DONA OLYMPIA DE OURO PRETO

A cidade de Ouro Preto / Possui fama nacional / E para Minas Gerais / Eis a primeira capital / Foi tombada para ser / Patrimônio mundial / Teve escravo, teve lei / Teve paz e crueldade / Riqueza por toda parte / E poetas de verdade / Ouro Preto sempre foi / O palco da liberdade.

 

Em Ouro Preto tudo tem. / Tem igrejas seculares / Tem ladeira da preguiça / E também tem muitos bares. / Tem moça namoradeira / E figuras populares / A Inconfidência Mineira / Por ali que aconteceu / Tiradentes virou mártir / Enforcado ele morreu / E nenhum conspirador / Na terra sobreviveu.

 

Cidade muito famosa / Pelo Festival de Inverno / Os hippies fizeram lá / Um movimento moderno / Ouro Preto é tida como / Lugar de povo fraterno / Em toda parte do mundo / Há um tipo popular / Vivem assim porque não / Se conseguem encaixar / Aos modelos sociais / De acordo com o lugar.

 

São tratados como loucos / Sem saber se é verdade / Perambulam pelas ruas / Com bem naturalidade / Fazem parte da rotina / Do viver pela cidade / O caso que vou contar / É história verdadeira / Sucedeu por Ouro Preto / Cidade hospitaleira / As farras de Dona Olympia / No tropeço da ladeira.

 

Dona Olympia foi nascida / Em Santa Rita Durão / Distrito de Mariana / Cidade de tradição / Vivia mais em Ouro Preto / Devido à situação / Vinda de família rica / Logo se viu desgostosa / Perambulava pelas ruas / Como formosa andrajosa / E dizem que assim ficou / Por desilusão amorosa.  

 

Aos poucos anos de idade / Ela se viu apaixonada / Por um jovem estudante / E que Farmácia estudava / Era pobre o tal rapaz / E seu pai não concordava / O pai da jovem Olympia / Carregado de avareza / Imaginava em calote / Do rapaz da redondeza / Aproveitar de sua filha / Para tirar-lhe a riqueza.

 

De maneira autoritária / Foi proibido o romance / A pequena sinhá Olympia / Não teve segunda chance / Um circuito na cabeça / Logo veio de relance / Tempos depois resolveu / Virar escalafobética / Vestindo roupas excêntricas / Contrariando a estética / Vagando e inventando casos / Adaptou à nova técnica.

 

Foi essa forma que arranjou / De apaziguar tanta dor / Abandonando o seu pai / Proibidor do seu amor / Gostava de conversar / Pra renascer seu valor / O estudante de farmácia / De Ouro Preto se mudou / A Olympia que era bonita / A ver navios ficou / A cicatriz deste amor / Nunca mais ela curou.

 

Muito tempo sem se ver / Os dois passaram então / Um dia vindo a Ouro Preto / A par de uma reunião / O rapaz ao ver Olympia / Veio a morrer de emoção. / Lá vai sinhá Olympia / No sobe desce ladeira, / Com chapéu todo florido / E cigarro na piteira / De roupagem colorida / E elegância de faceira.

 

Caminhando com o cajado / Em sua rotina diária / Contadora de história / Cabeça de visionária / Se tornou pra todo mundo / A figura mais lendária / Retratada por fotógrafos / Louca muito assediada / Inspiradora dos músicos / Dos poetas admirada / Nas violas dos cantores / Sempre homenageada.

                                     

Mulher carregada de / Personalidade forte / Não tinha papas na língua / Zombava da própria morte / Aos turistas todos os dias / Criava casos sem corte / Casos sem pé nem cabeça / de acordo com a emoção / Misturava tudo, tudo / Realidade e ficção / Pessoas que já morreram / Trazia na imaginação.

 

Gostava de colecionar / O dinheiro dos turistas / E com malucas histórias / Que divertia os artistas / Seu nome sempre saía / Em jornais e em revistas / Dom Pedro com Tiradentes / Em seus casos incluía / Já a Princesa Isabel / Falava que conhecia / E levava a vida com / Liberdade e fantasia.  

 

Freqüentadora de igreja / Tal como a do Pilar / Gostava de cantar alto / Até o padre lhe xingar / Dizem que tocou piano / Algumas vezes no altar / Os turistas estrangeiros / Tinham ela com amor / Chegou a ser convidada / Ir até o exterior / Muitas cartas recebia / Falando de seu valor.

 

Dona Olympia se tornou / Musa da contracultura / Adorava tirar fotos / Só posava com postura / Convivia com os hippies / Ignorava a ditadura / Conheceu Tancredo Neves / Em dias de festivais / Juscelino Kubitscheck / E outros presidentes mais / Dona Olympia então virou / Símbolo de Minas Gerais.

 

A força do popular / Diz que move cordilheira / Veja o exemplo dessa louca / Filha de terra mineira / Em 90 (1990) foi, portanto / Samba-enredo da Mangueira / E como se não bastasse / Nunca fechava sua porta / Olympia foi inspiradora / Entre loa que entrecorta / Com uma bela canção / Feita por Toninho Horta.

 

Dona Olympia de Ouro Preto / Por três décadas revestiu / De amor, alegria e ternura / Por onde desceu e subiu / As pedras ouro-pretanas / De quem de perto assistiu. /  Após seu falecimento, / Em solo de chão mineiro, / Em baixo de seu colchão / Acharam muito dinheiro / Que ganhara dos turistas / Do Brasil e do estrangeiro.

 

Olympia Angélica de Almeida Cotta nasceu em 1889 e faleceu em 1975, em Ouro Preto, MG.