1864 - GUERRA DO PRATA

Atanásio da Cruz Aguirre (1804-1875), presidente da República Oriental do Uruguai no biênio 1864/1865, e partidário da facção política de seu país conhecida como blancos, provocou com sua eleição a revolta dos rivais colorados, liderados pelo general Venâncio Flores (1809-1868), que iniciaram uma revolta armada contra o seu governo recém-empossado. Na época, as relações diplomáticas entre Brasil e Uruguai não eram boas, o que se agravava com os atos de agressão praticados contra estancieiros brasileiros na fronteira da então província do Rio Grande do Sul, que passaram a ter as suas propriedades invadidas e o seu gado furtado durante operações popularmente conhecidas como califórnias.

 

Ao mesmo tempo em que iniciava as operações militares contra os rebelados, Aguirre também acirrava a perseguição aos brasileiros residentes em terras uruguaias, estimados em cerca de 40 mil pessoas, fazendo com que o Brasil concentrasse do seu lado da fronteira um exército de 4.000 homens, comandados pelo general Mena Barreto (ilustração acima), e enviasse ao estuário do rio da Prata uma pequena frota de guerra comandada pelo almirante Tamandaré. Dominado por um nacionalismo cego o presidente uruguaio queimou em praça pública os tratados de amizade então existentes entre Brasil e Uruguai, e induziu a multidão que o ouvia a arrastar pelo chão uma bandeira brasileira, o que acarretou a ida de um emissário de DomPedro II a Montevidéu, numa tentativa de conciliação. Após aguardar vários dias pela realização do encontro pretendido, tempo esse em que Aguirre procurou o apoio de argentinos e paraguaios para a eventualidade de uma luta armada, o representante brasileiro entregou um ultimato em que eram exigidas plenas reparações pelos danos materiais e morais sofridos por brasileiros, mas este foi repelido em 09/08/1864.

             

Diante disso Tamandaré penetrou em águas do Uruguai e inutilizou o Villa Del Salto, único navio de guerra adversário, enquanto Mena Barreto atravessou a fronteira e marchou em direção a Montevidéu. Atanásio Aguirre resistiu durante algum tempo, mas o exército imperial derrotou os uruguaios em Paissandu e Salto, e sitiou Montevidéu, o que forçou o presidente inimigo a pedir que Francisco Solano Lopez, presidente paraguaio, interviesse em busca de um arranjo, mas a atitude deste foi tão arrogante, pretensiosa e repleta de ameaças abertas e veladas, que o Brasil a refugou por considerá-la ofensiva. Aproveitando-se do fato, Lopes aprisionou o Marques de Olinda, barco brasileiro que transportava o coronel Carneiro de Campos, presidente da província do Mato Grosso.

           

Relatos mais pormenorizados sobre o episódio revelam que o general uruguaio Venâncio Flores (ilustração), não conseguindo evitar que a violência atingisse o território brasileiro, solicitou o apoio do Império sob a forma de um empréstimo financeiro, além da presença de uma divisão do Exército brasileiro em Montevidéu. Organizou-se, então, uma Divisão de Observação, transformada em seguida em Divisão Auxiliadora, integrada por um efetivo de quatro mil homens, sob o comando do brigadeiro Francisco Félix Pereira Pinto. Transpondo a fronteira em Março de 1864, esta tropa atingiu a localidade de Unión em Junho, onde estabeleceu quartel, enquanto o almirante Tamandaré recebia ordens para proteger os interesses dos brasileiros na região. Com estas medidas ganhou-se tempo para que se coordenasse a operação de invasão do Uruguai, iniciada a 16 de Outubro, por um efetivo de seis mil homens sob o comando do General João Propício Mena Barreto. Este efetivo marchou sobre Mello, dividido em duas divisões de Infantaria. Alcançado esse objetivo, as tropas brasileiras avançaram sobre Paissandu, sitiada por um mês, enquanto as forças brasileiras ali se concentravam. Enquanto isso, com o apoio da Armada Imperial, as forças uruguaias sob o comando de Venâncio Flores sitiaram a vila de Salto no rio Uruguai, que veio a capitular, sem resistência, a 28 de Novembro desse mesmo ano.

 

Finalmente, às 9 horas da manhã de 31 de Dezembro de 1864, as tropas brasileiras (com as do brigadeiro Antônio de Sampaio e as de Carlos Resin justapostas), contando com o apoio naval da esquadra brasileira sob o comando de Tamandaré, lançaram o ataque final a Paissandu. As tropas brasileiras atacaram frontalmente e pelo flanco direito, e as do general Flores pelo esquerdo. A resistência de Paissandu foi denodada e pertinaz, tendo durado todo o dia e entrado pela noite. Na manhã de 1 de Janeiro de 1865 a povoação capitulou, tendo o seu comandante, Leandro Gomes, sido aprisionado e depois morto por seus compatriotas, em contradição às normas de conduta da guerra. Conquistada Paissandu, as tropas imperiais brasileiras receberam ordens de marchar sobre a capital, Montevidéu. Passando por Colônia do Sacramento, impuseram sítio à capital no início de fevereiro. A 15 desse mês, Aguirre era deposto, formando-se um Governo Provisório dirigido pelo general Venâncio Flores.

 

Com a capitulação de Montevidéu, Aguirre e seus ministros fugiram e se refugiaram no Paraguai. O general Venâncio Flores foi aclamado como novo presidente do Uruguai, firmando com o Brasil os tratados de paz e amizade que até hoje perduram. As tropas do Brasil deixaram o Uruguai, mas aí então já havia se iniciado a Guerra do Paraguai, pois com o pedido de ajuda feito por Aguirre, Solano Lopez finalmente havia encontrado o pretexto para usar contra os brasileiros o forte e fanático exército que para tal fim há muito vinha preparando.