O haraquiri constitui uma antiga tradição japonesa. O escritor anglo-alemão Houston Stewart Chamberlain (1855-1927), que se tornou famoso pelas teorias racistas que formulou, defendia a idéia de que o costume não seria originário do Japão, onde se teria desenvolvido entre a classe de guerreiros talvez como um meio de não cair vivo nas mãos do inimigo.
Segundo a tradição, o haraquiri podia ser obrigatório ou voluntário. O primeiro constituiu, a partir do século 16, um privilégio da classe militar, sendo uma espécie de concessão que o governo fazia aos samurais condenados à morte. O suicídio voluntário, que subsiste até hoje, constitui um meio de demonstrar a própria boa-fé, de manifestar protesto contra uma injustiça, ou de expressar desgosto pela morte de alguém. Mesmo na história recente do Japão, houve muitos casos de haraquiri coletivo, quando grande número de oficiais envolvidos no fracassado levante nacionalista de 1936, assim se suicidaram. Da mesma forma como aconteceu com grupos importantes de japoneses derrotados na 2ª Guerra Mundial, que escolheram este processo para demonstrar seu pesar por terem sido vencidos.
Os registros a respeito dizem que, no passado, esse ritual japonês de suicídio era todo cercado por regras e cerimônias. Os grandes guerreiros que o realizavam se preparavam com banhos de purificação, escreviam poemas e até contavam com testemunhas. O ato visava, na maioria das vezes, reparar a honra do suicida, manchada, por exemplo, por alguma conduta indigna. Em japonês, o termo haraquiri significa algo como cortar a barriga e é uma formar vulgar de se referir ao seppuku ("cortar o ventre"), a expressão mais nobre para esse tipo de suicídio.
O ritual fazia parte do código de ética dos samurais, os grandes guerreiros nipônicos do passado. No chamado período feudal, entre os séculos 12 e 19, o Japão foi governado por grandes proprietários de terras conhecidos como daimiôs, que costumavam ter um exército particular composto por samurais. Estes, além de virtuosos no comportamento, eram muito habilidosos com a espada, e só podiam servir a um único daimiô durante a vida. Não era incomum, portanto, que quando um mestre morresse o samurai resolvesse segui-lo.
“Um ditado samurai diz: ‘Perca a honra e a vida também estará perdida’. Além da honra, o seppuku era uma maneira de demonstrar a lealdade a seu senhor e acompanhá-lo no além-morte", diz o especialista oriental na arte de espadas Jorge Kishikawa, fundador do Instituto Cultural Niten, em São Paulo. O ritual podia ser feito no campo de batalha, para evitar a captura pelo exército inimigo, ou de forma mais cerimoniosa, com o suicida se preparando previamente para a morte. O registro do primeiro seppuku é do ano de 1170, quando o samurai Minamoto Tametomo se suicidou atirando-se sobre sua própria espada, após a derrota para um clã rival. Já o último ritual famoso aconteceu em 1970 e foi feito pelo grande escritor japonês Yukio Mishima, três vezes indicado ao prêmio Nobel de literatura.
1. O haraquiri, ou seppuku, começava com o samurai se preparando com um banho que ele acreditava servir para purificar o corpo e a alma. O guerreiro convidava amigos e parentes para testemunhar sua morte e a reconquista da honra perdida, e podia usar um traje especial, na cor branca, para simbolizar caráter íntegro e virtuoso.
2. O local escolhido para a cerimônia podia ser o interior de uma casa, mas normalmente era a céu aberto, como em um jardim budista. O seppuku só não podia ser feito nos jardins de templos xintoístas, lugares sagrados que não deveriam ser profanados com a morte.
3. O samurai se acomodava sentado sobre as pernas, escrevia o último poema numa mesinha de madeira e tomava o último saquê em dois goles. Depois posicionava a lâmina da espada no lado esquerdo do abdome e golpeava a si mesmo. Após o primeiro corte, os mais bravos traziam a espada até o centro do corpo e a levantavam, visando atingir o centro do abdome. Os japoneses acreditavam que ali se localizava a alma.
4. Para golpear a si mesmo, o guerreiro usava uma espada curta (de 30 a 60 centímetros) chamada wakizashi. Ele a empunhava segurando um lenço branco.
5. O kaishakunin, o segundo, era um outro samurai muito habilidoso que acompanhava a cerimônia. Ele podia ser um amigo do suicida ou até um inimigo, que, em reconhecimento à bravura do rival, oferecia-se para acompanhar a sua morte.
6. A função do seppuku era infligir ao suicida um ferimento fatal e doloroso. Mas como a morte às vezes levava horas, o kaishakunin podia dar um golpe de misericórdia para acabar com a vida do guerreiro, que já tinha provado sua coragem. O golpe único no pescoço precisava ser preciso, mantendo a cabeça presa ao corpo por um pedaço de pele. Fazê-la rolar pelo chão era considerado uma grande falta de respeito.