ILHA DA QUEIMADA GRANDE - São Paulo

A ilha da Queimada Grande, tornada Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) pelo Decreto Federal 91.887, de 05 de novembro de 1985, está situada no oceano Atlântico, a pouco mais de 30 quilômetros do litoral da cidade paulista de Itanhaém, no sul do estado. Apesar das várias explicações para o seu nome, a mais aceita é a de que tenha como origem os constantes incêndios que acontecem na ilha na época da seca, provocados pela ação de raios no capim ressequido e transformado em palha.

 

A ilha da Queimada Grande é um bloco rochoso sem moradores humanos há mais de oitenta anos. Tem 430 mil metros quadrados (1,5 km de comprimento por 500m de largura máxima) duzentos metros de altura em sua parte mais elevada, sem praias e com paredões íngremes que tornam difícil o desembarque de quem desejar conhecê-la in loco. Isso é permitido aos cientistas do Instituto Butantan e analistas ambientais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, mas proibido pela Marinha do Brasil, salvo raras exceções, aos demais interessados. Os motivos para isso são dois: preservação da flora e fauna local, e o risco a que os visitantes estariam expostos diante do elevado número de cobras extremamente venenosas que ali têm o seu habitat.

 

Essas cobras são endêmicas da ilha, ou seja, não existem em nenhum outro lugar do mundo. Pertencentes à espécie jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), foram descobertas em 1921 por Afrânio do Amaral, especialista em répteis, e submetidas a estudos que revelaram serem elas portadoras de inúmeras características curiosas que as diferenciam das outras espécies da mesma família existentes no continente. Segundo Henrique Caldeira Costa e Vinícius de Avelar São Pedro, herpetólogos do Departamento de Biologia Animal da Universidade Federal de Viçosa:

 

 “A jararaca-ilhoa (ilustração), quando jovem, tem hábitos parecidos com os das jararacas do continente: ambas se alimentam à noite e comem, principalmente, pequenas pererecas, rãs, lagartos e centopéias  Porém, quando se tornam adultas, surgem as diferenças. As jararacas do continente continuam sendo noturnas, vivem quase exclusivamente no chão e passam a se alimentar basicamente de pequenos roedores. Mas como não há roedores em Queimada Grande, a jararaca-ilhoa adulta desenvolveu o hábito de se alimentar das aves que visitam a ilha. Para capturar suas presas ela trocou a caça noturna pela diurna, e frequentemente é vista subindo em árvores e arbustos”. O veneno da jararaca da ilha (que não entra na água salgada) é cinco vezes mais potente que a do continente. Até hoje, todas as pessoas picadas na ilha morreram. Eram faroleiros, pescadores desavisados e curiosos.

 

Provavelmente a jararaca-ilhoa conquistou seu território há milhares de anos, no tempo em que o mar, regredindo, uniu a Ilha ao continente por uma vasta extensão de areia e vegetação. Mas depois, quando tudo voltou ao normal, a cobra ficou isolada, e assim, sendo obrigada a adaptar-se a um novo ambiente para conseguir sobreviver, alterou o seu cardápio habitual e passou a buscar como alimento o que lhe poderia servir como tal: as aves. Para isso desenvolveu um poderoso veneno e passou a utilizar os poleiros existentes nas árvores, sendo possível encontrá-las, agora, a 4 metros do chão, enrodilhadas nos galhos. Hoje, sua população é muito alta, o que torna a ilha o local de maior concentração de serpentes por metro quadrado do mundo (de quatro a cinco).

 

Segundo os biólogos especializados em serpentes, as jararacas da ilha Queimada Grande são hermafroditas, ou seja, possuem os dois sexos. Foi a solução encontrada pela natureza para épocas de superpovoamento da ilha, ou escassez de indivíduos. Quando em determinada parte, ou época, ocorre ali maior presença de machos, ou vice-versa, algumas cobras desenvolvem o sexo oposto para então poder procriar.

 

A ilha, que já serviu como tema para diversos documentários, inclusive de redes de TV internacionais, tem sido alvo de algumas pessoas inescrupulosas, quase sempre vindas de outros países, que se aproveitam da distância que a separa da costa para caçar cobras ilegalmente e levá-las para o exterior. A coleta de espécimes na Ilha tem que ser autorizada pelo IBAMA, razão pela qual a retirada de exemplares sem o consentimento das autoridades responsáveis, constitui um grave crime perante a lei de proteção à fauna e às forças armadas.

 

A ilha, de propriedade da Marinha do Brasil, é tombada por vários decretos federais, sendo considerada área de segurança em virtude da presença de um farol automatizado de sinalização. Até a década de 1940 existiam famílias de faroleiros que moravam ali e mantinham o farol em funcionamento, mas devido aos acidentes provocados pelas serpentes ele foi transformado em automático. A Marinha visita a Ilha regularmente, com intervalos de três a seis meses, para efetuar a troca das baterias solares que alimentam o farol.

 

O mar profundo que envolve a Ilha é de beleza e clareza raras. Cardumes de lulas, arraias, baleias, tartarugas e golfinhos são comuns naquelas águas. A Ilha da Queimada Grande é reconhecida pela comunidade científica brasileira e mundial como um vasto santuário ecológico que necessita ser preservado.