O IBGE (www.ibge.gov.br) informa que até o ano de 1999 o dia da imprensa era comemorado em 10 de setembro. E perguntando “você sabe por que a data mudou?”, ele esclarece em seguida:
“Foi em 10 de setembro de 1808 que circulou pela primeira vez a Gazeta do Rio de Janeiro, um periódico oficial que servia à Corte. Até esse ano, eram proibidas a circulação e a impressão de qualquer tipo de jornal ou livro. Porém, havia um jornal que, antes da criação da Gazeta do Rio de Janeiro, já circulava clandestinamente: era o Correio Braziliense, produzido pelo jornalista gaúcho Hipólito José da Costa Se na época as publicações brasileiras eram proibidas porque a Corte Portuguesa temia que os brasileiros fossem influenciados pelas idéias de liberdade, igualdade e fraternidade que circulavam pela Europa, o Correio Braziliense tinha que permanecer clandestino porque simpatizava com tais pensamentos. O Correio Braziliense foi lançado em junho de 1808, ou seja, três meses antes da Gazeta. Somente em 1999 foi reconhecido oficialmente como pioneiro na história da imprensa brasileira e então, foi criada uma lei que determinava a mudança do dia da imprensa para 10 de junho”.
Sobre o mesmo assunto a Associação Nacional de Jornais – ANJ (fundada em 1979 e com sede em Brasília), que representa 137 empresas jornalísticas responsáveis por mais de 90% da circulação brasileira de jornais, publicou no dia 01/06/2008, em www.anj.org.br a seguinte informação: “Devido a contestações de historiadores, o Dia da Imprensa, que antes era comemorado na data em que começou a circular ‘A Gazeta do Rio de Janeiro’ mudou. A lei nº 9.8831 de 1999 determinou que a data mudasse do dia 10 de setembro para 1º de junho, data de nascimento do ‘Correio Braziliense’, em Londres”.
Antes disso, o Instituto Gutenberg (www.igutenberg.org) criado em 1994 com a intenção de ser um crítico independente da mídia, divulgara em seu boletim 29 (novembro/dezembro de 1999), o texto “Sai a Gazeta, entra o Correio”, subtítulo “Homenagem troca um jornal do governo por um jornal vendido ao governo”, que diz:
“Nem a imprensa deu importância à mudança do Dia da Imprensa, de 10 de setembro, para 1º de junho. Trocou-se a comemoração da instalação do primeiro jornal no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, pelo lançamento do primeiro jornal português na Inglaterra, o Correio Braziliense. A troca simboliza um ato de independência da imprensa brasileira contemporânea: a Gazeta foi destronada por ter sido o jornal oficial da Coroa, e o Correio, exaltado por constituir exemplo de jornalismo independente, da iniciativa privada. A mudança, sugerida pela Associação Riograndense (sic) de Imprensa (gaúcha), foi patrocinada por um projeto do deputado Nelson Marchezan (PSDB-RS) e sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em cerimônia com a presença do presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Paulo Cabral, diretor do atual Correio Braziliense ressuscitado em Brasília, em 1960, por Assis Chateaubriand”.
“O equívoco começa aí: para demarcar sua distância do oficialismo, as entidades da imprensa recorrem a providências oficiais. Comemoram lei aprovada por um deputado do governo e sancionada pelo chefe do governo. Nada impede - aliás, tudo recomenda - que a imprensa festeje a data que bem entender, alheia ao calendário oficial. Se não gostava da homenagem à folha da Coroa portuguesa, que escolhesse um dia em que o jornalismo de fato triunfou sobre a servidão - e há muitos em nossa história, como, por exemplo, na biografia de grandes jornalistas do porte de Antonio Borges da Fonseca, que nasceu coincidentemente junto com a Gazeta, em 1808 e, perseguido pelos poderosos, declarava-se na polícia: ‘Eu sou inimigo do rei’. Borges da Fonseca, sim - como Frei Caneca e Cipriano Barata - foi um jornalista independente, liberal e republicano. Cipriano Barata foi líder da Conjuração dos Alfaiates, em 1798, e Frei Joaquim do Amor Divino Rebelo Caneca, ideólogo da Confederação do Equador, em 1824, quando surgiu o primeiro programa de liberdade de imprensa no País. Destronar a Gazeta é tentar copidescar a história”.
“O jornal do príncipe significou a instalação da imprensa no Brasil com as limitações da época: um jornal oficial, sob censura como tudo que se publicava no reino, de livros a cartas de baralho. Segundo o historiador Nelson Werneck Sodré, era ‘um arremedo de imprensa’. Na descrição do historiador inglês John Armitage, que viveu como comerciante no Rio, a Gazeta era a revista Caras da época: só informava ao público, com toda a fidelidade, do estado de saúde de todos os príncipes da Europa e, de quando em quando as suas páginas eram ilustradas com alguns documentos de ofício, notícias dos dias, natalícios, odes e panegíricos da família reinante. Não se manchavam essas páginas com as efervescências da democracia, nem com a exposição de agravos. A julgar-se do Brasil pelo seu único periódico, devia ser considerado um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado um só queixume” (na ilustração, Hipólito José da Costa).
“Outra curiosidade, esta impensável hoje: o primeiro redator-chefe do jornal, frei Tibúrcio José da Rocha, trabalhou quatro anos sem receber um centavo. Já Hipólito da Costa fartou-se do dinheiro do poder que combatia. A história deste brasileiro, nascido no conflagrado território de Sacramento, hoje Uruguai, então disputado pelo Brasil com a Espanha, tem sido muito valorizada. Funcionário do governo português, para o qual cumpriu missões nos Estados Unidos e serviu como diretor da junta da Impressão Régia, Hipólito caiu em desgraça por ser maçom. Perseguido pela Inquisição, exilou-se na Inglaterra, onde, sustentado por amigos da maçonaria e, mais tarde, pelos príncipes, fundou e dirigiu o Correio Brasiliense. Hipólito da Costa e seu periódico têm méritos, sobretudo o de iluminar o ambiente colonial com idéias e críticas à treva do período, mas os críticos não lhe poupam o aulicismo disfarçado e a linha sinuosa de seu jornal”.
“Em rigor, o Correio nem atendia a uma das exigências clássicas para definição de jornal: a periodicidade. Se a Gazeta circulava três vezes por semana, o Correio era mensário. Seu foco principal, ao contrário do que diz a lenda, não era o Brasil, mas a Europa e os Estados Unidos. Foi frouxo na defesa da Abolição e da Independência, e forte na pregação de valores morais para a Corte. Ademais, como pondera Sodré, ‘é discutível sua inserção na imprensa brasileira, menos pelo fato de ser feito no exterior, o que aconteceu muitas vezes, do que pelo fato de não ter surgido e se mantido por força de condições internas, mas de condições externas”. Historiadores portugueses, como José M. Tengarrinha, consideram o Correio como um jornal português publicado na Inglaterra”.
“Os patrocinadores da patacoada politicamente correta de trocar as homenagens querem passar a impressão de uma independência radical que nem de longe a história avaliza. Se levassem a sério tanta separação do Estado, deixariam de pedir empréstimos ao Banco do Brasil, até porque trata-se de instituição criada, tal como a Gazeta, pelas mãos de Dom João VI. Mas aí talvez resida a identificação dos contemporâneos com Hipólito da Costa e seu jornal: o Correio também escorou suas idéias nas pilastras do dinheiro público”.
“O biógrafo Mecenas Dourado conta a história no livro Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense. Com o duro título de ‘O suborno do Correio Brasiliense’, Dourado relata que tanto Dom João quanto Dom Pedro usavam o periódico para veicular intrigas políticas, fortalecer ou enfraquecer idéias dos auxiliares (cilada hoje conhecida como ‘fritura de ministros’) e subvencionaram o jornal direta ou indiretamente, seja com dinheiro, seja com assinaturas. Hipólito sempre livrou a cara de Dom João, que oficialmente proibia, mas, na verdade, tinha simpatia pelo Correio”.
“Segundo Mecenas, era ‘o próprio príncipe regente quem pagava o jornalista’. Foram dados um ‘adiantamento’ de 2 mil libras e um ‘ordenado’ de mil libras por ano de 1813 a 1821, quando Dom João regressou a Portugal. O acordo continuou no Império, com o secretário de Dom Pedro I, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, atuando como agente do periódico. Quando morreu, em 11 de setembro de 1823, Hipólito era cônsul-geral do Brasil em Londres. Como se vê, mudar o Dia da Imprensa de 10 de setembro para 1º de junho significa, apenas, trocar a homenagem a um jornal do governo pela homenagem a um jornal vendido ao governo”.