Antígona foi um belo exemplo de amor filial e fraternal. Ela era filha de Édipo e Jocasta, que com todos os seus descendentes foram vítimas de um destino que os condenou à destruição. Em seus acessos de loucura Édipo arrancara os olhos e fora expulso de seu reino, temido e abandonado por todos os homens como objeto da vingança dos deuses (na ilustração, óleo sobre tela Antigone, 1882, de Lord Frederick Leighton).
Sua filha compartilhou das peregrinações do pai e ficou com ele até sua morte, quando então regressou a Tebas. Seus irmãos Etéocles e Polinice haviam combinado dividir entre si o reino tebano que haviam herdado, e reinarem alternadamente, cada um durante um ano.
O primeiro período coube a Etéocles, que se negou a entregar o trono ao irmão quando o prazo ajustado terminou, e por isso Polinice fugiu para Argos, do rei Adrastos, que lhe deu a filha em casamento e o ajudou com um exército a sustentar sua pretensão ao trono. Isso acarretou a famosa expedição dos "Sete contra Tebas", que deu muito assunto aos poetas épicos e trágicos da Grécia.
Anfiarus, cunhado de Adrastos, opôs-se à empresa, pois era vidente e sabia, graças à sua arte, que nenhum dos chefes, com exceção do rei, voltaria vivo. Contudo, quando se casara com Erifila, irmã do soberano, concordara em entregar a ela a solução de qualquer divergência surgida entre ele e o cunhado. Sabendo disso, Polinice deu a Erifila o colar de Harmonia, esposa de Cadmo (que fora dado à mesma por Vulcano, ou Hefesto, como presente de casamento) e mãe de Polidoro, um antepassado de Édipo, conquistando-a, desse modo, para a sua causa. Erifila não pode resistir à tentação do suborno, e graças a essa sua decisão a guerra se tornou inevitável e Anfiarus condenado a um destino fatal.
Não seria possível descrever aqui todos os atos de heroísmo ou atrocidade que aconteceram no decorrer da luta, não se devendo omitir, porém, a fidelidade de Evadne, em contraste com a fraqueza de Erifila. O guerreiro Capaneu, marido da primeira, afirmou no ardor do combate que abriria caminho até a cidade, mesmo contra a vontade divina. Para tanto, encostou uma escada na muralha e subiu, mas Zeus (Júpiter), ofendido com suas palavras impetuosas, fulminou-o com um raio. Depois, quando seu funeral foi celebrado, Evadne atirou-se à pira e morreu abraçada ao esposo.
No começo da luta Etéocles consultou o adivinho Tirésias sobre o seu desenrolar. Quando ainda jovem este vira, por acaso, a deusa Atena (Minerva) se banhando, e por isso fora privado da visão pela divindade, que mais tarde, abrandado o seu furor, concedeu-lhe como compensação o conhecimento dos acontecimentos futuros. O vidente declarou que a vitória caberia a Tebas, se Menoceu, filho de Creone, se oferecesse como vítima voluntária. Ao saber disso o heróico jovem sacrificou a vida no primeiro encontro.
O sítio continuou com alternativas de vitórias e derrotas para os dois lados, até que os litigantes entraram em acordo e concordaram em decidir a disputa em um combate a ser travado entre os dois irmãos. Os dois lutaram e ambos morreram. Os exércitos então reiniciaram a luta e, afinal, os invasores foram obrigados a ceder e fugiram, deixando seus mortos insepultos. Creone, tio dos dois príncipes mortos, tornou-se rei e mandou enterrar Etéocles com todas as honras, mas deixou o corpo de Polinice onde caíra, proibindo, sob pena de morte, que alguém o enterrasse (na ilustração, pintura de Antígona com o morto Polinice, 1865, de Nikiforos Lytras).
Antígona, irmã de Polinice, ficou indignada ao tomar conhecimento da revoltante decisão que entregara o corpo do irmão aos cães e aos abutres, privando-o dos ritos que eram considerados essenciais ao repouso dos mortos. Sem se deixar abalar pelos conselhos de uma irmã afetuosa, mas tímida, resolveu desafiar a sorte e enterrar o corpo com suas próprias mãos. Foi presa enquanto fazia isso, e Creone deu ordem para que a enterrassem viva por haver desobedecido, deliberadamente, um edito solene da cidade. Seu amante Hermon, filho de Creone e incapaz de salvá-la, não lhe sobreviveu, suicidando-se.
Antígona é assunto de duas belas tragédias do poeta grego Sófocles. A seguinte passagem do poeta trágico ateniense refere-se às lamentações de Antígona quando a morte, afinal, livra Édipo de seus sofrimentos:
Como haveria de querer a vida?
O próprio sofrimento menos duro
Era ao seu lado. O que era insuportável.
Junto dele eu teria tolerado.
Oh, meu querido pai! Na sepultura
Como estás, e tão velho como estavas,
Quero-te ainda, e hei de querer-te sempre.
Fonte: Livro de Ouro da Mitologia, de Thomaz Bulkfinch.