Na definição de Max Nunes, humorista, escritor, compositor e médico, gula é aquilo que nos faz olhar o bife menor e o bife maior, e comer os dois. Na voz do povo, guloso, o filho da gula, é o comilão, aquele que come e não percebe nem o cheiro nem o sabor do que colocou na boca, engolindo o alimento sem moderação (na ilustração, a gula mostrada por Hieronymus Bosch, óleo sobre madeira de 1475, no Museu do Prado, Madri, numa parte de The Seven Deadly Suns and the Four Last Thing).
Nos dicionários, a gula é descrita como o “excesso na comida ou na bebida”, e também como “o apego excessivo a boas iguarias”. Portanto, o indivíduo guloso, também conhecido como glutão ou esfaimado, é qualquer um que carregue consigo o desejo incontrolável pelos manjares de qualquer tipo, pelas coisas doces ou salgadas, e também pelas bebidas que despertem e ponham o seu paladar em estado de prontidão.
Por outro lado, a palavra gula, em seu sentido figurado, também pode ser aplicada aos ambiciosos, aos cobiçosos e aos ávidos por alguma coisa, seja ela qual for (como, por exemplo, em curiosidade gulosa, ou em leitores gulosos por novidades).
Foi o papa Gregório Magno (540-604) quem instituiu os sete pecados capitais (do latim capita, cabeça, o pecado que é a cabeça), aqueles que levam o ser humano a cometer outros pecados, a praticar outros vícios. Segundo a Bíblia, a gula é um deles, tendo a avareza, a inveja, a ira, a soberba, a luxúria e a preguiça como companheiras na tarefa de fazer o ser humano transgredir a lei religiosa ou os preceitos da Igreja. Sobre ela, a recomendação encontrada no livro sagrado dos cristãos (em Provérbios, 23:20/21), é a de que o homem não deve se juntar nem aos bebedores de vinho, nem tampouco àqueles que devoram carnes, porque tanto os beberrões como os comilões vivem com sono e acabam na pobreza, vestindo trapos.
O mesmo Livro, em 23:2, proclama: “põe uma faca em tua garganta, se sentes muito apetite”. Em Eclesiástico (37:32/34) o preceito é o de que nunca sejas guloso em algum banquete, evitando servir-se de tudo que lhe oferecem porque o excesso de alimento é causa de doença e cólica.
Em 1589, o alemão Peter Binsfeld, padre jesuíta, teólogo e demonologista envolvido nas caçadas que em seu tempo se faziam às bruxas, comparou cada um dos sete pecados capitais com um demônio. Nessa relação, a Gula é associada a Belzebu; a Luxúria, a Asmodeus; a Avareza, a Mammon; a Preguiça, a Belphefor; a Ira, a Satã; a Inveja, a Leviatã; e o Orgulho, a Lúcifer.
Existem, no entanto, outras definições para a gula, além das de caráter religioso. Sigmund Freud (1856-1939), por exemplo, criador da Psicanálise, concluiu que a vontade de comer e o desejo por sexo são controlados pelo mesmo comando cerebral, ou seja, o impulso nervoso que ativa a fome seria o mesmo que desperta a libido. Os médicos explicam que a gula é um distúrbio comportamental, uma falta de controle, e não uma doença. Na verdade, está ligada à satisfação oral, pois os indivíduos que a apresentam sentem prazer quando terminam de comer. Diante disso, definir a gula é fácil, mas classificá-la é que se torna difícil.
Quando a vontade de comer se torna exagerada, recebe da Psiquiatria o nome de Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica, distúrbio provocado geralmente por fatores como o estresse, a ansiedade e a depressão, que em seu quadro evolutivo podem transformar a alimentação compulsiva em obesidade mórbida, ou em bulimia nervosa. Na avaliação dos entendidos, a gula é um comportamento compulsivo derivado da insatisfação de alguém para consigo mesmo, mascarando a tentativa do próprio em encontrar remédio para seus sentimentos de frustração e ansiedade. O problema é que ela pode levar à obesidade, porta aberta para as doenças do coração.
Para muitos, a gula não é nenhum pecado, mas apenas uma demonstração de status. A revista Playboy, em sua edição de 08/12/2010, afirmou que “Os franceses são metidos a besta em quase tudo: filosofia, cinema, literatura e gastronomia. Mas eles podem. Afinal, a primeira-dama do país é a Carla Bruni. Se o seu país tivesse uma primeira-dama assim, você também seria metido”. E não se fazendo de rogada acrescentou ao texto algumas curiosidades gastronômicas de lá, entre elas as três seguintes:
- A gastronomia francesa se impôs ao mundo graças à musicalidade da língua. O francês, quando corretamente assoprado por uma boca em forma de biquinho, é capaz de provocar ereções até em quem prefere a gula à luxúria. Por exemplo: o misto de presunto e queijo que nós, brasileiros, chamamos de misto de presunto e queijo, na França se chama croque-monsieur. Très elegant! Mais chique, só o croque-madame, que é o mesmo misto de presunto e queijo, só que com um ovo em cima. Francês é um bicho esquisito. Tão esquisito que, lá, quem vem com ovos é madame.
- O foie gras (diga fuagrá) é o fígado gordo de pato ou ganso. Francês, em vez de afogar o ganso, como faz todo o mundo civilizado e, principalmente, o incivilizado, prefere sufocar o ganso com um montão de comida. Assim, o fígado gordo do bicho pode ser grelhado ou transformado em terrine, que é um patê metido a besta. A melhor maneira de comer foie gras é com figos, isto é, fígado com figo. É por isso que pobre não aprecia a iguaria: ele pronuncia tudo como figo e acaba se confundindo, arruma encrenca com o garçom e vai dormir na delegacia. Coisa triste.
- Pobre é uma desgraça em qualquer lugar. Mas pobre com fome é um perigo. Em 1789, uma sugestão gastronômica da rainha Maria Antonieta, mulher de Luís XVI, acabou apressando a Revolução Francesa. Quando a população se reunia na frente do palácio gritando “Pão! Pão! Queremos pão!”, a rainha respondeu: “Ora, não tem pão? Comam brioches!” Brioche é um pão mais fofo, parecido com o panetone, mas sem frutas secas. Maria Antonieta desejava apenas aprimorar o paladar das massas, mas foi mal interpretada, coitada. Os populares entenderam brioco (orifício anal), ficaram ofendidíssimos e guilhotinaram metade do país. Ô, raça!