DOM QUIXOTE

Vou contar neste cordel / Com jeito bem brasileiro / A história dum fidalgo / E seu fiel escudeiro / Dom Quixote se chamou / Este nobre cavaleiro / O andarilho Dom Quixote / Viveu em terras distantes / O seu gênio criador / Digo, foi Miguel de Cervantes / Dom Quixote pelo mundo / Está vivo nas estantes.

 

Lá pelas bandas da Espanha / Onde nuvem se desmancha / Viveu um nobre fidalgo / Dotado de muita cancha / Conhecido pelo nome / Dom Quixote de La Mancha / Gostava muito de ler / História de cavaleiro / Acabou se confundindo / Com um desse aventureiro / Saiu pelas redondezas / Em garbo de justiceiro.

 

De tanto que leu na vida / Acabou-se delirando / Via visagem todo dia / De monstro lhe visitando / Com sua espada veloz / Mil monstros ia matando / Era homem de vida sóbria / Com um apetite exemplar / Comia carne e chouriço / No almoço e no jantar / Ovos fritos e lentilhas / Sabia bem apreciar.

 

Sua casa era composta / De pouca gente a viver. / Tinha uma governante / Dos afazeres a fazer. / Também tinha uma sobrinha / De vinte anos a crescer. / Um menino lá morava, / Sendo de forte exemplar / Era pau pra toda obra / Na hora de trabalhar / Serviço de campo ou de casa / Fazia bem sem reclamar.

 

Quixano já amadurecido / Cinqüenta anos no cangote / Preferiu trocar de nome / E passar pra Dom Quixote / Por ser título de cavaleiro / Com cavalo bom de trote./ Bastante rico ele foi / Mas em pobre se tornou / Não perdeu a elegância / Roupas boas sempre usou / E quem via sua figura / Pensava ver um doutor.

 

Era magro, muito comprido / E com gestos de altivez / Fugiu da realidade / Na vida piorou de vez / Talvez por sabedoria / Desta forma ele se fez. / De tudo via na frente. / Via bruxas e feiticeiros, / Via duelos em combates / De andantes cavaleiros / Via reis enfeitiçados / E dragões cm escudeiros.

 

Via bichos por todos os lados / E inocentes pra defender, / Gigantes por derrubar / E justiça por fazer. / Natureza por zelar, / E donzelas a socorrer. / Cavaleiro de verdade / Nunca pode andar a pé / Dom Quixote só encontrou / Um magrelo pangaré / Como amava os animais / Botou nele muita fé.

 

Cavalo que não tem nome / Não leva ninguém adiante / O cavalo então ganhou / O nome de Rocinonte / Dom Quixote se tornou / Nobre cavaleiro andante / De posse de Rocinonte / Aí faltava a armadura / Encontrou uma enferrujada / No porão da casa escura / Agora já se achava / Quase pronto pra aventura. 

 

Dom Quixote em aventuras / Como andante cavaleiro / Precisava urgentemente / De um fiel escudeiro / Sancho Pança, seu vizinho / Foi o tiro mais certeiro / Sancho Pança era gordo / E ingênuo lavrador / Homem de bem e honesto / E também trabalhador / Na sua ingenuidade / Fez-se fiel ao seu pastor.

 

O Sancho Pança escutava / Da boca de Dom Quixote / Tantas imaginações / E promessas sem calote / Até uma ilha ganharia / Com animal de bom trote / Sancho Pança resolveu / Ser o fiel escudeiro / Largando tudo de vez / Foram ser aventureiros / Vivendo com Dom Quixote / As façanhas de cavaleiros.

 

Sancho com um jumentinho / E com certa lucidez / Adentrava nas loucuras / De Dom Quixote de vez / Esperando recompensas / Com calma e sensatez / Cavaleiro sem amada / É sofrer de dispnéia / Recorrendo à memória / Foi lembrar de Dulcinéia / Lá do tempo de menino / Uma pequena plebéia.

 

Dulcinéia de Taboso / Uma simples camponesa / Se tornou para Quixote / A mais sublime deusa / Ao partir para as batalhas / Invocava sua princesa / Também todas as vitórias / Dedicava a Dulcinéia / Sua doce campesina / Uma ninfeta européia / Todo tipo de batalha / Transformava em epopéia.

 

Dom Quixote ainda sozinho / Montado no Rocinonte / Saiu à cata de aventuras / Em seu sonho delirante / Ser cavaleiro de verdade / Nunca ser um aspirante / Após um dia caminhando / Depara com uma estalagem / Em sua mente perturbada / Vê um castelo com carruagem / Pede para ser ordenado / Cavaleiro da hospedagem.

 

Atacou os comerciantes / Pensando ser adversários / Levou muitas cacetadas / Daqueles proprietários / Capotou do Rocinonte / Com espada e escudários / Encontrou duas mulheres / Bonitonas e garbosas / Dom Quixote suspirou: / - Que mulheres perfumosas! / Fico aqui por uns bons dias / Pois estou num mar de rosas.

 

Um porqueiro veio chegando / Com porcos à reveria / Dom Quixote então pensou / Ser o mensageiro da alegria / Pra anunciar sua chegada / Naquela hospedaria / As mulheres sorridentes / Assustarem com a euforia / Dom Quixote disse logo: / - Pertenço à Cavalaria / Eu sou de reputação / Não tolero covardia.

 

Perguntaram a Dom Quixote / Se queria se alimentar / Ele respondeu que sim / E puseram a preparar / Um bacalhau já passado / Só pra dele se zombar / A roupa de cavaleiro / Logo ali foi retirada / Só ficou o capacete / Com a viseira arriada / Enfiaram em sua goela / A falsa bacalhoada.

 

Quixote não percebeu / Ser tratado em desalinho / As mulheres zombando dele / Dando vinho no canudinho / Mesmo assim ele pensou / ser tratado com carinho / O pessoal de sua casa / O barbeiro e o padreca / Vendo que nosso fidalgo / Tinha pirado a peteca / Queimaram todos os livros / Lacraram a biblioteca.

 

Dom Quixote imaginando / Lá no fundo do terreiro / Que a queima de seus livros / Era obra de feiticeiro / Resolve voltar à aventura / Com Sancho, seu escudeiro / Depois de muitas andanças / Pelos distantes caminhos / Avistaram bem ao longe / Trinta ou quarenta moinhos / Dom Quixote disse a Sancho / - Veja lá quantos monstrinhos.

 

São dezenas de gigantes / Que vêm vindo nos matar / Vamos logo combater / A nenhum vamos poupar / - Não são gigantes, senhor / São moinhos a girar / - Sancho, você é meu escudeiro / E moleza eu não agüento / São gigantes com seus braços / Fazendo tal movimento / Se você está com medo / Deixe que sozinho eu os enfrento.

 

Os conselhos do escudeiro / Quixote não quis ouvir / Partiu contra os moinhos / E bem longe foi cair / Mesmo assim ficou pensando / Em bruxos a lhe trair / Mais adiante confundindo  /  Dois rebanhos de carneiros  /  Como exército de inimigos  /  Ele avança bem ligeiro / Agredindo sem pensar / Aqueles dóceis cordeiros.

 

Mais uma vez é surrado / Na rua pelos pastores / Estendido lá no chão /Entre estrumes e fedores / Pisado pelas ovelhas / E sentindo muitas dores / Dom Quixote arrebentado / Mas firme na sua postura / Passa a ser o cavaleiro / De nome Triste Figura / Alcunha que recebeu / de sua fiel criatura.

 

Dom Quixote de La Mancha / Segue firme seu caminho / Desejando combater / As injustiças sozinho / Nunca esquece Dorotéia / Nem na hora dos espinhos / Dom Quixote vive entre / O imaginário e o real / Vê na cabeça dum barbeiro / Um elmo dourado e oval / E nas suas desventuras / É protegido do mal.

 

Ajuda com convicção / A fugirem criminosos / Pensando estar libertando / Escravos mui gloriosos / E em suas desventuras / Leva surras dolorosas / De tão pura imaginação / Enxergava até gigantes / Todos de grandes tamanhos / Em rodas d’águas girantes / Para sua visão apurada /  Eram gigantes cantantes.

 

Certa feita Dom Quixote / Andando tranquilamente / Nas ruas de seu povoado / Viu surgiu na sua frente / Um outro cavaleiro andante / E ficou surpreendente / O cavaleiro chegante / Trazia erguida a mão / E em seu escudo se via / Uma bela lua e seu clarão / A lua pra Dom Quixote / Despertou logo atenção.

 

O cavaleiro falou / Em bom tom, com muita cancha: / - A tua fama pelo mundo / Em toda parte deslancha / Tu és o nobre escudeiro / Dom Quixote de La Mancha / Já eu sou cavaleiro / Que nunca se aperreia / Se você não me conhece / Não me faça cara feia / Pois eu sou o cavaleiro / Da famosa Lua Cheia.

 

Vim aqui desafiá-lo / Em nome do meu amor. / Não existe na redondeza / Outra mais perfeita flor / Saiba que sua Dulcinéia / Não merece ter pastor / Dom Quixote enrubesceu / Feito caldo de geléia / Ao pensar não existir / Por essa imensa platéia / Donzela que se compare / À sua doce Dulcinéia.

 

Cavaleiro da Lua Cheia / Com firme proposição / Parte para Dom Quixote / Derrubando-o no chão / O fidalgo tombou feio / Como a queda de um mamão / - Dom Quixote foi vencido / Agora há de confessar / Minha dama é a mais bela / Que habita esse lugar / Dom Quixote revidou / - Isso eu não vou confessar.

 

Tudo foi proposital / O cavaleiro a essa altura / Queria que Dom Quixote  / Largasse de sua loucura / E voltasse para a vida / Esquecendo da bravura / Dom Quixote baqueado / Pensou decididamente / - Vou de novo pastorear / Ovelhas tranquilamente / Me afastarei por um tempo / Dessa vida de demente.  

 

Chegando ao seu povoado / Foi aclamado com alegria / Mas no fundo de pensar / De novo aventuraria / Acontece que adoece / Ali mesmo na euforia / Em seu estado doentio / Tinha febre sem parar / Sancho Pança bom amigo, / Começo a preocupar, / Foi a derrota que causou / No fidalgo o mal estar.

 

Voltou minha lucidez / Meu Deus, oh quantas loucuras / Que aprontei por essa vida / Tudo em função das leituras. / Só agora vejo as tolices / De viver em aventuras. / Era grave o seu estado. / Um médico veio de intermédio / E seu fiel Sancho Pança / Começou a cair no tédio / Quando o doutor afirmou / Ser um caso sem remédio.

 

Tanto tempo viajando / Em devaneio de desengano. / Só agora sei quem sou / Na lucidez desse plano. / O meu nome de verdade / Se diz Alonso Quixano. /  Antes do derradeiro ai / Vem chegando o escrivão / Faz ali o testamento / Entre os entes da região / Sancho Pança e a governanta / E a sobrinha do coração.

 

Dom Quixote moribundo / Com seu puro coração / Ainda pediu aos amigos / Que lhe dessem o perdão. / E em silêncio na cama / Fez a Deus uma oração. / Chega o fim do testamento / De quem a vida tanto amou / Definhando sobre a cama / O último suspiro suspirou / A vida presa em seu corpo / Naquela hora desligou.

 

Olegário Alfredo, que também assina Mestre Gaio, é mineiro de Teófilo Otoni. Além de pesquisador das tradições populares brasileiras, é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, e mestre de capoeira. Possui mais de cem títulos de folhetos de cordéis publicados sobre vários temas. De sua autoria a Crisálida publicou as antologias “Folclore em Cordel” e “Capoeira em Cordel”.