Certamente não há brasileiro que desconheça a dança de nome de quadrilha, parte integrante das festas do mês de junho em louvor a São João, Santo Antônio e São Pedro. Dela dizia o poeta, romancista e folclorista Mário de Andrade (1893-1945), em “Missão de Pesquisas Folclóricas”, que é “uma dança de salão, aos pares, de origem francesa, e que no Brasil passou a ser dançada também ao ar livre. Os participantes obedecem às marcas ditadas por um organizador da dança. O acompanhante tradicional das quadrilhas é a sanfona”.
Segundo os pesquisadores, ela já se incluía entre os costumes de moradores das áreas rurais da Inglaterra por volta dos séculos 13 e 14, mas a guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre franceses e ingleses, também promoveu uma transferência cultural entre os dois países. Foi quando a França adotou a quadrilha, popularizando-a de tal forma que ela chegou aos palácios e tornou-se uma dança da aristocracia. Para alguns cientistas sociais, especialmente os antropólogos, essa forma de entretenimento nada mais é que uma continuidade do pensamento evolucionista muito em voga principalmente no século XIX, onde pessoas que residem em áreas urbanas agem de forma estereotipada, zombando dos moradores de áreas rurais mesmo sem se darem conta do que estão fazendo.
Ao falar sobre a dança o folclorista Lula Gonzaga, pernambucano de Recife, nascido em 1951, afirma que a quadrilha tornou-se uma das mais animadas danças de salão da Europa, durante o século 19. Esta dança palaciana era muito popular durante o período napoleônico, tendo chegado ao Brasil com a Corte Real Portuguesa que para cá se transferira em virtude da invasão de seu território, trazendo consigo o gosto europeu quanto à moda, à leitura, danças e até mesmo comida. Depois, as várias missões culturais francesas que nos visitaram nessa mesma época contribuíram para consolidar sua aceitação em terras brasileiras, e por isso ela despiu-se da pose aristocrática e transformou-se em manifestação popular. Com isso, relata o folclorista pernambucano Francisco Augusto Pereira da Costa (1851/1923), em trabalho sobre folclore publicado em 1908, a quadrilha vulgarizou-se, porque em 1837 já havia modificado suas evoluções básicas, substituindo-as outras (como a música, por exemplo).
A dança palaciana, com marcação em francês, incluía cinco partes cujos nomes eram os seguintes: 1) La chaîme continue des dames (a corrente contínua de damas); 2) La nouvelle traîne (a nova corrente); 3) La corbeille (a cesta de flores); 4) Double pastorellle (dupla pastorinha), que eram as de andamento, e finalmente a 5º parte, Boulangere (padeira) e casse-croisé (quebrado-atravessado), executadas ao som do allegro e allegreto, e terminando com um en avant geral (galope), mais tarde modificado como polca, mazurca ou valsa. Depois, todas essas orientações aos poucos foram se aportuguesando, até chegarem ao modo de falar atual.
Para Alexandre José de Mello Morais Filho (1844-1919), autor de Festas e Tradições Populares do Brasil, “a quadrilha já era tão popular em 1853 que se transformara numa dança de corporações profissionais, uma delas a dos barbeiros cariocas, que a executavam nas Folias do Divino”. Essa observação fornece uma informação importante e curiosa sobre o porquê de as quadrilhas serem dançadas em junho, ao invés de outra época do ano. A comemoração do Divino Espírito Santo realiza-se no Domingo de Pentecostes, festa móvel católica que acontece cinqüenta dias depois da Páscoa, ou seja, sempre muito próxima do mês de junho, época do ano em que são promovidas as festividades dedicadas aos santos juninos. Dizem os pesquisadores que por uma simples questão de aculturação, conjunto de fenômenos resultantes do contato direto e continuado de grupos de indivíduos de culturas diferentes, “aquela dança, de forte apelo popular, rapidamente conquistou o povo que já fazia das festas de junho uma das suas maiores manifestações. E a quadrilha chegou, então, a São João, Santo Antônio e São Pedro, para não mais deixá-los”.
Ao lado do sentimento religioso que o ciclo junino desperta, o seu sentido de festa também se amplia, sobretudo com a musicalidade e a dança. Mas para o professor Roberto Benjamim, membro da Comissão Nacional de Folclore, “a quadrilha, hoje associada ao casamento matuto, vai se transformando em um folguedo de natureza complexa. O casamento matuto é a representação onde os jovens debocham, com muita liberdade e malícia, da instituição do casamento, da severidade dos pais, do sexo pré-nupcial e suas conseqüências, do machismo, etc. Tal representação crítica acaba por reforçar os papéis sociais e os valores da moral tradicional. Um aspecto deve ser evidenciado: os festejos juninos são a festa da adolescência e da juventude, talvez ainda como uma reminiscência dos ritos da fertilidade”.
Das marcações transmitidas aos participantes da quadrilha, podem ser citadas:
ANAVANTUR (en avant tout) – os cavalheiros tomam as damas e andam de mãos dadas até o centro do salão, encontrando-se com a fila da frente.
ANARRIÊ (em arriére) – os pares, ainda de mãos dadas, voltam em marcha-ré até o ponto em que estavam e se separam, ficando os cavalheiros de frente às damas.
TRAVESSÊ DE CAVALHEIROS (travesser) – as damas permanecem em seus lugares enquanto os cavalheiros atravessam o salão e param diante da dama do outro par, cujo cavalheiro faz o mesmo. Ao se encontrarem com as damas dos pares da frente, dão-se as mãos, fazem duas meias-voltas, indo depois para os seus lugares.
TRAVESSÊ GERAL – as duas filas atravessam o salão ao mesmo tempo, cruzando-se no centro, pela direita. Ao chegarem aos seus lugares, voltam a ficar de frente para o par.
CORTESIA – os cavalheiros dão um passo para trás, sem largar a mão da dama, ficando semi-ajoelhados. As damas dão duas voltinhas pela esquerda, os cavalheiros levantam-se e aguardam o próximo passo.
BALANCÊ COM O PAR VIS A VIS – seguem somente os cavalheiros, e ao se encontrarem com as damas vão entrelaçando os respectivos braços direitos. Dão duas voltas e retornam aos seus lugares, ficando de frente para o par.
CESTINHA DE FLORES – as damas levantam os braços, passando-os por cima dos ombros com a palma das mãos para cima. Os cavalheiros que estão atrás seguram as mãos das damas e continuam a marchar.
DAMAS AO CENTRO – damas formam a roda e os cavalheiros outra, por fora. Rodam todos no mesmo sentido, para a esquerda.
OLHA O TÚNEL – o par-guia dá-se as mãos, levantando-as à altura dos ombros. O par próximo ao guia passa por baixo e coloca-se ao lado, na mesma posição. Todos os demais pares fazem o mesmo.