Da família dos Falconídeos (Harpia harpyia), a harpia, maior e mais belo gavião do Brasil, é também a mais pesada e uma das maiores aves de rapina do mundo.
Com envergadura de até 2,5 metros (distância de uma ponta da asa à outra, quando abertas), altura entre 50 e 90 centímetros, e peso que pode chegar aos cinco quilos, nos machos, e dez quilos, nas fêmeas, elas ganharam esse nome dos exploradores espanhóis chegados à América Central no século 15, que ao perceberem sua ferocidade lembraram-se das Harpias, divindades mitológicas gregas que tinham corpo de abutre e as unhas em garra, mas com rosto de mulher, e assim batizaram as aves que viam pela primeira vez.
Também conhecida como gavião-real, gavião-de-penacho, uiraçu-verdadeiro, apacanim e outros nomes, ela podia ser encontrada nas florestas densas do México à Argentina, mas agora sua presença no Brasil restringe-se praticamente à Amazônia (onde constroem os seus ninhos nas árvores mais altas), embora esporadicamente surjam relatos de que foi vista em determinados trechos do que ainda existe da Mata Atlântica.
Predadoras rápidas e tremendamente eficazes em suas investidas, as harpias alimentam-se normalmente de outras aves e mamíferos de pequeno e médio porte, como diversas espécies de macacos e também as preguiças, quase sempre capturados na parte da manhã, quando tomam sol na copa das árvores. De seu cardápio costumeiro constam quase duas dezenas de diferentes animais, a maior parte deles arborícolas, o que não as impede de atacar veados e bezerros, mesmo sendo eles de porte maior que suas vítimas habituais.
Suas asas são largas e arredondadas, e as pernas curtas e grossas. Os dedos extremamente fortes medem de 9 a 10 centímetros (o posterior tem de 4 a 5 centímetros) e possuem grandes garras que prendem com firmeza as presas capturadas, permitindo-lhe levantar do chão até mesmo um carneiro. Ela tem cabeça de cor cinza, olhos pequenos, longo topete, crista com duas penas maiores, papo e nuca negros, enquanto a barriga e parte interna das asas são brancas. O bico curvo e de ponta afiada é próprio para cortar, perfurar e rasgar o corpo de suas presas, enquanto a cauda pode medir até 2/3 do comprimento da asa.
Uma harpia atinge a maturidade sexual aos seis anos de idade, mas sua expectativa de vida chega aos quarenta. Aves monogâmicas, ou seja, macho e fêmea unem-se por toda a vida, elas constroem seus ninhos nas copas das árvores, preferentemente a 40 metros do chão, mais ou menos, e nele, durante seu período reprodutivo que vai de julho a novembro, a fêmea deposita um ou dois ovos a cada dois ou três anos. O período de incubação desses ovos é de dois meses, mas caso a eclosão de ambos ocorra com sucesso, somente um dos nascidos sobreviverá, pois o maior acabará matando o menor. Esse filhote fará suas primeiras experiências de vôo aos seis meses de idade, mas permanecerá sob os cuidados dos pais por mais de meio ano.
As harpias economizam energia mantendo-se empoleiradas nos galhos mais altos das árvores, observando e ouvindo. As fêmeas caçam presas mais pesadas (consumidas parcialmente até poderem ser transportadas para o ninho), cabendo aos machos, que têm maior agilidade no vôo, a captura dos animais de menor porte. Mas a destruição acelerada de áreas florestais vem reduzindo a disponibilidade de alimento para todas as espécies predadoras, e por isso essas aves de rapina já são consideradas como ameaçadas de extinção. Diante de tal constatação, o Peregrine Fund, entidade americana dedicada à proteção internacional de aves de rapina diurnas, alerta que: “A exemplo de outras grandes aves de rapina que são exclusivas de matas preservadas de consideráveis dimensões, a harpia está correndo sério risco extinção devido à falta de habitats disponíveis para esta espécie (florestas preservadas). Mas elas podem também sofrer deterioração genética em virtude da existência de poucos indivíduos nas áreas onde ainda ocorrem. Além disso, deve-se salientar que as que vivem próximas a áreas habitadas sofrem com abates por parte de avicultores que procuram evitar ataques às suas criações, o que é lamentável”.
Prosseguindo, afirma a Peregrine Found que “A harpia sempre foi troféu cobiçado tanto por índios como por caçadores. Em aldeias indígenas (Xingu), eram mantidas em gaiolas desde filhotes, para delas serem retiradas penas usadas em ornamentos. Para os índios, a harpia é considerada símbolo de liberdade e altivez, e em várias tribos uma delas é mantida em cativeiro, como propriedade do cacique. Quando este morre, muitas vezes a ave também é morta ou enterrada viva com o corpo do seu dono”.
E sugere: “Dentre as principais recomendações para a conservação desta espécie incluem-se a proteção das áreas com registro de nidificação; a educação ambiental; o estudo populacional em região de ocorrência da espécie; além de estudos demográficos e monitoramento de mamíferos arborícolas de médio porte em áreas onde a espécie foi registrada”.
Desde 1977 o INPA – Instituto de Pesquisas da Amazônia, realiza o Projeto Gavião-Real, visando não só conhecer e preservar esta espécie, mas também protegê-la de suas principais ameaças: a caça e o desmatamento. A participação ativa de comunidades que habitam a floresta no entorno das árvores com ninhos, tem contribuído para que os filhotes sobrevivam até serem capazes de voar e partir em busca de outras terras.