CONSIDERAÇÕES EM TORNO DAS INCONGRUÊNCIAS PALATAIS DOS EMBUTIDOS ORIENTAIS NA MODERNA COZINHA PATAXÓ

Todos observavam Malak, o anjo mensageiro, traduzindo algumas notícias que haviam acabado de chegar pela nuvem das seis quando sem que nada explicasse uma voz me disse: Vai! Saí, deixando todos aparvalhados com os pirotécnicos que meu coração espalhou pela plataforma de embarque e segui na justa direção oposta que me indicava o dedo da voz através de uma placa de trânsito branca com texto em vermelho escorregadio e alguns furos bêbados de tiros-ao-alvo madrigais próprios das civilizações ultra evoluídas rumo à barbárie. Larguei todos os fatos que levava sob minha responsabilidade jogados nas beiras da sarjeta fétida, conhecido e colossal habitat da falimentar massa humana presente naquele momento junto às bocas-de-lobo, entupidas de garrafas PET e papelotes de cocaína, e sequer me preocupei com o movimento alucinado dos caminhões de gelo e eletro-eletrônicos que hoje em dia fazem das pistas de rolagem verdadeiros abatedouros mecânicos com seus milhões de Cavalos-vapor relinchando sofreguidão e borracha queimada nos Barracões de Angústias que são esses atrasos desátricos nos sistemas viários ao Sul do Caribe, ao Norte da Patagônia e aqui bem no Center Shoping das nossas vidas devastadas de repugnância e luto pelos atropelados nessas últimas enchentes obscenas, encomendadas pelo descaso, patrocinadas pelo Estado, perpetradas pela incompetência, assinadas por Deus e resignadamente enfiadas com farofa de ignorância, temperada com o sal Marinho da Globo e farinha Santa Fé da Record, goelabaixo dos sobreviventes, rebanhos de pré-cadáveres, que automaticamente são confinados em vastas e funéreas granjas, submetidos a um regime de ceva pelo processo de Cria, Recria e Engorda. Estarão prontos para o próximo verão, que, cooptado, chegará sempre depois das eleições: Mártires ou bois-de-piranhas, rendem efêmeras manchetes por 3 dias nos tablóides de circulação nacional e no 4º não passam de rodapés de sangue, necrológios, suplantados pelo novo escândalo que também será diluído pela Copa de futebol, sucessivamente. Querem que eu diga fodam-se? Não digo. Fodam-se vocês que ainda prestam atenção em verbalizações de bandoleiros profissionais e suas heranças malditas, Fodam-se que as buzinas já me ensurdeceram há uns 130 decibéis atrás quando, por ainda ser jovem, a afobação se instalou no inverso do meu universo: hoje ando lento e matutativo amparado nas muletas dos meus sonhos, coitados, contaminados com essa melancolia fatal que de uns tempos para cá pegou a mania de caçar guerras e me dormir em ruas amargas ou em braços de quem me queira. Apenas aviso: não me responsabilizo. Se pintar barraco ou bebum, não vacile:- Zoonoses-. É grátis.

 

Vamos, diz ai, me responda um filho-da-puta qualquer: Quantas vezes me levei aonde nunca quis ir? Imensas! Quantas vezes, impaciente de agonia, falei o que nunca quis falar? Imensas! Quantas vezes acenei com adeus a um pedido de socorro? Imensas! Quantas vezes com minhas mãos de afago cativei Miss Cizânia para uma noitada de Esbórnia e Cio, depois, babaca contumaz que sou, fi-la sentir-se amada e lasciva, sussurrando obscenidades em múltiplos orgasmos? Imensas! Agora, cativa, Ela e seu baú de Discórdias, andam de grude com meus pés, empatando meu tempo, cerceando meu espaço, tapando-me a visão, cansando minha beleza, um saco! Logo eu que me asso de terror só de pensar nos trocadilhos que nunca entendi; logo eu que não me orgulho dos apelidos que, por ira ou chacota, apliquei em efêmeros desafetos; logo eu que ao primeiro disparo de arma de fogo-fátuo saio à francesa para jantar com meu Ego num Copo Sujo qualquer de Rodoviária. E por falar nisso sei que tenho ausências de Auto e sérias divergências com a Estima, por isso liquidifico as lembranças para facilitar a ingesta dos desejos atravessados na garganta da minha preguiça ou da minha inépcia. Mas repulsa, daquelas repulsas que encãimbram o trato digestivo na agonia da vomição, sinto mesmo é pelas papinhas finas que papei sem desejo algum, apenas para efeito de estatística, falácia de macho anAlfa. Mas, enfim, nada que dissimule a ação dos vermes ao cavucar os arcabouços pós-ativos dos humanos nos rega-bofes undergrounds do tempo. Sem mais para o momento, dou-me por Instável. E aconselho: - Tá com peninha? Saco cheio? – Zoonoses-. É 0800.

 

Quando escolhi ser canalha de mim não pensei muito em especializações, PhDs ou MBAs, apenas, como salva-guarda, me limitei à minha aversão pela súcia de deuses pedantes e usurários e acionei a forte aspiração expressa nos meus olhos sediciosos por ares limpos, nas minhas ventas flamejantes por odores de mulheres recém-banhadas e, lá do fundinho do tambor das considerações, por um amor de seios doces e voz enciclopédica conectada a um cérebro calhamaço, encadernado em blue velvet e lombada de ouro,  prolixo em verbetes sobre arrepios, frissons e êxtases, frenesis e enlevos e uns bons quilates de delírios sonoros quando sob luzes ocasas e canções boleras. Mas isso lá pelos antes dos desdobros da idade, e, claro, antes que o sangue deságüe em cãs e as carnes não mais reconheçam o calor de uma sublime língua de fogo acesa no brilho molhado de entrelábios sinuosos.

 

Allons! Gritei de mim a mim arregaçando a porta do peito e deixando a estrada invadir minhas idas indestinas. PAINLESS! -Determinaram meus sentidos-. Sequer fiz uma pré-seleção de acasos, nem ao menos um Enemzinho classificatório, o que pouco adiantaria, bem sei. Fui praticamente me obrigando a exercitar as técnicas de sobrevivências mais aptas a seguir carreiras-solo entremeio as intempéries da turba, acobertando a desavença entre minha misantropia indisciplinada e minha solidão confusa. Mas eu sou assim mesmo, não costumo transferir meus maus bocados para os livrainosdomalem. Digiro-os numa boa. Tanto sou assim que sempre disse que não acredito em saudades, nem creio em pagar juros de mora por paixões interrompidas ou procedentes de Liquidações de Inverno ou Queimas de Carnaval: findo o ato, cai o pano e pronto: Ponto. Nova peça, nova estréia. Não penso: Será bom voltar e fazer diferente com aquela. Penso: está bom fazendo diferente com essa. Esse mesmo diferente que pode ser um fiasco com aqueloutra. Ahead. Isso não que dizer que não fui eu quem te amou das melhores maneiras, sacou? Da janela vejo Malak, o anjo obsceno, tufiando lenha no rabo da caldeira e me acenando com a mão direita numa saudação dúbia. Nos olhos, e só eu noto isso, encena um cruel sintoma de deboche.

 

Lá pelas tantas vieram me alertar que uma tal de Demência estava entrando no circuito das conferências filosóficas restritas às áreas de interesse de pós-adultos, os iniciados, ou melhor, os admitidos sem vestibular lá pela metade do século passado, uns caras esquisitos que queriam mudar o mundo, morar em bandos, tocar guitarras cogumelas e amolar o facão da vida com o esmeril dos opressos mas sendo sempre acochados pelo fuzil paralisante de um talão de cheques. Maiakovski, por um milionésimo de segundo, desviou os olhos de Lilith, quase sorriu e me assoprou nas cócleas: Deixe-me ao menos arrelvar numa última carícia teu passo que se apressa... Quem sabe tentando me dizer “sai dessa, malandro”. Mas logo engatilhou a fúria de sua metralhadora de cóleras. Voei brabo que asas ainda eu tinha. Mas eram muitos os filósofos e seus groupies e rodies que atiravam em todos as direções sensoriais presentes em cada concerto, centenas deles, um em cada esquina do tempo desde Nova Iorque até Arraial d’Ajuda, se estendendo a  Bangladesh e Liverpool: Mais hora menos hora acertariam minhas asas, como de fato. Janis & Dylan & Baez e outras cornucópias de desvarios compunham desenfreadamente canções de amor de menos e nostalgia demais de si próprios: lástimas em Ré Maior e a Auto-Comiserações em Dó, ou Pena. Fui seduzido, mas não naquele momento já que estava envolvidíssimo com uns estudos recém apresentados pelos aborígines Australopitecos da Nova Zelândia versando sobre as “costelas abdominais dos invertebrados marinhos em tempo de reatores atômicos nas cordilheiras do Jambalaia”. Interessantíssimo, principalmente quando sugere lá pelas páginas 927, e em diante, que se bem alimentados e oxigenados os esporos poli-insatisfeitos remanescentes das plantas grutais do período terciário servem maravilhosamente como petiscos salgados nas funções de acepipes tira-gostivos para cervejas estúpidas, mas, e sobretudo, para as estúpidas e mal amadas bactérias H. Pilori que por suas personalidades anódinas e vulgarmente concupiscentes nas horas de enjôos multimucosos assumem uma postura parcial, belicosa e purulenta em relação ao ócio intrínseco e ao vômito extrínseco: Úlcera. Uma Maravilha. Fui ao sanitário, lavei a cara, desobstruí os circuitos viários, intestinos e aéreos, dei por encerrada a etapa das preliminares e voltei ao Partenon para observar Fídias esculpindo Atena e queimar mais uma etapa das incontinências verbais. Nessas alturas a Demência já estava pombinha, pombinha na cartola do mágico Malak, o anjo marketeiro, que à época fazia a campanha midiática do Elixir da Juventude Destrambelhada, contratado de Ponce de Leon, mais conhecido como o Espanhol Botocado, que de tão alucinado espalhou que um seu cliente com apenas 23 dólares de Capital Inicial fundara o Peru, mas em verdade abrira mesmo foi a Matriz Bolívia, depois a filial do Ecuador e estava de olho no futuro México, quando por lá xavecou e comeu uma triste turista Colombiana que embuchou logo na primeira moita e após dezenove meses de uma gestação paquidérmica e convulsionada, com a little help from Montezuma, pelocupariu e, desnaturada, abandonou, sem amamento ou chupeta, um estrupício chorão de alcunha Chávez, O Vermelhinho Falastrão, que já nasceu com o sonho natimorto de um dia ser Pizarro, quiçá Cortez, o Imperador do Acre, e uma bizarra e auto-imune Comichão de Rabeta Bolivariana, que em guatemalteco primitivo se traduz como Teson del’Argolon, uma síndrome cujos principais sintomas são diarréias verbais antecedendo decretos inconstitucionalmente fecais seguidos, muito de perto, por indefectíveis fedores de fósseis liquefeitos em óleo de pedra, as vezes, de rícino. E, claro, uma irresistível vontade de tomar no cú. Não vacile, ligue para a Zoonoses.

 

Enquanto isso no Pavilhão dos Amores Sustentáveis, Malak, o anjo Comediante, continuava com suas obrigações triviais quando chegou o Marco Pólo para apresentar, se possível representar comercialmente, o Macarrão. Pacientemente nos ensinou como se traduz espaguete para o mandarim: Talharim. É bom lembrar que só o recebemos porque veio recomendado por uma carta em papel de arroz e escrita em Nanquim pelo já nosso conhecido Confúcio, um sujeito estranhamente pequetito e bastos bigodes brancos com uma mania, ou vício, ou tique de TOC, ou mesmo obrigação partidária, vai saber, de escrever aforismos e outras frases de Pára-choques de caminhão, sempre com o preposto Já dizia Confúcio... Assim: Já dizia Confúcio, quem com ferro fere com ferro vira veado! Que, convenhamos, é de uma profundidade, de um ritmo, de um estilo, de um abarcamento didático-filosófico que 5000 anos após sua morte ainda deixa parvo o mundo ocidental e suas megalomanias de liberdade e consumismo pequeno-burguês decadentes. Tanto que sempre ao citarmos uma corriqueiria qualquer, tipo comer formiga faz bem pra vista, costumamos acrescentar a título de erudição: Sabedoria chinesa! Medicina chinesa! Chinas que, além de inventarem a pólvora e o tal macarrão, criaram também a maternidade em linha de montagem bem antes de o Henry Ford inventar o Fordinho Modelo T. Sempre que o assunto sexo vem à baila algum gaiato acaba soltando essa: Já dizia Confúcio: Antes à tarde que nunca!

 

Quanto ao anjo Malak, o anjo caído, coitado, tira-se o “k” e eis um vulgar mortal: um mala como todos nós, qualquer um. E por falar nisso, quaisquer fulanos capazes de sobreviver a si próprios, por um tempinho relativamente extenso, logo criam um sistema de alimentação, um código de comunicação, uma tecnologia de moradia, e, nesse estágio cria-se a necessidade de um Líder e por 171 espontâneo nasce a figura do Espertalhão que, para ter um laranja de responsa inventa a Teologia de Sobrevivência. Com suas subsidiárias competentes, Céu, Inferno, etc. O pecado é a moeda universal. E por fim fica instituído o cortiço: Se encontramos proteção nessa união, protegemos essa união com facas e garfos. Pode-se dar vários nomes a essa união, de cafofo a favela, de tribo a comunidade, de quartel a penitenciária e assim por diante e pra frente. Mas, assustadiços que somos, gostamos que o “k” permaneça, concedemos que o “k” fique e assim nos sentimos um pouquinho menos medrosos de nós mesmos tendo um suposto anjo da guarda para nos levar ao parque de diversões, nos atravessar a rua e lavar nossas fraldas borras de ódios e culpas. Antigamente a garotada usava seu Malak para ir à Zona, mas Zona não há mais, há Congresso Nacional e Sociedade Civil onde campeiam os seguranças armados e anjos não entram. Ainda assim, o medo nos faz lacrimar pelos cantos do Pelo Amor disso, Pelo Amor Daquilo, menos por Amor a Nós Mesmos que anda em falta no Mercado Geral das Pulseiras Holográficas para o Equilíbrio das Idiotias Imperantes. Nessa hora os Malakes se retraem e os Malacos se sobrepõem: aparecem as religiões mercantilistas, todas, e começam as taxas, os dízimos, os onzenários, os carnês, os alugueis, a consultoria de imagem dos santos e santas, a energia dos templos, a água da Casa Paroquial, a Rede de TV, o helicóptero e o jatinho e o Diabo a Quatro, um inferno. Mas, principalmente, o sapato Louboutin da Madame. Último aviso: Chame a Zoonoses!

 

Mas tudo isso são peixes miúdos se levarmos em conta a desordem geral que virou o país e o mundo, um descontrole universalizado, assassinatos em massa, guerras mexicanas fuzilando e degolando centenas, pais matando filhos e vice-versa, a loucura é tanta que escrever um poema de amor virou um ato de insanidade, para não dizer barbarismo. Mas... O fazer literário, o ofício da arte engajada no melado das paixões não se preparou e não tem recurso para isso. A sensibilidade naufragou no sangue das ruas, na lama das almas, no texto dos políticos, na barafunda do ensino. Ainda assim você tem que escrever um poema de amor por dia e envia-lo. Envia-lo sempre. E torcer para que sua amada seja uma completa tapada, uma ignara de jornais e História, uma toupeira de alienação e só assim, talvez, ainda guarde um restinho de entendimento animal, porque o pundonor humano, há tempos, já é defunto fétido na vala comum do cotidiano. Mas não tem nada não. O máximo que pode acontecer é a dita perguntar de onde você desenterrou aquilo. E, claro, ficar sem seu amor. O próprio. Depois ficar todo muxoxado de vergonha até mesmo para sussurrar desculpas posto que contrições a essa altura soariam como cabotinas e eu não acredito nadanada em salvações eucarísticas performáticas e/ou redenções enlatadas:- Que o asco é geral, pegajoso, gósmico, under-my-skin e não há aguarrás que me lave a alma: A CALÚNIA É UNIVERSAL. E já dizia o Procópio Ferreira: não existe consciência limpa, existe lapso de memória! Silêncio! E que ninguém fique elaborando teorias a respeito da inteligência criativa de Malak, o anjo Pepsicodélico e suas Cocas cinco vezes ao dia, que ele de cretino não tem nada. Foi só pressentir a coisa melecar de vez lá pros topos dos arranha-céus nebulosos e ameaçando vir pra cima dos rasteiros com tudo que o inusitado tem de imundícia, ele, rapidão, tratou de se ajeitar numa profissão de maiores futuros e melhores amores e safados proventos: Virou um conceituado Amestrador de Pupas de Cupins em superfícies espelhadas. Tá bem de vida, o cara! Tem até um carrinho popular e uma Minha Casa, Minha vida.

 

Quanto aos embutidos orientais é de fato constrangedor, digo isso em consideração à boa vontade dos asiáticos que, prestativos e solícitos, se prestaram a transferir tecnologia de Temperos, Conservação e Armazenagem absolutamente de Cortesia, mas fato é que os nossos Yanomamis do Norte não encaram com boas línguas e bons olhos a tal Mortadela de Ancestrais. Afinal, nunca se deram bem com seus parentes da Orla, os Pataxós, metidos a besta só porque faturam em Dólar-Turismo e são chegados em Suflês de Sardinhas Episcopais Portuguesas e Salsichões de Missionários Alemães.

 

Totonho Thatisthequestion, Chef e enólogo, assessor da área de Comércio Exterior dos labirintos do Bairro Itamaraty, foi categórico: Sabores são uns, Paladares são outros, todos muito subjetivos a meu bel-prazer tão sutil, e em assim sendo, amo a todos! Bochechou com um Pinot Noir, encorpado, jovem, ligeiramente frutado na entrada e sutilmente amaro na saída. Excelente safra. Satisfeito, olhou um tanto cético para as luzes de final de noite que, discretas, anunciam os fins melancólicos dos governos populistas e os inícios dos romances mais moleques e sacanas, em geral transitórios, mas extremamente gratificantes, e saiu pela cortina lateral que, incorruptível, desceu sobre as insignificâncias.