O cinema pode ser definido simploriamente como a arte da imagem em movimento. É, acima de tudo, um aprimoramento evolutivo da fotografia, isto é, a fotografia quando em movimento nada mais é do que cinema. O crítico francês André Bazin (1918-1958) destacou que “A fotografia se beneficia de uma transferência de realidade da coisa para a sua reprodução. A imagem pode ser nebulosa, descolorida, sem valor documental, mas ela é o modelo. Daí o fascínio das fotografias dos álbuns. Pois a fotografia não cria, ela embalsama o tempo”.
O aprimoramento evolutivo da fotografia teve uma participação importante do secretário da Real Sociedade de Londres, Peter Mark Roget. Em 1824 ele publicou um trabalho no qual afirmava que “o olho humano retém as imagens durante uma fração de segundo posterior ao momento em que elas desaparecem de seu ângulo de visão”. A partir destas palavras vários homens começaram a ter muitas idéias. Em 1832 o belga Joseph Plateau criou o Fenaquistoscópio, onde várias figuras de uma mesma pessoa em posições diferentes, desenhadas num disco, movimentavam-se no girar da peça. Em 1834, William George Horner desenvolveu o Zoótropo, uma espécie de tambor com aberturas laterais, e nelas colocou vários desenhos. Quando o tambor gira, percebem-se as imagens em movimento. Aproveitando a idéia de Horner, em 1877 o francês Charles Émile Reynaud criou o Praxinoscópio usando uma caixa de biscoitos redonda onde adaptou um aro dotado de espelhos colocado no centro e os desenhos na parede interior. Girando o tambor, dava-se a animação dos desenhos. Mas antes, em 1861, o norte-americano Coleman Sellers criou algo parecido, o Quinematoscópio, só que usava fotografias em série.
Eadweard Muybridge era um fotógrafo reconhecido na Califórnia do século XIX. Uma experiência sua realizada com cavalos foi um salto grande para o surgimento do cinema. Ele colocou máquinas fotográficas (variando de 12 a 24 de acordo com a literatura) em espaços regulares ligadas a fios. As máquinas eram acionadas pelo cavalo a galope. A intenção da experiência era provar que num determinado instante o cavalo mantinha as quatro patas no ar. Em 1879 Muybridge exibiu as fotografias numa sequência animada através de um invento seu, o Zoopraxiscope. Dizem que este foi o primeiro filme da história.
Outros inventos surgiram seguindo parâmetros parecidos. A intenção era, cada vez mais, evoluir o aspecto estático da fotografia para movimentos seriados. Na verdade, estavam explorando o fenômeno da persistência retiniana de Roget, como o Cronofotógrafo do francês Etienne Jules Mariz, o Cinetoscópio de Thomas A. Edison e películas de emulsão fotográfica de alta velocidade desenvolvidas por Hannibal Goodwin e Georges Eastman.
Com os inventores cada vez mais ativos era de se esperar que os primeiros filmes surgissem. E eles vieram nas mãos de Thomas A. Edison e seu Cinetoscópio, em 1890. Dizem os historiadores que seu Black Maria foi o primeiro filme da história do cinema, e não o galope de cavalos de Muybridge. Enquanto isso, na França, os irmãos Louis e Auguste Lumière aperfeiçoaram o invento de Edison criando o Cinematógrafo, em 1895. O invento era ao mesmo tempo filmador, copiador e projetor. Este é considerado pelos historiadores como realmente o primeiro aparelho de cinema.
Final do século XIX, em 1895. Os historiadores consideram esta data como o marco inicial do cinema. Os irmãos Lumière (ilustração) produziram uma série de filmes documentários curtos que causaram furor e espanto. O primeiro, Sortie de L’usine Lumière à Lyon (Empregados deixando a Fábrica Lumière) tinha apenas 45 segundos. Em 28 de dezembro do mesmo ano, um verdadeiro assombro aconteceu. Os irmãos Lumière exibiram o curta A chegada do trem na estação. O impacto na platéia foi tão grande que todos os presentes se retiraram com medo de serem atropelados pelo trem.
Com a produção em série de filmes diminutos, os irmãos Lumière foram os responsáveis para que outros gênios surgissem. A partir de 1896 o ilusionista francês Georges Méliès produziu vários filmes curtos de ficção, como O caso Dreyfuss, de 1899 e Viagem à Lua, de 1902. Em 1903 o americano Edwin S. Porter produziu O grande roubo do trem. Este filme foi um tremendo sucesso, contribuindo em muito para a popularização do cinema e sua transformação em indústria.
Até 1909 o cinema se expandiu por conta da genialidade de seus primeiros idealizadores. Foi, aos poucos, se tornando uma indústria de entretenimento. Entre 1909 e 1912 esta recente indústria esteve nas mãos do truste americano Motion Pictures Patents Company. A partir daí dissolveu-se e os produtores independentes formaram suas próprias empresas de criação, distribuição e exibição. O cinema se tornava cada vez mais popular. Tanto que em 1911 o crítico italiano Ricciotto Canudo (1879-1923), já percebendo o futuro promissor desta nova arte, produziu o Manifesto das Sete Artes para denominar o cinema de A Sétima Arte, que se reuniu às outras seis artes já conhecidas: dança, teatro, música, literatura, pintura e escultura.
Do início do século XX até os dias de hoje o cinema não parou mais de evoluir em seus inúmeros movimentos, que serão discutidos em cada texto separadamente. Interessante é que seus principais idealizadores não sentiram firmeza na novidade. André Bazin escreveu que “os que menos tiveram confiança no futuro do cinema, como arte e mesmo como indústria foram, precisamente, os dois industriais, Edison e Lumière. Edison contentou-se com seu Cinetoscópio individual e, se Lumière recusou judicialmente a Méliès a venda de sua patente, foi porque provavelmente pensava ter mais lucro ele mesmo se a explorasse, mas efetivamente como um brinquedo, do qual mais dia menos dia o público se cansaria”.