Em seu livro Os Sertões, o escritor brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909), correspondente do jornal O Estado de São Paulo durante a guerra dos Canudos, relata o seguinte: “Cocorobó, nome que caracteriza não uma serra única, mas um sem número delas, recorda restos de antiqüíssimos canyons, vales de erosão ou quebradas, abertos pelo Vaza-Barris em remotas idades, quando incomparavelmente maior efluía talvez de grande lago que cobria a planície rogada de Canudos”.
E prossegue em sua descrição:
“O desfiladeiro de Cocorobó é em pálido resumo daquele rasgão da terra, de extremos afunilados, que se subdividem de um e outro lado na forquilha de dois outros porventura ainda menos praticáveis. A estrada duplica-se na falsa encruzilhada de dois desvios que o Vaza-Barris percorre por igual nas enchentes, ilhando os cômoros centrais - até sair, unidos os dois braços, numa várzea desimpedida e vasta que o caminho de Jeremoabo corta pelo meio, estirando-se em cheio para leste (...). Segue dali, perlongando qualquer das bordas do rio, até Canudos, menos de duas léguas na frente”.
Foi nesse local de topografia singular, perto do riacho Macarambi, que aconteceu em 25 de junho de 1897 uma sangrenta batalha entre as forças do governo da república, comandadas pelo General Cláudio do Amaral Savaget, e os fanáticos seguidores de Antônio Conselheiro (ilustração acima), reunidos em Canudos. Sendo atacados pelo inimigo quando se encontravam em posição de difícil defesa, os militares dessa coluna resistiram ao assalto durante cinco horas, primeiramente com artilharia, depois com fuzilaria, e finalmente usando suas baionetas, forçando a retirada do inimigo. Mas os jagunços se reorganizaram e voltaram horas depois, usando dessa vez a tática de tiros esparsos, porém certeiros, que feriram o general e mais 178 de seus homens, dos quais 27 morreram, entre eles dois oficiais. Essa mesma ação foi utilizada cerca de dois dias depois contra as tropas do General Artur Oscar Andrade Guimarães, que após sofrer 326 baixas, entre mortos e feridos, retirou-se do local.
Apesar dos insucessos e ataques sofridos, as duas colunas acabaram se encontrando e encurralando os sertanejos em Canudos, praça que finalmente foi invadida em 5 de outubro de 1897, "ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados (...). No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas. (...)."
Em www.portfolium.com.br, o mais completo site sobre a história de Canudos, lê-se que terminada a resistência sertaneja, “Canudos estava destruída. Num cenário de fim de mundo, por entre becos e ruelas, uma legião de corpos carbonizados se misturam com as ruínas e as cinzas das 5.200 casas. A elite política, acadêmica e militar do país estava em êxtase. Os deputados federais da Bahia congratulam-se com o governo pela ‘completa destruição de Canudos, baluarte de bandidos e fanáticos’, e o próprio Presidente da República, Prudente de Moraes, declara: ‘em Canudos não ficará pedra sobre pedra’. Enfim os generais cumpriram o prometido, pois queriam que ali se plantasse a solidão e a morte. Estima-se que mais de 25 mil conselheiristas morreram no conflito que mobilizou um contingente superior a 12 mil soldados do Exército (mais da metade de todo o efetivo nacional), na maior guerra de guerrilhas que o Brasil já viveu. Numa preciosidade do pensamento dominante, O Barão de Studart escreve: ‘Para esse fim houve recurso aos meios mais desumanos, que não convêm registrar a bem dos nossos foros de nação civilizada e cristã".
O corpo de Antonio Conselheiro (ilustração acima, em foto de Flávio de Barros), depois de localizado e exumado pelas forças governistas, teve sua cabeça cortada e levada para a capital baiana, onde ficou em exposição pública na antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, até o dia 03 de Março de 1905, quando foi destruída por um incêndio misterioso.