MAR DOS SARGAÇOS

O mar dos Sargaços fica no Caribe, norte do oceano Atlântico, e se tornou famoso em virtude da grande quantidade de algas marinhas flutuantes que apresenta. As águas que o formam são relativamente calmas, e isso é devido principalmente ao fato de que as correntes marítimas que o circundam - Golfo, Atlântico Norte, das Canárias e Norte Equatorial - realizam um movimento de rotação em torno dessa região, fazendo com que ele gire lentamente no sentido horário. São mais de três milhões e meio de quilômetros quadrados (1100km de largura por 3200km de comprimento, aproximadamente) cobertos por um tapete de algas conhecidas como sargaços (pertencentes ao gênero sargassum), amplamente distribuídas no oceano Atlântico, e que, na explanação de naturalistas, “bóiam nas águas mornas graças às suas vesículas flutuadoras, que funcionam como pequenos balões cheios de ar”.

 

O mar dos Sargaços é conhecido há muito, muito tempo. Ao longo dos séculos os navegantes fenícios e cartagineses que primeiramente passaram por suas águas alimentaram com relatos hoje considerados fantasiosos, mas condizentes com o misticismo da época, as numerosas lendas que transformaram aquela região em uma área misteriosa, fantástica, amedrontadora. Um desses relatos foi feito por Himilco, explorador cartaginês, que por volta de 480 a.C. empreendeu uma viagem de exploração pelo Atlântico. Desse autêntico “diário de viagem” - que se perdeu no tempo - são conhecidas apenas citações feitas por romanos, como o escritor Rufo Festo Avieno, que viveu na segunda metade do século 4 a.C., e o naturalista Plínio, o Velho (23-79), que se referem a uma tradução grega do texto cartaginês, também perdida.

 

O texto de Himilco descreve a passagem por uma zona de mar calmo, sem vento, e diz, entre outras coisas, que "Não é notada brisa que move o barco, tão morto está o perigoso vento deste mar quieto...; tem tantas algas sobre as ondas, que parecem conter o navio, como se fossem arbustos... ; o mar não tem grande profundidade, a superfície da terra está coberta por muito pouca água... ; os monstros marinhos se movem continuamente em todas as direções e existem bestas ferozes que nadam entre os barcos que se arrastam lentos e preguiçosos”.

 

Por volta de 1417, quando o infante D, Henrique, o Navegador (1394-1460), criou a chamada Escola de Sagres, na verdade um local de reunião onde a prática dos navegantes e o conhecimento dos cientistas permitiam o desenvolvimento de novos métodos de navegação, a elaboração de cartas náuticas e adaptação de navios, teve início a expansão ultramarina dos portugueses, que além de descobrirem os arquipélagos de Madeira e Açores, também se depararam com o mar de Sargaço, ou mar de Baga, e trataram de incluí-lo na carta náutica elaborada por Andréa Bianco em 1436, o que serve como comprovação de que já naquele tempo, as viagens exploratórias lusitanas iam além de uma simples viagem entre as Canárias e Lisboa.

 

Em 1492, Cristóvão Colombo e seus homens também ficaram extremamente preocupados quando navegavam por aquela região sem ventos em busca das terras do Novo Mundo, e depois deles, os que percorreram o mesmo caminho foram espalhando boatos sobre as dificuldades enfrentadas durante a travessia, infundindo um medo cada vez maior nos supersticiosos marujos da época. A respeito da expedição de Colombo, o escritor Julio Verne (1808-1906) incluiu em seu livro “Vinte Mil Léguas Submarinas” o seguinte trecho:

 

“O mar de Sargaços cobre toda a parte submersa de Atlântida. Certos autores afirmam que as numerosas plantas que o recobrem procedem dos prados daquele antigo continente. Porém, é mais do que provável que tais plantas, algas e liquens tenham sido arrastadas das costas da Europa e América até essa região, pela Gulf Stream. Este foi um dos motivos que fizeram Cristóvão Colombo pensar que existia um novo mundo. Quando suas caravelas chegaram ao mar de Sargaços, navegaram com grande dificuldade entre as plantas, que interrompiam sua marcha, para grande espanto das tripulações que levaram mais de três semanas para atravessá-la”.

 

As histórias contadas pelos marinheiros portugueses e espanhóis do final da Idade Média continham, até certo ponto, um fundo de verdade, por que no mar dos Sargaços a falta de vento freqüentemente retinha os veleiros por períodos de tempo que em casos extremos podiam se estender por um, dois, e até três meses, o que muitas vezes levava seus tripulantes a abandoná-los, ou morrer neles. E essa desoladora visão de navios apodrecidos vagando sem rumo com suas tripulações de cadáveres, sobressaltava a imaginação dos temerosos marinheiros que denominavam aquela região marinha de o "Cemitério do Atlântico".  

 

Surgiu daí a denominação “latitude dos cavalos” (entre 30º e 35º norte), para indicar o lugar onde as calmarias duravam até mesmo semanas intermináveis, imobilizando com isso os barcos movidos à vela e fazendo, em conseqüência, com que suas reservas de água e alimentos fossem se esgotando pouco a pouco, perigosamente. Conta-se que quando ocorriam esses casos, os primeiros sacrificados eram os cavalos, sendo os mais fracos atirados ao mar quando se tornava impraticável dar-lhes de beber ou de comer.

 

Devido à sua proximidade com as Bermudas e, em conseqüência, com o Triângulo das Bermudas, são atribuídos ao mar alguns dos misteriosos desaparecimentos de embarcações ocorridos naquelas proximidades. Além disso, autores ficcionistas se valeram de tal cenário como palco para a elaboração de contos fantásticos, sugerindo, por exemplo, que “no meio daquele imenso e estagnado mar se criaram civilizações oriundas das tripulações que ali ficaram prisioneiras”. Recentemente, porém, os cientistas comprovaram que na realidade o mar dos Sargaços serve como criatório para muitas espécies marinhas, como as tartarugas ameaçadas de extinção, pequenos crustáceos, moluscos, enguias européias e norte-americanas que migram para lá na época da reprodução, além de outros animais que ali também procriam e crescem protegidos dos predadores e rodeados de comida.