A verdade é que ninguém em qualquer quadrante deste mundo pode levantar uma palhinha sequer contra o caráter do Juvenal. Amigo, gentil, correto, pleno de abraços e prestabilidades, de coração aberto para o verso e o reverso. Justo nos litígios, econômico nos conceitos e ponderado no melindroso ramo dos conselhos solicitados e... gratuitos. Pela tradição imposta pelo hábito e a insensatez inerente a alguns amigos mais afoitos nas coisas do amor, Juvenal trás sempre o estômago bem forrado por dois tabletes de margarina sem sal de 100 gramas, um prato de macarrão parafuso cozido sem molho, três colheres de azeite extra-virgem e um profilático Omeprazol 40mg. Isso para o caso de a madrugada ser mais longa que a noite e as garrafas tão generosas em etílicos quão pródigo em lágrimas o padecente da vez.
Pela manhã após entregar em domicílio todos os bebuns de praxe, ele, zeloso de sua reputação de ouvidor e ombro de plantão, se senta para tomar um laranja sozinho e limpar a saburra da noite e o picumã do tempo e depois, lentamente, faz um balanço geral: rememora os principais fatos, comumente textos bufos ou lamentações cabotinas; e as principais falas, em geral impropérios cabeludos e constrangedores contra amados ou amadas que por ventura estejam na ingrata posição de pós e se prepara, cônscio, profissional, para usar todo o seu estoque de panos quentes e aplicar as regras diplomáticas que lhe são emblemas da sua grande arte da conciliação nacional. O consagrado Juvenal Style. E embora não tenha percebido de livre análise e vontade algumas pessoas periféricas ao seu círculo social ou satélites da sua órbita comercial, já estavam sacando que o Juvenal não tinha mais iniciativas próprias, esquecera suas atitudes personalíssimas, seus gestos cultivados de anos, tiques aprimoradíssimos e toques refinados. Mesmo seus apegos mais sagrados, seus ódios mais soberanos e temores mais íntimos estavam misteriosamente passando para planos voláteis, distraídos como brisas de Maio, traumas pueris renunciavam ao divã sem que ele desse pelo fato. Seus amores passaram a ser os amores dos amigos, seus conflitos eram os conflitos dos camaradas, sua existência se diluía em transferências e substituições, alheamentos e aleatorias, transfiguração. Mas não havia caos, nem revolta, apenas uma aquiescência apática e tácita.
O reumatismo da mãe do Juvêncio era o reumatismo que Juvenal sofria e cuidava; seus porres passaram a ser cópias exatas dos porres do festivo ou fossado da hora. Se o dito cuidava suas ressacas com aspirina e sal de frutas assim cuidava das suas; se o tal costumava rebater logo no arrebol, Juvenal rebatia com o sol ou com a chuva matutina. O nobre Juvenal nem mais chinelava uma perseguida, já que as inconfidências eróticas alheias o deixavam extenuado, em lasso prazer, respiração apressa e, sorumbática conseqüência:- As ceroulas besuntadas de invisíveis gerinozinhos de rabinhos compridinhos e inativozinhos da silva, como, com efeito, Juvenal o era, da Silva. Uns e outros até diziam quando em “soltas línguas”: o Juvenal é do Caralho! Mas ele preferia da Silva mesmo. Isso comove, comoveu e a comoção tomou atitude: Em reunião deliberativa a turma deu fé, rascunhou minuta e estabeleceu parâmetros de trato: se o De Cujus não se importa, porque se importariam eles, meros subalternos de sua paciência, deixem-mo-lo Não Se Ser, a seu modo e revogam-se as disposições em contrário. E atenção: nada de tratá-lo Pobrezinho, Coitadinho e outros pejorativozinhos diminutivados.
Mas a carga emocional a qual ele se submetia praticamente todas as noites estava, escancaradamente, colocando-o numa situação de corda bamba permanente, polarizando-o entre duas pilhas everésticas de excentricidades e precariedades, assim: numa noite, bombardeado com ódios sinceros e absolutos, acompanhado de socos à milanesa e escoriações à cabidela; na outra, agraciado com rompantes de sublime poesia, poemas paridos e amamentados por paixões devastadoras e bebericadas com champanhes metafóricos e canapés metrificados. Uma noite, noite minguante, segundo a folhinha Mariana, o frágil hímem que separa esses contraditórios tão equivalentes se rompeu sem que Juvenal desse pelo lance, digamos, in extremis: - A polícia o encontrou enforcado numa árvore com seu próprio cinto de couro legítimo, cor de café, numa praça não urbanizada e ainda sem nome na periferia da cidade. Ninguém reconheceu o corpo com exatidão, assim: um disse que parecia o Juvenal, mas aquele nariz escorrendo não era o dele que ele sempre usava lenço e lenço de linho alvo com monogramas; outro afirmou que o cadáver sugeria o Juvenal, mas aquela boca não era a dele que ele tinha dentes de diamantes polidos e não de seixos escarificados; um sapo consternado aumentou a dúvida ao coaxar que o defunto até poderia ser o Juvenal não fosse o cabelo que o dele, Juvenal, mostrava-se sempre penteado de esmero e não rebuliçado de dedanha; outro ainda tinha quase certeza que a carcaça era do Juvenal, mas aqueles olhos pendentes fora das órbitas apenas pareciam os do Juvenal, pareciam, de modos que lavava as mãos, mas não podia jurar que era o Juvenal, inda mais jurar por Deus que por ser Deus e Pai não faria tamanha sacanagem com um filho seu. Um quinto ou sexto curioso até reconheceu as meias do falecido como sendo do Juvenal, mas só as meias. Outro plantou mais trevas ao garantir que aquela gravata fininha de crochê verde, com certeza, era do Juvenal, por certo roubada, já que aquele finado não era o Juvenal que o Juvenal ele conhecia, ó-plec, ó-plec, ó-plec! de antigos carnavais! Afirmou plecando os dedos e lembrando velhas marchinhas de Lamartine, Braquinha e Tito Madi. Lá pelas tantas chegou o legista e declarou definitivo: foi a óbito. Assim como quem diz foi a Londres ou foi a Maracangália e a Anália não quis ir. Carimbou e assinou. E com o aval da autoridade constituída, ainda que mal dormida, mal-humorada, em noite de pressas e agonias, confirmam qualquer Juvenal em vida que dirá um Juvenal morto, mudo, sem direito a réplica, e o funerante, fosse lá quem fosse ali mesmo foi cristianizado Juvenal, extrema-ungido em nome do triunvirato de rotina e como tal foi, inexoravelmente, congelado no IML.
Totonho Thisisthequestion, amigo e legista diletante, de plantão no momento de transe do trânsito em julgado do Juvenal, sempre sensível nos salamaleques, opinou:
- Mortos assim de morte-de-per-si são rapidamente absorvidos pelo roldão do imediatismo dos futuros finados, os vivos. Em assim sendo suas memórias fragmentam-se eqüitativamente entre os camaradas bebuns dilui-se em cachaçal melancolia, escoa na preguiça eufórica do ostracismo vodkal.
Num cabaré vizinho, numa vitrola Hi-Fi, pré-adamita, um LP, pré-tudo, uma voz que todo mundo sabe de quem é mas não se lembra do nome estrangula Days of Wine and Roses e um casal enfumaçado dança de rostos colados e boca na orelha dum e orelha na boca doutro se sussurram para evidenciar que o amor não está finado, assim como o Berlusconi faz todos os dias com as puerilzinhas ao remunerá-la regiamente e sabemos todos que o Berlusca é safo o bastante para não confundir a obra de arte do mestre Picasso com...esquece, digamos então, não confundir cadáver com nada a ver. Nada a ver. Mas enfim, óbitos lembram exéquias que lembram burocracias que lembram despesas que deslembram as pessoas dos sentimentos e obrigações mais elementares. Um desses fulanos, nem mais me lembro do nome dele, até escreveu uma arenga laudatória, rasgou, que na revisão sacou que não estava a nível do falecido, do falecido... Saco, depois me lembro do nome dele, tá aqui ó na pontinha da língua, que se orgulhava do seu léxico irado e de sua gramática maneira. Tadinho. Taí, Tadinho é o nome do defunto.