Esse tipo de tortura era muito comum na Idade Média, e consistia em suspender a vítima de forma violenta, com os braços atados às costas, visando deslocar-lhe os ombros. Os inquisidores preferiam esse tipo de suplício porque como a igreja lhes proibia o derramamento de sangue. Eles entendiam que aplicando a estrapada, ou polé, poderiam colher excelentes resultados naquilo que pretendiam descobrir, pensamento ao qual se associava o fato de que a aparelhagem usada nessas sessões era de extrema simplicidade.
Na verdade, ela era formada apenas por uma corda e uma roldana, e para utilizá-la bastava atar os pulsos do condenado às costas e prendê-los à corda passada pela roldana, permitindo dessa forma que o supliciado fosse facilmente suspenso e fazendo assim com que as articulações dos seus ombros passassem a suportar todo o peso do corpo. Pendurado dessa forma o coitado tinha suas clavículas e omoplatas desarticuladas de imediato, o que lhe provocava deformações que em alguns casos se tornavam definitivas. Mas a agonia do estrapado ainda podia ser agravada com a utilização de algumas medidas perversas:
a) os torturadores suspendiam a vítima até determinada altura e depois a deixavam cair, sustando bruscamente a queda antes que ele chegasse ao chão e provocando com isso rupturas das articulações e até mesmo fraturas ósseas.
b) para aumentar o peso do condenado, lastros de até 50 e 60 quilos eram presos a seus pés, mas registros desses interrogatórios afirmam que pesos de até 70 quilos eram usados.
c) algumas vezes, quando o condenado se achava suspenso, o torturador queimava algumas partes de seu corpo, principalmente as axilas, usando para isso mechas ou archotes.
Em 1624, uma esquadra holandesa comandada por Jacob Willekens e financiada pela Companhia das Índias Ocidentais, atacou a Bahia. Por essa época, Portugal e suas colônias haviam passado para o domínio da Espanha, em virtude do grande desastre de Alcácer-Quebir, África. Expulsos, os holandeses retornaram em 1630, escolhendo Pernambuco para alvo de seu ataque, e após alguns anos ocuparam o litoral do Brasil desde a foz do rio São Francisco até ao Maranhão, entregando a administração da terra conquistada ao conde João Maurício de Nassau.
O Poder Judiciário da Bahia, em seu site www.tj.ba.gov.br, publica material intitulado Memórias da Justiça Brasileira, onde relata da seguinte forma o uso desse meio de tortura em território brasileiro, durante o período inicial da referida invasão holandesa:
“Mas não se suponha que a justiça entre os holandeses fosse fraca ou permissiva. Mesmo os seus próprios soldados eram rigorosamente castigados pela menor quebra da disciplina. Dois deles foram condenados à forca, em setembro, por terem roubado garrafas de vinho, e outro porque, estando de guarda, os deixara passar. Por causas diversas, onze homens foram ‘punidos com a estrapada’ e três ‘com três horas de potro’. Outro, ‘que puxara da espada contra o seu sargento, foi arcabuzado’. À mesma pena foi condenado um sentinela que dormiu em serviço, mas foi perdoado no último instante. Mais dramática ainda foi a experiência do sentinela que deixara passar os ladrões de vinho. Estava já sendo enforcado quando a corda se partiu, caindo o condenado ao chão e encontrando assim um perdão absolutamente inesperado. Este costume parece corrente à época. Ainda em tempo dos portugueses, outro condenado passou por experiência similar, sendo recolhido pelos irmãos da Misericórdia que reivindicaram o seu perdão, atribuindo o acidente à vontade de Deus. Existe, entretanto, uma exceção, registrada por Frei Vicente do Salvador. Durante o governo de Mem de Sá - que era letrado - três cordas se partiram, sucessivamente, no pescoço de um condenado, que foi perdoado após a intervenção dos irmãos da Misericórdia. O governador, desconfiando da honestidade dos executores, mandou repetir o enforcamento, sem solenidades, na porta da cadeia. Dessa vez, a corda resistiu”.