MAPA DE PIRI REIS, O

Piri Reis, como era conhecido no Ocidente, foi um almirante turco cujas façanhas o transformaram em célebre herói para o seu povo, embora os europeus o tivessem considerado como mais um dos piratas que infestaram o Mediterrâneo entre o final do século 15 e primeira metade do século 16. Nascido provavelmente em 1465, morreu decapitado em 1554 ou 1555, por ordem do governador otomano de Basra, em virtude de sua recusa em participar de nova campanha marítima contra os portugueses.

 

Dele, pouco se sabe. Até mesmo seu nome considerado original - Hadji Ahmed Mudiddin Piri, ao qual depois foi acrescentado o Reis, que significa almirante – é duvidoso, mas acredita-se que tenha nascido em Gallipoli, na parte européia da Turquia, ou em Karaman, também cidade turca situada na antiga Anatólia, hoje Ásia Menor. O que se tem como verdadeiro é que seu ingresso na pirataria ocorreu em 1481, pelas mãos de um tio que morreu afogado em 1511, durante uma tempestade. Piri Reis retornou então à sua cidade natal, onde, entre os dias 9 de março e 7 de abril de 1513, preparou o livro denominado Livro da Marinha (I-Bahriye Kitab, no original), publicado em 1521 e avaliado atualmente como uma das obras mais intrigantes sobre navegação marítima escritas no período final da Idade Média.

 

Embora conhecida, mas esquecida durante muito tempo, ela foi redescoberta no dia 9 de novembro de 1929, enrolada em uma prateleira empoeirada do Museu Topkapi, em Istambul, um palácio que servira como residência oficial de sultões otomanos até 1924, quando então lhe deram a nova destinação. Apesar disso, sua importância só foi devidamente avaliada em 1953, ano em que Arlington H. Malerry, especialista em mapas antigos, recebeu do engenheiro-chefe do Departamento de Hidrografia da Marinha Americana a incumbência de estudá-lo. E foi o que ele fez ajudado por uma equipe de técnicos (cartógrafos, exploradores, pesquisadores polares e até matemáticos) considerados como os melhores em suas respectivas áreas de atuação, resultando desse trabalho conjunto a confirmação de sua veracidade.

 

O Livro da Marinha tem duas seções principais. A primeira reúne informações detalhadas sobre os principais portos, baías, golfos, cabos, penínsulas, ilhas, estreitos e abrigos ideais existentes no Mar Mediterrâneo. Além disso, fornece detalhes técnicos e informações relacionadas com o uso correto da bússola, tipos de tempestades, determinação de rumo através das estrelas, características dos oceanos e terras ao seu redor, dando ênfase maior às descobertas de novas terras por Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e outros marinheiros portugueses.

 

A segunda é integralmente composta por mapas que indicam a localização dos portos então conhecidos, com descrições detalhadas sobre sua profundidade, rotas de aproximação, marés, modo de entrar e sair deles, e outras mais.

 

Na primeira edição do seu livro, que se tornou conhecido em 1521, Piri Reis incluiu 132 mapas. A segunda edição, terminada em 1525, contém 210 cartas marítimas. Muitas delas descrevem o Estreito de Dardanelos, as ilhas e costas dos mares Egeu, Jônico, Adriático, Tirreno e da Ligúria. Além deles, a Riviera Francesa, as ilhas Baleares, o Estreito de Gibraltar, as Ilhas Canárias, na costa do norte da África, o Egito e o Rio Nilo, o litoral da Anatólia, incluindo detalhes como descrições e desenhos de alguns dos mais famosos monumentos existentes em cada cidade. Outros mapas mostram as  Antilhas, o leste da América do Sul e noroeste da África e Europa, apresentando, pela primeira vez, as Américas do Norte e do Sul formando um só continente.      

 

Piri Reis era um oficial da marinha de guerra turca que jamais navegou no Atlântico, limitando sua área de ação ao Mediterrâneo. Ele não era um aventureiro, um explorador, alguém que viaja por um país ou região com o objetivo de estudá-la. Segundo declarações escritas por ele mesmo, seus mapas foram baseados em antigas cartas geográficas similares, de origem árabe, chinesa, indiana e grega, e outros mais recentes, de espanhóis e portugueses, o que lhe permitiu dar uma representação abrangente do mundo conhecido em sua época. Em seu texto Reis esclarece que em relação aos continentes africano e americano “Essas terras e ilhas são elaboradas a partir do mapa de Colombo”, também citando como documentos de consulta para os demais, “mapas feitos na época de Alexandre, o Grande”, morto no ano 323 antes de Cristo. Todas as fontes mencionadas por ele permanecem desconhecidas.

 

No entendimento dos que estudaram o mapa de Piri Reis, ele supera em muito as outras cartas do mesmo período de tempo. Mas essa análise não encontra resposta para inúmeras indagações, ou curiosidades, entre elas a que questiona sobre como, em seu trabalho cartográfico, tudo foi registrado com notável exatidão, se na época de sua elaboração não existiam instrumentos que permitissem tal correção? Como explicar a conformação da região antártica (na ilustração acima), idêntica à existente antes da última glaciação, ocorrida há milhares de anos? Ou como justificar as latitudes precisas do litoral da América do Sul e da África, vinte e um anos após as viagens de Colombo?

 

Essas e outras perguntas sobre o mapa de Piri Reis permanecem sem resposta.