1861 - QUESTÃO CHRISTIE, A

Em 2 de abril de 1861, o navio inglês Prínce of Wales, embarcação movida à vela e com quatro anos de uso, zarpou de Glasgow, Escócia, com destino a Buenos Aires, Argentina, carregando carvão de pedra, engradados de louças, caixas com lenços e fazendas, pipas e barricas com azeite e vinho. Entre os dias 05 e 08 de junho ele encalhou e começou a adernar próximo ao farol de Albardão, localizado em uma região deserta e de praias perigosas, a 87 quilômetros da barra do arroio Chuí, no Rio Grande do Sul.

 

Diante disso, os tripulantes do barco o abandonaram e partiram rumo à cidade de Rio Grande, para avisar à Capitania dos Portos o que estava acontecendo, mas nesse ínterim, alguns populares em terra tomaram conhecimento do ocorrido e resolveram levar a carga transportada pelo navio encalhado, porque já a davam como perdida. Quando os marinheiros britânicos retornaram para tentar rebocar o Prince of Wales, encontraram na praia os corpos sem vida de dez dos seus companheiros, e ao constatarem em seguida o prejuízo que haviam sofrido, decidiram apresentar uma reclamação ao embaixador inglês William Dougal Christie, que a encaminhou ao imperador Dom Pedro II juntamente com o pedido de indenização e desculpas, tendo recebido resposta negativa.

 

Nessa mesma época, no Rio de Janeiro, dois marinheiros britânicos, tripulantes da fragata Emerald, embriagaram-se e brigaram com marinheiros brasileiros, também bêbados, por causa das mulheres que estavam em companhia destes, resultando daí uma grande pancadaria. A polícia portuária acudiu, bateu em todos e os levou presos, soltando-os no dia seguinte. Dois dias depois o ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Antônio Coelho de Sá e Albuquerque, enviou nota ao embaixador britânico pedindo que os responsáveis pela agressão aos brasileiros fossem colocados à disposição das autoridades nacionais, o que deixou William Christie ainda mais nervoso, levando-o a retornar à presença do imperador brasileiro e apresentar-lhe a ameaça de que se a indenização não fosse paga, e os marujos brasileiros presos, a marinha britânica fecharia a entrada da baía de Guanabara. Recebeu como resposta a informação de que o Brasil estaria pronto para a guerra.

 

Diante disso, em abril de 1862, a Inglaterra enviou uma canhoneira que ameaçou atacar a cidade gaúcha de Rio Grande. Oito meses depois, uma esquadra de guerra comandada pelo almirante Warren, bloqueou o porto do Rio de Janeiro, apreendeu cinco navios brasileiros que ali estavam fundeados, e exigiu do governo uma indenização de 3,2 mil libras esterlinas. Esse incidente enfureceu a população da capital, que promoveu diversas manifestações de protesto e ameaçou praticar represálias contra as propriedades inglesas existentes no país. Resultou daí que as relações entre as duas nações se tornaram extremamente tensas, mas como a questão precisava ser resolvida, o rei Leopoldo, da Bélgica, tio da rainha Vitória, da Inglaterra, foi nomeado como árbitro (na ilustração, pintura onde o povo do Rio de Janeiro aclama Dom Pedro II após romper relações com a Inglaterra).

 

Acreditando que o veredicto seria contrário aos interesses nacionais Dom Pedro II decidiu pagar antecipadamente a indenização pleiteada pelos ingleses, por considerar que a discussão não envolvia questões de dinheiro, e sim o desrespeito inglês à soberania nacional do Brasil. Ao tomar conhecimento de que os ingleses haviam perdido a causa, o imperador brasileiro passou a exigir a devolução do dinheiro e a apresentação de desculpas por parte do embaixador inglês, mas não conseguiu receber nem uma coisa, nem outra. As relações entre Brasil e Inglaterra só foram restabelecidas dois anos mais tarde, diante dos acontecimentos que acabaram provocando a guerra do Paraguai.

 

O naufrágio do navio inglês Prince of Wales vitimou 16 pessoas, deixando o saldo de 12 cadáveres insepultos e provocando um incidente que redundou na ruptura temporária das relações diplomáticas entre Brasil e Inglaterra. Até hoje, quando a maré está baixa, a carcaça do veleiro desponta no Albardão, mantendo viva a lembrança de um naufrágio que é polêmico e célebre porque sepultou súditos da nação mais poderosa do século 19, na praia que com seus 220 quilômetros de extensão é considerada a maior do mundo.