1873 - CONVENÇÃO DE ITU

O jornal A República, com o subtítulo Jornal da Democracia Portuguesa, começou a circular em São Paulo no dia 11 de maio de 1870. No primeiro número do novo periódico o jornalista Antero de Quental proclamou em edital: “A república é, no Estado, liberdade; nas consciências, moralidade; no trabalho, segurança; na nação, força e independência. Para todos, riqueza; para todos, igualdade; para todos, luz”. E acrescentou: “Não é só reorganização do Estado nas instituições: é, ainda, reorganização do indivíduo nos sentimentos, porque se a república assenta sobre o direito, o direito republicano assenta sobre a moral” (na ilustração, obra de J. Barros representando a Convenção de Itu).

 

Em 03 de dezembro do mesmo ano, Saldanha Marinho, conselheiro da Coroa, e diversos jornalistas, entre eles Rangel Pestana, Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo e Lopes Trovão, assinaram manifesto (*) divulgando as diretrizes de uma nova agremiação política - o Partido Republicano - cuja proposta era a de defender o federalismo em oposição ao unitarismo do império, além de lutar pelo fim da união do Estado com a Igreja, e do Senado vitalício. Em seu parágrafo final, esse documento afirmava: “Perante a Europa passamos por ser uma democracia monárquica que não inspira simpatia nem provoca adesão. Perante a América passamos por ser uma democracia monarquizada, aonde o instinto e a força do povo não podem preponderar ante o arbítrio e a onipotência do soberano. Em tais condições pode o Brasil considerar-se um país isolado, não só no seio da América, mas no seio do mundo. O nosso esforço dirige-se a suprimir este estado de coisas, pondo-nos em contato fraternal com todos os povos, e em solidariedade democrática com o continente de que fazemos parte”.

 

Essa declaração obteve grande repercussão principalmente em São Paulo e Minas Gerais, resultando daí muitas e crescentes adesões à idéia de criação de uma nova agremiação partidária destinada a congregar os adeptos do republicanismo, que na opinião do advogado e então ex-deputado provincial Manuel Ferraz de Campos Sales (ilustração abaixo), “não é um partido na acepção vulgar e bastarda dessa palavra, como se a tem empregado no nosso país, mas sim um pensamento, uma bandeira política”. Em conseqüência disso, os líderes do movimento reuniram-se em 17 de janeiro de 1872, na casa de Américo Brasiliense, em São Paulo, com o objetivo de definir como propagar e impulsionar ainda mais o sentimento republicano que àquela altura já seduzia pessoas de todas as classes sociais. E eles terminaram optando pela convocação de um congresso na cidade de Itu, interior paulista, fazendo coincidir a data desse encontro com a da inauguração da linha férrea naquela cidade.

 

As providências nesse sentido ficaram a cargo de João Tibiriçá Piratininga e Jose Vasconcelos de Almeida Prado, fazendeiros ituanos, que definiram a data de 18 de abril de 1873 para a realização do encontro. Nessa reunião histórica que contou com a presença de 133 convencionais (78 proprietários rurais, 12 negociantes, 10 advogados, 8 médicos e 25 de outras profissões), iniciou-se o processo de organização do Partido Republicano Paulista – PRP, dominado pelos grandes cafeicultores do oeste daquele estado, deliberando-se, também, que clubes republicanos deveriam ser fundados onde eles ainda não existissem, como forma de fortalecer os núcleos municipais  que deveriam definir representantes para participar dos congressos anuais realizados pelo Partido, tornando mais agressiva e atuante a propaganda do novo regime de governo que se pretendia ver implantado no país.

 

Além disso, foi criada uma Comissão Permanente de eleição anual, composta inicialmente por sete membros, e posteriormente por nove, cuja função seria a de coordenar e colocar em prática as deliberações aprovadas nos congressos. Estas não foram realizadas em todos os anos seguintes, da mesma forma como não foram divulgados manifestos preparados durante as que aconteceram, mas apesar disso a doutrina republicana paulatinamente foi se tornando conhecida, o que passou a incomodar o império. Diante disso, o imperador Dom Pedro II, em contrapartida, procurou conquistar o apoio e simpatia de pessoas com maior destaque na sociedade, distribuindo entre eles títulos de nobreza. Segundo relatos contemporâneos, de 1869 até a proclamação da república, mais de mil barões e viscondes passaram a circular pelos salões do reino, mais que dobro das mesmas honrarias que Dom João VI e Dom Pedro I haviam concedido (404, no total) durante o período em que estiveram à frente do governo.

 

Uma das questões discutidas na Convenção de Itu foi o fortalecimento da imprensa partidária. O jornal “A República” tivera duração efêmera, e depois dele o Correio Paulistano tornou-se o principal veículo de apoio ao movimento republicano. Até que em 1874 os dirigentes da agremiação decidiram pela criação de um veículo de informação próprio que começou a circular em 04 de janeiro de 1875 com o nome de Província de São Paulo, editado por um grupo liderado por Américo Brasiliense de Almeida Melo e Manuel Ferraz de Campos Sales (em 1885, ingressou em sua redação Júlio César Ferreira de Mesquita, que em pouco tempo passou a diretor. Desde então, a direção do jornal permaneceu nas mãos da família Mesquita, com o nome de O Estado de São Paulo).

 

Segundo os pesquisadores, a assembléia realizada em Itu, até então denominada simplesmente reunião, recebeu pela primeira vez a designação de convenção no Correio Paulistano, em sua edição de 25 de abril de 1873. O jornal noticiou o evento sem lhe dar muito destaque. Entretanto, com o passar do tempo, à reunião foram atribuídos significados que pouco a pouco a transformaram na Convenção de Itu, o dia da sua realização passou a ser lido como a data da fundação do Partido Republicano Paulista, e a antiga residência tornou-se conhecida como a Casa da Convenção. Américo Brasiliense escreveu em 1891, momento em que ocupava a presidência do estado de São Paulo, que havia assumido o seu cargo “com a mesma calma e com a mesma convicção de bem que me levaram àquela, já hoje célebre, reunião solenemente realizada em 18 de abril de 1873, e que passará à história com a denominação de Convenção de Itu”.

 

Pouco tempo depois da manifestação de Américo Brasiliense, os republicanos paulistas passaram a demonstrar interesse na preservação da casa de Itu. Mas a compra do imóvel pelo Governo do Estado se deu somente três décadas depois, num momento em que o PRP já começava a sentir os primeiros sinais de desgaste após a longa hegemonia iniciada com a subida ao poder dos representantes da cafeicultura paulista nos governos de Prudente de Morais e Campos Sales.

 

(*) Leia 1870 – Manifesto Republicano