MANGUES

Ecossistema típico de áreas costeiras alagadas em regiões de clima tropical ou subtropical, os mangues (ou manguezais) abrigam, na verdade, pequena variedade de espécies animais, mas ainda assim são considerados como um dos ambientes naturais mais produtivos do Brasil devido às grandes populações de crustáceos, peixes e moluscos neles existentes. Substituindo os pântanos salgados das regiões temperadas, são constituídos por conjuntos de árvores e arbustos litorâneos que se desenvolvem em ambientes salinos, ou salobros, constantemente inundados pela maré, e se formam nas praias abrigadas (como as de baías e enseadas) e na foz dos rios (sendo um berçário para muitas espécies de animais), aparecendo também nas ilhas oceânicas e nos recifes de coral, em áreas não sujeitas à ação das ondas.

 

A vegetação que se desenvolve nessas áreas possui raízes aéreas chamadas “escoras” (que absorvem o ar e sustentam a planta no solo pouco consistente) ou pneumatóforos (cuja função principal é a aeração da parte mergulhada no lodo, onde o teor de oxigênio é muito baixo). Essas raízes formam uma trama que reduz a velocidade das ondas (proporcionando melhores condições para a deposição do lodo) e fornecem o substrato (base) para a fixação das algas e animais marinhos. Esse tipo de ecossistema se desenvolve onde há água salobra e em locais semi abrigados da ação das marés, mas com “canais” chamados gamboas que permitem a troca entre água doce e salgada. Seu solo é bastante rico em nutrientes e matéria orgânica com características lodosas, e composto por raízes e material vegetal parcialmente decomposto (turfa).

 

Do ponto de vista geológico, os manguezais proporcionam condições para a deposição de sedimentos no continente, ilha ou recife de coral nos quais estão situados. Além disso, protegem satisfatoriamente os ambientes costeiros da excessiva erosão provocada pelas tormentas. Mais exuberantes na faixa do equador, eles aparecem também ao norte e ao sul dos trópicos. Sua distribuição atinge tanto o Oriente (Ásia, África oriental, Austrália e Nova Zelândia), quanto o Ocidente (África ocidental e Américas). Na costa brasileira, os mangues aparecem desde o Amazonas até o litoral do estado de Santa Catarina.

 

A flora e a fauna dos mangues acham-se condicionadas aos movimentos das marés. Há uma transição gradual nas espécies de plantas e animais, desde as que surgem nas áreas constantemente inundadas, até as das áreas raramente ou nunca atingidas pela maré. Esse zoneamento da flora e fauna está ajustado ao tipo de substrato e outros fatores ambientais, como, por exemplo, salinidade e teor de oxigênio da água, determinados pela freqüência e amplitude de inundação da área. Em virtude disso preponderam, nos mangues, três tipos de árvores (Rhizophora mangle – mangue-bravo ou vermelho, Avicena schaueriana – mangue-seriba ou seriúba – e Laguncularia racemosa – mangue-branco) que podem chegar a até 20 metros de altura em alguns lugares do país.

 

Nos mangues, além de muitas espécies marinhas (como caranguejos, moluscos, peixes e camarões que chegam em busca de alimento), destacam-se alguns animais terrestres, entre eles os morcegos frutívoros, aves insetívoras e muitos insetos. Os animais marinhos dessas áreas estão sujeitos à imersão e emersão periódica, sendo por isso capazes de adaptar-se à dessecação (secagem, enxugamento, perda de umidade) e às grandes variações de salinidade. Muitos deles têm movimentos coordenados pelas marés, podendo cavar buracos no lodo onde se enterram a fim de se protegerem contra a dessecação excessiva.

 

Existem peixes que vivem no lodo e que, durante a maré alta, utilizam-se das nadadeiras para prender-se nos galhos e troncos da vegetação próxima à superfície da água. Algumas famílias de crustáceos, por sua vez, são altamente especializadas  Exemplares do gênero Alpheus constroem labirintos nas zonas mais úmidas, associadas a florestas de Rhizophora. As margens dos mangues são habitadas por caranguejos do gênero Uca, que preferem substratos de areia e pouco lodo.

 

Uma grande variedade de aves também povoa os mangues, com muitas delas aproveitam a baixa da maré para pescar. Outras constroem ninhos sobre os galhos das árvores e arbustos da região. Répteis e anfíbios (como jacarés), pequenos mamíferos (como os macacos, hábeis pescadores), muitos insetos (como abelhas), e uma grande variedade de mosquitos, entre os quais o Anopheles, transmissor da malária, integram a variada fauna dos manguezais.

 

No Brasil, a Lei 4.771 de 15 de setembro de 1965 considera o mangue como Área de Preservação Permanente (APP). Além disso, a Resolução CONAMA N.º 369 de 28 de março de 2006, estabelece que as áreas de mangue não podem sofrer supressão de sua vegetação ou qualquer tipo de intervenção, salvo em casos de utilidade pública. Mesmo assim, o mangue é o ecossistema brasileiro mais ameaçado. Os piores inimigos dos manguezais brasileiros, além da super exploração dos seus recursos naturais, são a poluição lançada pelas cidades costeiras e indústrias e derramamentos de petróleo. Há ainda quem afirme que os mangues serão os ecossistemas mais afetados com a elevação da temperatura do planeta e do nível dos oceanos, uma vez que ele depende de um equilíbrio frágil entre os rios e as marés para manter suas características constantes.