BIQUÍNI

O atol de Biquíni fica situado na extremidade noroeste do arquipélago das ilhas Marshall, no Oceano Pacífico, e compreende cerca de vinte ilhotas. No dia 11 de março de 1946 os nativos daquelas redondezas foram transferidos para o atol de Rongeric pouco antes da primeira explosão atômica experimental realizada pelos norte-americanos, em lº de julho de 1946. A bomba fora regulada para explodir sobre a superfície do mar, e embora o centro da explosão estivesse situado a quinhentos metros do cruzador americano Nevada, este navio sofreu danos leves, enquanto cinco outros barcos (dois transportes, dois destróieres e mais um cruzador japonês) foram afundados, nove embarcações ficaram severamente danificadas, e pelo menos outros quarenta e cinco sofreram avarias leves. A segunda fase da Operação Encruzilhada ocorreu logo depois, em 25 de julho, sendo a bomba regulada para explodir dentro d’água. Ela caiu em meio a um grupo de setenta e cinco navios de guerra e doze barcos pequenos reunidos em uma área com oitenta quilômetros quadrados, ao largo de Biquíni. Dez vasos de guerra foram afundados e seis severamente danificados.

 

Nessa mesma época o engenheiro mecânico francês Louis Reard (1897-1984) havia herdado da mãe uma indústria de lingerie e se transformara em estilista. Pretendendo inovar em sua nova atividade ele desenhou um traje de banho feminino composto por uma peça de cima e outra de baixo, certo de que o novo modelo faria grande sucesso no desfile programado para o lançamento. Mas antes disso, Read precisava resolver dois problemas com que se defrontava: ainda não havia escolhido o nome a ser dado ao maiô de duas peças que criara, e tampouco conseguia encontrar modelos profissionais que se dispusessem a usá-lo. A primeira solução surgiu quando as duas bombas experimentais americanas explodiram: o fato despertou a atenção mundial e o estilista então embarcou como carona na projeção dada ao nome do atol, batizando as duas peças com o nome de biquíni. Em seguida ele procurou Michelini Bernardini, que fazia shows de nudez em um cassino de Paris, ofereceu-lhe a primazia da estréia, e acabou contratando-a como apresentadora da novidade (na ilustração abaixo, Micheline Bernardini dentro do primeiro biquíni, em 1946).

 

Cláudia Garcia, em Moda Praia, assegura que apesar de toda euforia em torno do novo traje de banho (descrito por um jornal da época como quatro triângulos de nada), ele não emplacou logo de cara. O primeiro modelo, todo em algodão com estamparia imitando a página de um jornal, era comportado até demais, se comparado aos de hoje, mas um verdadeiro escândalo para os padrões familiares daquele tempo. Tanto que modelo nenhuma quis participar da divulgação do pequeno traje, a não ser a corajosa stripper  Micheline Bernardini, a única a encarar o desafio.  Depois, na década de 50, as atrizes de cinema e as pin-ups americanas foram as maiores divulgadoras do biquíni. Em 1956, a francesa Brigitte Bardot imortalizou o traje no filme E Deus Criou a Mulher, ao usar um modelo xadrez adornado com babadinhos.

 

Analisando a nova moda de praia no Brasil, diz a jornalista que o biquíni começou a ser usado no final dos anos 50. Primeiro, pelas vedetes, como Carmem Verônica e Norma Tamar, que juntavam multidões nas areias em frente ao Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e, mais tarde, pela maioria decidida a aderir à sensualidade do mais brasileiro dos trajes. A partir daí, a história do biquíni viria se tornar parte da história das praias cariocas, verdadeiras passarelas de lançamentos da moda-praia nacional. Na década de 60, a imagem sensual da atriz Ursula Andress dentro de um poderoso biquíni, em cena do filme 007 contra o Satânico Dr. No (1962) entrou para a história da peça. Em 1964, o designer norte-americano Rudi Gernreich dispensou a parte de cima do traje e fez surgir o topless, numa ousadia ainda maior. No Brasil, essa moda não fez tanto sucesso quanto em algumas praias da Europa, mas mesmo assim o então prefeito de São Paulo, Prestes Maia, chegou a proibir o uso do topless em piscinas públicas.

 

Um modelo muito usado nos anos 60 era o chamado engana-mamãe, que de frente parecia um maiô, com uma espécie de tira no meio ligando as duas partes, e, por trás, um perfeito biquíni. Mas foi no início dos 70, que um novo modelo de biquíni brasileiro, ainda menor, surgiu para mudar o cenário e conquistar o mundo - a famosa tanga. Nessa época, a então modelo Rose di Primo era a musa da tanga das praias cariocas. Durante os anos 80 surgiram outros modelos, como o provocante enroladinho, o asa-delta, o de lacinho nas laterais, além do sutiã cortininha. E quando o biquíni já não podia ser menor, surgiu o imbatível fio-dental, ainda o preferido entre as mais jovens. A musa das praias cariocas dos 80 foi sem dúvida a então modelo Monique Evans, sempre com minúsculos biquínis e também adepta do topless.

 

Nos anos 90, um verdadeiro arsenal, entre roupas e acessórios, passou a fazer parte dos trajes de banho, como a saída de praia, as sacolas coloridas, os chinelos, óculos, chapéus, cangas e toalhas. Os modelos se multiplicaram e a evolução tecnológica possibilitou o surgimento de tecidos cada vez mais resistentes e apropriados ao banho de mar e de piscina. Toda essa intimidade brasileira com a praia, explicada pelo clima do país (em alguns estados brasileiros é verão durante a maior parte do ano) e pela extensão do litoral (com mais de 7 mil km de praias), podem explicar o motivo pelo qual o Brasil é o país lançador mundial de tendências desse segmento.