O bode procurava um lugar para fazer sua casa. E quando o encontrou, limpou o terreno com cuidado e em seguida foi cuidar de outras coisas. Pouco tempo depois a onça apareceu por lá, e ao ver aquele pedaço de chão limpinho encantou-se tanto com ele que também resolveu que era para ali que iria mudar-se. E passando do pensamento à ação, buscou no mato a madeira que precisava, empilhou-a em um canto e foi embora para cuidar da mudança.
Retornando ao local e encontrando a madeira separada pela onça, o bode não pensou duas vezes: tratou de erguer a casinha que desejava. Feito o serviço, foi buscar seus pertences. Nesse meio tempo a onça voltou, e ao ver o abrigo quase pronto apressou-se em cobrir as paredes com barro, para proteger-se dos ventos e do frio. E foi buscar o que era seu.
Ao chegar com o que tinha ela encontrou o bode já instalado na nova residência, e por isso exigiu uma explicação. Depois de muito discutirem os dois concluíram que eram responsáveis pela construção da casa, o que só lhes deixava uma solução para o problema: a de morarem juntos. E foi o que fizeram, combinando, inclusive, que a cada dia a busca pela comida seria responsabilidade de um deles.
Apesar desse acordo a desconfiança entre os dois foi aumentando. O que era previsível. Passados poucos dias a onça foi a primeira a agir: trouxe um cabrito para a janta. Assustado, e imaginando que seria o próximo a estar naquela situação, o bode quase não dormiu naquela noite. Mal o dia amanheceu ele saiu andando sem rumo pela floresta, pensando no que fazer, até que a certa altura da caminhada encontrou uma onça morta, abatida por caçadores. Foi então que lhe veio a idéia.
Ele arrastou para casa o corpo da felina sem vida. Ao ver o que o bode trazia, sua companheira de morada apavorou-se. E perguntou com voz tremida:
- Como você conseguiu caçar essa onça?
- Ora, fiz o que precisava ser feito - respondeu o bode.
- Mas como? Você é muito mais fraco que ela.
- Minha valença é esse anel mágico que minha mãe me deixou - explicou o bode. – Ele é tão poderoso que bastou apontá-lo na direção desta sua parenta para ela cair morta, na hora.
Preocupada com o que acabara de ouvir, a onça logo pensou em livrar-se do bode, e para sempre. Mas quando este a viu movendo-se furtivamente, de pelo arrepiado e unhas à mostra, disse-lhe num repente:
- Quer ver como ele funciona?
E começou a erguer a pata com o anel. Ao vê-lo fazer isso a onça mais que depressa pulou para fora da casa, mas como o bode a acompanhou, ela fugiu para a mata, acompanhada pelos avisos ameaçadores de "Olha o anel!", "Olha o anel!".
E não apareceu nunca mais, deixando o bode sossegado e tranqüilo naquele trecho da floresta.
Moral da história: O medo derrota mais pessoas que qualquer outra coisa no mundo. Por isso, livre-se dele.