1904 - REVOLTA DA VACINA, A

Em 1904 eram muitos os problemas sociais e urbanos no Rio de Janeiro, capital da república. Além da aflição que pobreza e desemprego provocavam em grande parte da população, a falta de saneamento básico obrigava seus 720 mil moradores a viverem em péssimas condições de higiene, situação que se tornava ainda mais grave com o lixo amontoado nas ruas atraindo os ratos e os mosquitos transmissores de doenças, e provocando dessa forma a morte de milhares de pessoas em decorrência de epidemias de febre amarela, peste bubônica e varíola. Diante dessa situação calamitosa que chegou a dar à capital do país o triste apelido de túmulo de estrangeiros, o prefeito Pereira Passos decidiu agir: além de iniciar a operação Bota Abaixo, que demoliu os cortiços e casebres que compunham inúmeros quarteirões dos bairros centrais, e remover seus moradores para bairros distantes, para permitir o alargamento das ruas e construção da avenida central, ele também se preocupou com a instalação da rede de água e esgoto, e da coleta de lixo.

  

Já o combate às epidemias ficou sob a responsabilidade do médico sanitarista Osvaldo Cruz (ilustração acima), a quem foi entregue a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), cargo que equivalia na época ao posto de Ministro da Saúde. Para execução desse trabalho o Rio de Janeiro foi transformado em um gigantesco laboratório de combate às doenças - com a implantação de métodos revolucionários como a divisão da cidade em distritos, e a criação de uma polícia sanitária com poder para desinfetar as casas, caçar ratos e matar mosquitos onde eles fossem encontrados - ao mesmo tempo em que se encaminhou ao Congresso Nacional uma lei que reiterava a obrigatoriedade da vacinação já instituída muitos anos antes, em 1837, mas que nunca tinha sido cumprida. Com a aprovação dessa lei em 31 de outubro de 1904, as brigadas sanitárias, ou mata-mosquitos, começaram então a entrar nas casas e vacinar as pessoas à força, porém, como a sociedade não havia sido devidamente esclarecida sobre a necessidade dessa providência, e por isso não conseguia entender o alcance e a eficácia das medidas que estavam sendo tomadas, parte dela reagiu contra o dispositivo legal por considerá-lo uma violação ao direito individual, chegando-se mesmo a afirmar que seria um desrespeito submeter mulheres à inoculação, porque imaginavam que ela era feita nas partes     intimas do corpo. 

  

Além do mais, como a maioria da população desconhecia os efeitos que a injeção de líquidos poderia causar no corpo das pessoas que a recebessem, o temor com que essa medida era encarada foi-se transformando em rebeldia. Fazendo coro a esse sentimento quase generalizado, setores de oposição ao governo gritaram contra as medidas autoritárias, ao mesmo tempo em que a imprensa passou a criticar Oswaldo Cruz, ridicularizando seus atos por meio de charges e artigos. Esse clamor contra o médico sanitarista e o governo acabou provocando uma revolta popular que explodiu na forma de passeatas e comícios em praças e ruas do Rio de Janeiro, e na medida em que essas manifestações foram se agravando, os mais exaltados inicialmente passaram a atirar pedras nos funcionários da Saúde Pública que executavam a tarefa e nos policiais que lhes davam proteção, mas logo em seguida começaram a tombar e incendiar os bondes e carroças que encontravam pela frente, terminando por saquear as lojas instaladas ao longo do caminho que percorriam (na ilustração, charge da revolta da população contra Osvaldo Cruz).

 

Os políticos e militares da oposição tentaram valer-se da revolta popular contra a vacina para derrubar Rodrigues Alves da presidência da República, e para tanto criaram em 5 de novembro a Liga Contra a Vacina Obrigatória. Dias depois, em 10 de novembro, foram iniciados os confrontos entre populares e forças policiais; no dia 14, os cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha rebelaram-se contra o governo, que respondeu ordenando o bombardeio dos morros do bairro da Saúde, reduto da insurreição. Em 16 de novembro, Rodrigues Alves revogou a Lei da Vacina Obrigatória, e no dia seguinte, com o apoio do Exército e da Marinha, a polícia ocupou o bairro da Saúde, acabando com a revolta. O saldo negativo da insurreição foi de 23 mortos e 67 feridos, tendo sido presas 945 pessoas, das quais quase a metade acabou sendo deportada para o Acre.

 

Derrotados os militares e contida a insurreição popular, Rodrigues Alves retomou o controle da cidade e a vacinação foi reiniciada. Em pouco tempo a varíola desapareceria do Rio de Janeiro.