1888 - GUARDA NEGRA, A

Enquanto na Inconfidência Mineira os negros estiveram praticamente ausentes, na Revolta dos Alfaiates, ocorrida na Bahia em 1798, os rebelados baianos colocavam a libertação dos escravos no primeiro plano das suas cogitações. Entre os dirigentes desse movimento incluíam-se negros e pardos livres e escravos, artesãos, alfaiates e outros componentes das camadas mais discriminadas da sociedade baiana da época.

 

Cem anos depois, após a Abolição da Escravatura, certa parcela dos grupos negros se engajou na defesa do isabelismo, uma espécie de culto à Princesa Isabel, que os libertara, destacando-se nesse particular o jornalista José do Patrocínio (ilustração), que incentivava ex-escravos a se agruparem para a defesa da monarquia ameaçada pelo crescimento dos grupos que pretendiam implantar a república no Brasil. Este movimento culminou na constituição da Guarda Negra, uma espécie de tropa de choque composta pela “ralé carioca e por maltas de capoeiras”, na opinião de Ruy Barbosa, cuja principal finalidade era dissolver comícios republicanos pelo uso da força. Seus integrantes acreditavam ser seu dever proteger das violências republicanas o sistema que os libertara e por isso se mantinham leais à monarquia, opondo-se aos paulistas, que pretendiam a instalação do novo regime.

 

Esses elementos aliciados por José do Patrocínio deram muito trabalho às autoridades, e impediram, em muitos casos, que os adversários da monarquia se manifestassem. Os seus membros conseguiram dissolver muitos comícios republicanos através da violência, e segundo registros feitos pela crônica da época, ocorreram até mesmo mortes durante essas reuniões públicas, todas elas atribuídas à ação de integrantes da Guarda Negra, que foi responsabilizada por essas ações funestas. Osvaldo Orico, biógrafo de José do Patrocínio, assim descreveu a situação:

 

“Incompreensível por um lado, mas explicável por outro, essa famigerada Guarda Negra tivera um inspirador. Não fora outro senão José do Patrocínio. O fanatismo abrira-lhe na alma a ilusão desse recurso com que imaginava cercar de garantias o prestígio da Redentora de sua raça. Foi a gratidão que o moveu a provocar e a sugerir um movimento de solidariedade dos libertos para com a padroeira inesquecível. E, ao toque de reunir, acorreram de todo lado os antigos sentenciados do cativeiro, ansiosos de oferecer com a força material do peito aberto, a flor do seu reconhecimento heróico. Os acontecimentos registrados na capital e no interior, durante a fase em que se fez sentir a influência da Guarda Negra e se apelou para a sua incontida violência, mostraram como fora infeliz a idéia de arregimentar no antigo holocausto das senzalas a força que deveria guardar o Trono. Inaugurou-se uma época de terror que deu à nação enormes prejuízos em dinheiro e em vidas. Onde quer que brilhasse a centelha da luz republicana, surgia aí o conflito das raças, desencadeado pela fúria dos libertos em louvor à rainha. E amiudaram-se os atentados e morticínios. Na rua do Passeio; em frente à Secretaria de Justiça; em dias de março de 89, durante a agitação popular que a febre amarela e a falta de água provocaram, a Guarda Negra deixou indícios de sua lamentável influência”.

 

“Nas cidades de Campos e Lage do Murié, a Guarda Negra agiu com violência contra os republicanos: Na primeira localidade, em uma reunião republicana que se processava pacificamente, massa enorme de policiais e libertos armados invadiu o edifício em que se realizava um banquete democrático, alarmou as senhoras, desrespeitou, com ameaças, a intervenção amistosa do pároco, que suplicava das janelas do templo ordem e clemência, disparou tiros, arremessou garrafas, espancou e feriu, tudo isto para levantar, entre acompanhamentos bélicos, muitos vivas e saudações à Princesa Isabel. Na segunda, a polícia, após uma série de distúrbios, prendeu no tronco um honrado cidadão por suspeita de ideais republicanos”.

 

A Guarda Negra contou com o apoio de muitos abolicionistas e representantes da Liga dos Homens de Cor. Entre suas atribuições, conforme determinação constante de seu estatuto, constava a de defender os ex-escravos e proteger a figura da Princesa Isabel, pois ela representava a liberdade alcançada pelos homens de cor, a personalidade que os redimira da escravidão num ato de bondade pessoal. Por outro lado, ao ser atacada por grande parte da imprensa, aliada dos fazendeiros poderosos, a Guarda Negra acabou sendo rotulada como um braço armado dos monarquistas contra os republicanos, embora a verdade fosse que os setores descontentes com o fim da escravidão, além dos racistas, não aceitavam a presença do negro no processo que culminou com o ato de 15 de novembro de 1889. No entender dos analistas, eles defendiam a republica, contudo, a queriam exclusivista. E conseguiram. Com isso, a Guarda Negra se desarticulou completamente após a proclamação da República, vindo a desaparecer sem maiores conseqüências. Quanto a José do Patrocínio, ao constatar que a monarquia realmente chegara ao fim, foi um dos primeiros a aderir ao novo regime. Além de não agradar os adeptos republicanos, Patrocínio foi abandonado pelos ex-exilados. Em 1892, após um atrito com o Marechal Floriano, ele foi exilado na Amazônia (na ilustração acima, ele é o terceiro da esquerda para a direita, em companhia de civis e militares também exilados).

 

A formação de grupos denominados Guarda Negra ocorreu em muitos lugares do Brasil. O Jornal Tribuna do Norte, por exemplo, no fascículo 7 de História do Rio Grande do Norte, inclui o seguinte parágrafo: “Natal teve sua Guarda Negra, criação do Partido Conservador e instrumento de combate às idéias republicanas. Segundo os conservadores, os negros, por gratidão deveriam defender a monarquia. Em Natal, a Guarda Negra recebeu o nome de Clube da Guarda Negra. O seu presidente foi Malaquias Maciel Pinheiro. Instalada a 10 de fevereiro de 1889, com muita festa, essa organização, na apuração de Câmara Cascudo, nada fez de bom ou mal”.