferiores a 0ºC. Pode resistir a grandes períodos de tempo sem comer ou beber, e é muito forte, suportando caminhar 47 quilômetros por dia, carregando pesos superiores a 450kg. Além disso, dele também se aproveita a carne, o leite e a pele.
Quanto ao cavalo-de-przewalski, ele é muito semelhante ao cavalo doméstico, porém menor em tamanho e mais robusto. Os adultos medem cerca de 2 metros de comprimento e têm 300 quilos de peso, em média, apresentando pelagem castanha parda e crina ereta, de cor negra. Alguns têm as patas riscadas, lembrando as zebras. Eles se organizam em grupos familiares formados por um macho, várias fêmeas e suas crias. Os machos mais novos abandonam os respectivos grupos familiares por volta dos dois anos de idade, convivendo durante meses, em pequenos grupos, com outros animais de sua espécie e na mesma faixa etária, antes de se aventurarem na conquista das próprias fêmeas.
Nativo dos desertos da Mongólia, o cavalo-de-przewalski foi declarado extinto quando em 1969 se teve notícia de que deles só restava um exemplar selvagem. Mas a partir de 1990 vários programas internacionais de reprodução em cativeiro foram iniciados, e como obtiveram sucesso, já propiciaram a libertação, na Mongólia, de uma manada desses animais. O que significa dizer que o homem, através do seu perseverante trabalho de pesquisa científica, criou as condições que lhe permitiram devolver essa espécie à natureza.