ĮGUA-VIVA VESPA-DO-MAR

A Grande Barreira de Coral, o maior recife de coral do mundo, está situada junto à costa nordeste do estado australiano de Queensland. Com uma extensão de 2.300 quilômetros e formada por 2.900 recifes, 600 ilhas continentais e 300 atóis de coral, ela é um ecossistema complexo que serve de habitat a uma enorme variedade de peixes, corais, moluscos, algas e crustáceos.

 

Além deles, também são encontrados por lá espécies marinhas pertencentes à família dos celenterados, ou cnidários, animais de conformação semelhante a um saco e com apenas uma abertura (escondida entre os tentáculos) que serve, ao mesmo tempo, de boca e de ânus. Uma delas é a água-viva conhecida como vespa-do-mar, variedade que os biólogos classificam como agressiva e extremamente perigosa porque a ação rápida e potente de seu veneno não permite, em alguns casos, que sua vítima tenha tempo de nadar para a praia e por isso ela acaba morrendo no mar.  

 

Em novembro de 1998, em sua edição número 134, a revista Superinteressante publicou matéria intitulada “Bailarina Fatal”, assinada por Daniela Tommasi e Denis Russo Burgierman, na qual dizia que “Olhando distraído você não vê nada boiando na água. Mas, ao prestar atenção, nota um ser diáfano que move dezenas de braços, suave e lentamente. E, ao ajustar o foco, repara, num susto, que os tentáculos têm até 5 metros de comprimento. Seria um espetáculo lindo de se ver, caso a divina dançarina à sua frente não fosse uma serial killer. Trata-se da vespa-do-mar, a medusa australiana conhecida pelos biólogos como Chironex fleckeri. Ela carrega no corpo mais veneno letal do que qualquer bicho do planeta: possui toxina suficiente para matar sessenta homens adultos. Esses monstros, com 95% do corpo composto de água, são um flagelo das praias da costa norte da Austrália. Nos últimos cem anos mataram 65 banhistas, bem mais do que as 34 mortes causadas pelos tubarões que nadam no litoral daquele país". “Dependendo do abraço, a vítima da vespa pode morrer em poucos minutos”, diz a bióloga Denise Navas Pereira, da Universidade de São Paulo, estudiosa de águas-vivas. “Às vezes, não dá tempo nem para ser tirada da água.”

 

A parte superior do corpo de uma vespa-do-mar adulta, o sino, tem só 30 centímetros de diâmetro, e os longos tentáculos, com os quais ela ataca e captura suas presas, podem chegar a 5 metros de comprimento. Ninguém escapa do seu abraço mortal porque o sangue do ofendido leva ao coração do mesmo uma toxina que descontrola os batimentos cardíacos. Se a dose é grande, o músculo para de funcionar. Além disso, outro componente do veneno da vespa, a hemolisina, destrói os glóbulos vermelhos do sangue.

 

A matéria mencionada também ressalta que uma coisa deve ser dita em favor da medusa australiana. Ela não ataca o homem deliberadamente. "Seu cardápio são os pequenos peixes. Mas, apesar da dieta frugal, seu veneno é poderoso. A razão disso é que a vespa praticamente não sai do lugar", explica Denise Navas. "Ao contrário das lulas e dos polvos, ela só submerge ou sobe. Fica ao sabor da correnteza, à espera da vítima. Como caçadora que não nada, seu trunfo é paralisar a presa instantaneamente".

 

A vespa-do-mar usa o seu poder químico para capturar as presas, e azar do homem se for confundido com uma delas. Ao encostar na pele de outro animal ela libera cápsulas minúsculas, menores que uma célula, que penetram na pele do agredido levando as toxinas que chegam ao coração e aos pulmões em poucos minutos, paralisando os batimentos e a respiração.

 

Já existem antídotos para o veneno, mas como o atendimento tem que ser muito rápido, postos de pronto-socorro, logo na beira-mar, foram instalados nas praias de países onde ela sempre dá as caras, como na Austrália. No Brasil há grupos de medusa, como as do gênero Tamoya, que são parentes distantes da matadora do Pacífico, porém bem menos perigosas.

 

Um encontro fortuito com a vespa-do-mar deixa marcas permanentes – enormes e dolorosas cicatrizes. O toque do tentáculo arde como uma picada de vespa, só que muito, muito mais fortemente. Para evitar tais acidentes as autoridades australianas protegem as praias mais usadas com redes que mantêm afastados os indesejados animais marinhos. E os salva-vidas carregam antídoto contra o veneno da dançarina fatal.