RIQUEZA MARINHA - Mal aproveitada

A cor do mar não lhe pertence, pois em geral reflete o cinza ou o azul do céu, misturado, às vezes, a uma tonalidade esverdeada proveniente das algas, mas nas proximidades das embocaduras dos rios, cujas águas normalmente são sujas e barrentas, ele se torna igualmente amarelado. A transparência das águas marinhas depende das impurezas que contém e alcança uma profundidade máxima de quarenta metros, além da qual a escuridão é completa, mas desde que se descobriu a importância da luz solar para o desenvolvimento da flora marítima, o estudo desses aspectos tem sido intensificado. O mar funciona como regulador dos climas litorâneos, e uma vez que o grau de calor ou de frio das suas águas varia conforme a profundidade, a época do ano e a latitude, a análise comparativa das linhas isotérmicas (que unem os pontos de igual temperatura) anuais, dão uma idéia correta de como ela se distribui durante o ano.

 

Existe grande abundância de sais dissolvidos nas águas, tais como cloreto de sódio (77%), magnésio, sulfato de magnésio, sulfato de cálcio, sulfato de potássio e outros. Grande parte deles procede dos elementos da crosta terrestre na época da sua formação, mas que com o tempo tornaram-se mais abundantes devido à captação que é feita pelas águas dos rios ao longo dos seus cursos, e com isso carregando consigo grandes quantidades desses sais. A densidade da água do mar depende basicamente da salinidade e, em sentido inverso, da temperatura (quanto maior a salinidade, mais densa é a água), sendo a pressão (peso das camadas superiores sobre as inferiores), outro fator influente nesse fenômeno. E como ela é muito acentuada nas grandes profundidades, constitui um sério obstáculo às pesquisas submarinas.

 

A salinidade média do mar é de 35g para cada quilo de água. O fundo do mar é recoberto por depósitos formados pela sedimentação dos detritos trazidos dos continentes e dos restos de organismos marítimos. A imensidão das águas marinhas constitui uma grande reserva de vida animal e vegetal, pois as espécies que nelas habitam são mais variadas e em maior número do que as terrestres, mas no entanto, dessa riqueza incalculável o homem aproveita apenas uma parte muito pequena. Segundo alguns autores, a exploração plena dos recursos oferecidos pelo mar tornaria possível alimentar uma população quatro vezes superior à que existe atualmente na Terra.

 

Bem acima das profundezas abissais escondem-se ainda segredos vivos que precisam ser mais conhecidos, além de outros que somente agora estão sendo desvendados, mas todos com implicação direta no dia-a-dia do homem porque são usados como comida, ou como remédio. Comida, na forma de pescado incluído nas refeições das pessoas, ou então aproveitado como matéria-prima na fabricação de insumos usados na indústria de alimentos e na formulação de rações para a produção avícola e pecuária, e remédio, através de compostos farmacologicamente ativos. E nesse campo o potencial marinho parece ser dos mais promissores, uma vez que já foram descobertas algumas espécies de organismos que produzem substâncias úteis no tratamento de doenças infecciosas e degenerativas.

 

Como se todas essas incógnitas dos oceanos rasos e profundos não fossem suficientes, o ambiente marinho e o entorno costeiro abrigam também outras questões de grande relevância econômica, científica e sócio-cultural. E está sob as pressões crescentes dos múltiplos usos que se faz deste ambiente: a pesca, a navegação, a atividade portuária, a exploração petrolífera, a urbanização e a especulação imobiliária, o lazer e o turismo. Com a agravante de que os oceanos acabam sendo o repositório final de dejetos das atividades industriais, urbanas e agrícolas. Sensível a essas pressões, o mundo todo se prepara para enfrentar os desafios para um uso planejado e integrado dos recursos do mar, capaz acomodar os conflitos de interesse sem comprometer a continuidade da produção e da riqueza marinha. Como, na prática, a maior parte dos oceanos está sob jurisdição internacional e a dinâmica da circulação das águas e dos ecossistemas torna sem sentido as fronteiras políticas entre os países, os grandes impulsionadores das ações em direção ao uso sustentável das riquezas dos mares têm sido convenções internacionais de grande envergadura, em especial a Convenção sobre Diversidade Biológica e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

 

Várias iniciativas e propostas de prioridades e ações para a região costeira estão em curso no Brasil e, dentre elas, dois grandes programas se encaixam no escopo internacional. Detentor da maior diversidade biológica do planeta, o Brasil tem grande interesse no assunto e foi o primeiro signatário da Convenção sobre Diversidade Biológica, aprovada durante a Rio-92. E, cumprindo os compromissos assumidos na CDB, foi criado em 29 de dezembro de 1994, "dia mundial da diversidade biológica", o Pronabio - Programa Nacional da Diversidade Biológica, baseado na premissa de que o conhecimento, conservação e uso sustentável da diversidade biológica dependerão da parceria entre as ações governamentais e a sociedade civil. O Pronabio dividiu o Brasil em 5 grandes biomas, a saber: Floresta Amazônica; Cerrado e Pantanal; Mata Atlântica; Caatinga; Zona Costeira e Marinha. Os biomas costeiros e marinhos ocupam cerca de 8000 km de linha de costa, com uma área de cerca de 3,5 milhões de km2 em águas sob jurisdição brasileira, em zonas latitudinais desde as regiões equatoriais no extremo norte até a temperada no extremo sul, englobando ecossistemas como estuários, com os manguezais e marismas, lagoas costeiras e banhados, restingas e matas de tabuleiro, praias e dunas, costões rochosos e falésias, ilhas costeiras e oceânicas, recifes de coral e bancos submersos.

 

No final do mês de outubro de 1999, o Pronabio realizou em Porto Seguro (BA) um conclave para definir prioridades e ações para a Zona Costeira e Marinha. Combinando a importância biológica, o estado de conservação, o grau de conhecimento, a relevância sócio-econômica e a vulnerabilidade às ações relativas ao homem, chegou-se a um levantamento preliminar de cerca de pouco mais de uma centena de localidades com prioridade máxima para receberem os esforços de levantamento, conservação e uso sustentável da biodiversidade. Dentre essas localidades receberam destaque as regiões onde deságuam os rios, as lagoas e banhados, as zonas costeiras adjacentes à desembocadura dos grandes rios, as ilhas costeiras e oceânicas, as zonas de recifes e os bancos submersos, as áreas já sob impacto da pesca predatória, e algumas localidades selecionadas em ecossistemas de restinga, praias e dunas.

 

Fonte: www.comciencia.br  -  Universidade Estadual de Campinas