MARABAIXO

Passando de geração em geração ao longo de dezenas de anos, o Marabaixo, principal evento folclórico amapaense, foi definido como um ritual composto por várias festas católicas populares em oito comunidades negras da área metropolitana de Macapá e Santana. Segundo consta, seus introdutores foram famílias negras trazidas em 1764 do norte da África para Mazagão, a fim de trabalharem na construção da Fortaleza de São José de Macapá, às quais se juntaram os escravos oriundos do Pará, do Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Maranhão.

 

No entender de pesquisadores, o Marabaixo traduzia a revolta dos subjugados: “Seu ritmo vem da cadência dos remos das caravelas negreiras que conduziam mar a baixo os negros africanos, condenados ao trabalho servil nos tempos da escravatura, trazendo a nostalgia da terra distante e o tom místico das crendices populares”.

 

Transmitida por esses escravos aos seus descendentes, o ritual, segundo descrição publicada em site do Governo do Estado do Amapá, é dançado em alguns bairros de Macapá (Lagoinha, Favela e comunidade de Curiaú). Ele começa (veja calendário abaixo) no Sábado de Aleluia, com a dança dos devotos ao som do tradicional batuque, e continua até o Domingo do Espírito Santo, também chamado de Marabaixo do Senhor do Quinto Domingo. Após o Sábado da Aleluia, os negros do Curiaú cortam um mastro de macumbeira ou de anauazeira, e na primeira quinta-feira após o Marabaixo do Quinto Domingo, homens, mulheres e crianças vão apanhar a murta, dançando e cantando.

 

Um pequeno mastro com uma bandeira vermelha é conduzido pela cidade, à frente da bandeira do Divino Espírito Santo. Tempos atrás, os foliões do Marabaixo entravam dançando na Igreja de São José de Macapá, e alguns rapazes subiam até a torre para tocar o sino, festivamente. Os homens vestiam calça branca e camisa da mesma cor, com bordados, chapéu de palha enfeitado com fitas, e sandálias de couro, enquanto as mulheres, também calçadas com sandálias de couro, desfilavam com camisa de renda, saia estampada e rendada, anáguas e arranjos de flores naturais na cabeça.

 

A missa e novenas eram fundamentais no ritual. Hasteavam-se as bandeiras da Santíssima Trindade, do Divino Espírito Santo e do Espírito Santo, em frente à Igreja de Macapá e todos dançavam guiados pelo mantenedor (cantador) Ladislau, ou por mestre Julião Ramos. As mulheres cantavam como solistas ou coristas, sendo que algumas o exaltavam várias vezes (em rimas e versos denominados de versos ladrões). Homens, rapazes e crianças se empenhavam em luta corporal, na tradicional capoeira.

 

As principais datas do Marabaixo são:

 

DOMINGO DA PÁSCOA - O dia começa com uma missa na Igreja de São Benedito, no bairro do Laguinho. Dança-se o Marabaixo pela manhã e à tarde, na casa do festeiro.

 

CORTAÇÃO DO MASTRO – No sábado, 5 semanas após a Páscoa, é feita a Cortação dos Mastros, que são deixados nas proximidades da casa do festeiro, como preparação para o dia seguinte.

 

DOMINGO DO MASTRO - Os participantes, com as bandeiras do Divino e da Santíssima, caminham dançando, cantando e soltando foguetes, até onde estão os mastros, e os levam para casa do festeiro, que os guardará.

 

QUARTA-FEIRA DA MURTA - Na tarde da primeira quarta-feira após o Domingo do Mastro, os participantes vão quebrar a murta nas cercanias da cidade, dançando, cantando e soltando foguetes, levando a bandeira vermelha do Espírito Santo. Voltam pelo mesmo itinerário, guardando a murta para enfeitar o mastro no outro dia.

 

QUINTA-FEIRA DA HORA - Pela manhã, depois de enfeitado o mastro do Divino com os galhos da murta e colocada a bandeira em sua extremidade, há a Levantação do mastro, seguida de danças até a tarde. Ladainhas são rezadas durante 18 dias na casa do festeiro, em homenagem ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade, diante de um altar ornado com fitas, velas e coroas de prata do Espírito Santo. À noite, depois da ladainha, é realizada uma festa para os participantes e convidados.

 

SÁBADO DO ESPIRITO SANTO - Nove dias após a quinta-feira da Hora é realizada uma festa dançante, à noite, para participantes e convidados.

 

DOMINGO DO ESPIRITO SANTO - Há missa pela manhã na Igreja do bairro. A tarde há a quebra da murta. Os participantes saem pelas ruas dançando, cantando e soltando foguetes, acompanhando a bandeira branca da Santíssima Trindade. À noite rezam a última ladainha em louvor à Santíssima, seguindo-se a realização do baile que só termina na segunda-feira do mastro.

 

SÁBADO DA TRINDADE - Festa dançante para participantes e convidados.

 

DOMINGO DA TRINDADE - Dança-se o Marabaixo nesse domingo e as ladainhas continuam durante mais uma semana.

 

SEGUNDA-FEIRA DO MASTRO - A partir das seis horas cavam um buraco em frente da casa, enfeitam o segundo mastro de murta, este da Santíssima, e fazem a Levantação ao lado do mastro do Divino. Após levantado o mastro o Marabaixo é dançado até às 12 horas, só sendo reiniciado no Domingo do Senhor.

 

DOMINGO DO SENHOR - Este é o último dia do ciclo anual do Marabaixo. Os participantes dançam até às 18:00hs, quando param para fazer a Derrubada do Mastro (os dois) e em seguida recomeçam a dança, até tarde da noite.