Desde 1902 os cafeicultores preocupavam-se com a possibilidade de uma crise no mercado internacional do produto, mas ela acabou eclodindo em 1906, com a superprodução que provocou a baixa dos preços. Para tentar superar esse problema os presidentes de São Paulo, Minas Gerais e Estado do Rio reuniram-se em fevereiro de 1906 (Taubaté-SP), quando firmaram convênio estabelecendo medidas para a valorização do café, inclusive restringindo a oferta através da compra de estoques pelo governo.
Essa decisão foi endossada pelas autoridades federais em fins do mesmo ano, mas associando a ela uma política de estabilidade cambial controlada pela Caixa de Conversão, criada pela lei 1575, de 6/12/1908, com a finalidade de ajudar a combater a crise por que passava o mercado do café, e manter equilibrado o poder de troca da moeda do Brasil no comércio com outras nações. Autorizada a criar bilhetes conversíveis garantidos por lastro em moedas de ouro nacionais e estrangeiras, ela emitiu papel-moeda em valores diversos (o chamado "papel-ouro" porque tinha a garantia de poder ser trocado por moedas de ouro), mas acabou sendo extinta em 1920 pelo decreto 14.066 de 19/02/1920, que a incorporou à Caixa de Amortização.
Essas operações foram realizadas em maior volume por ocasião da Primeira Guerra Mundial (1914/1918), através de emissões governamentais que garantiam a compra dos estoques, mantendo-se os preços. Em 1921, apesar da resistência inicial do presidente Epitácio Pessoa (ilustração acima), a valorização voltou a ser usada depois de São Paulo e Minas ameaçarem retirar seu apoio ao governo federal, caso ele não adotasse as medidas necessárias à defesa do preço do café. Em 1924, a situação conturbada vigente no país, mais as dificuldades do orçamento federal, levaram o presidente Artur Bernardes a cogitar o abandono dessa política, mas o Estado de São Paulo decidiu assumi-la e para tanto criou o Instituto do Café.
A Primeira Grande Guerra iniciou uma fase de recesso que se prolongaria ao longo do conflito, dificultando a obtenção de financiamentos europeus ou a importação de manufaturados, ao mesmo tempo em que fazia declinar a procura de certos gêneros não absolutamente necessários, como o café. No Brasil, essa situação beneficiou a produção industrial e a agricultura voltada para o mercado de gêneros de primeira necessidade, proporcionando um aumento significativo na produção industrial, especialmente nos setores têxtil e de alimentos. Mas uma vez terminada a guerra, normalizou-se o mercado internacional e o Brasil voltou a exportar regularmente café e a importar manufaturados que concorriam com os recém-criados similares nacionais, levando ao fechamento de muitas fábricas.
Depois da guerra de 1914/18, e durante a década de 20, a Primeira República atravessou uma crise que culminou com a sua extinção através da Revolução de 1930, destacando-se nessa fase o descontentamento da crescente população urbana e dos militares. A monocultura cafeeira era extremamente vulnerável às flutuações do mercado internacional, e a manutenção da política de defesa do produto acabava causando prejuízos à população: cada vez que se desvalorizava a moeda para proteger o setor cafeeiro, todos os preços aumentavam, num mecanismo que foi chamado de “socialização das perdas”. A população urbana, em crescimento, sofria a conseqüente falta de empregos e de serviços básicos, e por causa disso começou a reivindicar participação na política, até então praticamente dominada pelos grupos oligárquicos, apoiados num sistema viciado pelo voto de cabresto e pelo coronelismo. Nas eleições presidenciais de 1919, essa massa humana mostrou seu peso: o candidato Rui Barbosa, afastado dessa vez dos grupos políticos dominantes e apresentando um programa reformador, venceu no Distrito Federal e conseguiu, surpreendentemente, um terço dos votos apurados.
A população urbana reclamava contra os aluguéis elevados e a alta do custo de vida, em geral, reivindicando o voto secreto obrigatório (que a Primeira República não conheceu). A baixa classe média chegava a promover protestos públicos e agitações nos maiores centros urbanos, sobretudo no Rio de Janeiro, mas sem que qualquer organização política canalizasse essas forças. Os movimentos operários que se haviam formado desde o fim do século 19, sob inspiração predominante do sindicalismo anárquico, foram responsáveis por uma onda de greves a partir de 1917, mas entraram em decadência na década de 20 (quando o movimento anarquista brasileiro se dividiu, levando à fundação do Partido Comunista em 1922), e só começaram a recuperar-se na década de 30, servindo de suporte, no fim do período, ao populismo de Vargas. No campo, a única oposição manifestava-se através dos movimentos de messianismo, como as revoltas de Canudos (Bahia), do Contestado (Paraná e Santa Catarina), e de Juazeiro do Padre Cícero (Ceará).
Os setores menos favorecidos mantinham-se longe da participação política, e a classe média também não se impunha como uma força. O primeiro movimento contestador manifestou-se com o tenentismo, que impulsionou a Revolução de Trinta. A elite política gaúcha reforçou sua oposição ao núcleo agrário-exportador, aproximando-se dos militares, bastante numerosos na região por sua condição de fronteira. As tensões voltariam a agravar-se em 1922, dificultando a eleição do mineiro Artur Bernardes, marcada pelas rivalidades regionais entre os setores dominantes. A oposição ao eixo São Paulo-Minas se tornou mais nítida quando o Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Estado do Rio uniram-se na chamada “reação republicana”, lançando candidato próprio (Nilo Peçanha). A campanha oposicionista teve o apoio do exército (atingido pela divulgação de cartas ofensivas atribuídas a Artur Bernardes (ilustração acima) e posteriormente consideradas falsas), mas seu candidato foi derrotado. O descontentamento militar chegou a uma rebelião frustrada que culminou no Rio com a resistência de uns poucos homens em Copacabana (os Dezoito do Forte).
O governo de Bernardes foi bastante difícil (revolução paulista de 1924, Coluna Prestes, etc.), e transcorreu quase todo em estado de sítio. Muito impopular entre os nordestinos (que pediam providências contra os resultados das secas); entre os gaúchos (que reclamavam da inflação), e entre as populações urbanas (que se indignavam com a violência da ação policial) o presidente acabou por desagradar até mesmo ao setor cafeeiro quando as dificuldades o levaram a reorientar a política federal em 1925, adotando medidas deflacionárias e deixando de lado a defesa permanente do café. Em 1926 a sucessão presidencial ocorreu em aparente tranqüilidade, com o apoio de Minas e Rio Grande do Sul à eleição do paulista Washington Luís. O novo governo adotou uma política de reforma financeira pela qual se estabelecia uma taxa fixa de câmbio e se criava uma Caixa de Estabilização, para incrementar as exportações e evitar oscilações cambiais.
Ao fim desse governo os gaúchos haviam se unido num bloco de grande força política (com Getúlio Vargas à frente do governo estadual), enquanto em São Paulo se produzira uma cisão através da formação do Partido Democrático, que representava a classe média ligada ao café (profissionais liberais, jovens filhos de fazendeiros) e propunha reformas políticas liberalizantes, opondo-se ao conservadorismo do Partido Republicano Paulista. A conjugação desses fatos seria um elemento importante no processo que culminaria, em outubro de 1930, com a deposição do presidente pelas forças revolucionárias e sua substituição por Getúlio Vargas, candidato derrotado da Aliança Liberal (Rio Grande do Sul, Minas e Paraíba).
Fonte: Enciclopédia Abril