CADA POVO TEM O GOVERNO QUE MERECE

Costuma-se dizer essa frase quando se quer falar mal do governo, atribuindo os problemas ao povo que o escolheu. Seu autor, o francês Joseph-Marie de Maistre (1753-1821), escritor, filósofo, diplomata e advogado, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias e do papa, foi um dos proponentes mais influentes do conservadorismo contra-revolucionário no período imediatamente seguinte à Revolução Francesa de 1789. No fundo, a expressão não critica os maus governos, mas sim aos responsáveis pela eleição de seus representantes. Por isso, cabe com perfeição aos regimes escolhidos por voto popular.

 

Para explicá-la, nada melhor que os versos de Affonso Romano de Sant'Anna (1937), mineiro de Belo Horizonte, sobre o qual já se disse que “Considera o livro ainda muito elitista, sofisticado, de acesso impossível às camadas mais pobres de nossa sociedade. Saber que seus poemas, como ‘A Implosão da Mentira’, ‘Que país é este?’ (traduzido para o espanhol, inglês, francês e alemão) e ‘Sobre a atual vergonha de ser brasileiro’, estavam sendo lidos nas casas, nas praias, nos clubes, transformados em poster e colocados nas paredes de escritórios e sindicatos, em muito o gratifica e o ensina que os poetas têm que re-achar o seu lugar existencial e estético dentro da sociedade”.

 

Ao publicar o seu Sobre a atual vergonha de ser brasileiro, o autor esclareceu que “Diante da pesquisa que aponta F.H. (presidente da República Fernando Henrique Cardoso) como o brasileiro que mais envergonha o país, o cronista se vê forçado a publicar um texto de 17 anos atrás, atualíssimo”. E ela é publicada aqui, à guisa de explicação para a frase-feita, porque continua sendo mais atual que nunca, talvez até bem mais do que no passado, numa confirmação desalentadora de que cada povo tem, realmente, o governo que merece.

 

Sobre a atual vergonha de ser brasileiro:

 

“Que vergonha, meu Deus! Ser brasileiro e estar crucificado num cruzeiro erguido num monte de corrupção. Antes nos matavam de porrada e choque nas celas da subversão. Agora nos matam de vergonha e fome, exibindo estatísticas na mão”.

 

“Estão zombando de mim. Não acredito. Debocham a viva voz e por escrito. É abrir jornal, lá vem desgosto. Cada notícia é um vídeo-tapa no rosto. Cada vez é mais difícil ser brasileiro. Cada vez é mais difícil ser cavalo desse Exu perverso, nesse desgoverno terreiro”.

 

“Nunca vi tamanho abuso. Estou confuso, obtuso, com a razão em parafuso:  a honestidade saiu de moda, a honra caiu de uso. De hora em hora a coisa piora: arruinado o passado, comprometido o presente, vai-se o futuro à penhora”.

 

“Valei-me Santo Cabral! Nessa calmaria em forma de recessão e na tempestade da fome, ensinai-me a navegação. Este é o país do diz e do desdiz, onde o dito é desmentido no mesmo instante em que é dito. Não há lingüista e erudito que apure o sentido inscrito nesse discurso invertido. Aqui o discurso se trunca: o sim é não. O não, talvez. O talvez, nunca”.

 

“Eis o sinal dos tempos: este o país produtor, que tanto mais produz, tanto mais é devedor. Um país exportador que quando mais exporta, mais importante se torna como país mau pagador. E, no entanto, há quem julgue que somos um bloco alegre do ‘Comigo Ninguém Pode’, quando somos um país de cornos mansos cuja história vai dar bode”.

 

“Dar bode, já que nunca deu bolo, tão prometido pros pobres em meio a festas e alarde, onde quem partiu, repartiu, ficou com a maior parte, deixando pobre o Brasil. Eis uma situação totalmente pervertida - uma nação que é rica consegue ficar falida, o ouro brota em nosso peito, mas mendigamos com a mão, uma nação encarcerada que doa a chave ao carcereiro, para ficar na prisão”.

 

“Cada povo tem o governo que merece? Ou cada povo tem os ladrões a que enriquece? Cada povo tem os ricos que o enobrecem? Ou cada povo tem os pulhas   que o empobrecem? O fato é que cada vez mais, mais se entristece esse povo num rosário de contas e promessas, num sobe e desce de prantos e preces”.

 

“C’est n’est pas um pays sérieux! (este não é um país sério), já dizia o general. O que somos afinal? Um país-pererê? Folclórico? Tropical? Misturando morte e carnaval? Um povo de degradados? Filhos de degredados largados no litoral? Um povo-macunaíma, sem caráter-nacional?”.

 

“Por que só nos contos de fada os pobres fracos vencem os ricos nobres? Por que os ricos dos países pobres são pobres perto dos ricos dos países ricos? Por que os pobres ricos dos países pobres não se aliam aos pobres dos países pobres para enfrentar os ricos dos países ricos, cada vez mais ricos, mesmo quando investem nos países pobres?”.

 

“Espelho, espelho meu! Há um país mais perdido que o meu? / Espelho, espelho meu! Há um governo mais omisso que o meu? Espelho, espelho meu! Há um povo mais passivo que o meu? E o espelho respondeu algo que se perdeu entre o inferno que padeço e o desencanto do céu”.

 

Texto extraído do jornal O Globo - Rio de Janeiro.