Oligarquia é o governo de poucos, ou seja, um sistema político em que o poder está nas mãos de um pequeno número de pessoas ligadas entre si por vínculos familiares, militares, de nobreza, riqueza e outros mais. O interior brasileiro, no início do século passado, era dominado por elas, e a região do Cariri, no Ceará, não constituía uma exceção a essa regra.
No início de 1912, a Política de Salvações implantada pelo presidente Hermes da Fonseca sob o argumento de que com ela seria possível “moralizar os costumes e reduzir as desigualdades sociais”, foi acompanhada pela nomeação de interventores militares - ou apoiados pelo Exército - em substituição às oligarquias dominantes. Mas em algumas regiões surgiram movimentos de resistência a essa imposição governamental, como a do Ceará, por exemplo, onde na região do Cariri o padre Cícero Romão Batista e seus aliados impediram as ações oficiais e colocaram o povo contra as autoridades (na ilustração, Padre Cícero e Floro Rabelo).
Antônio Pinto Nogueira Accioly (1840-1921), influente político do Ceará durante a República Velha, reelegera-se como presidente de seu estado para o período 1908/1912. Apelidado de Babaquara (expressão popular que significa indivíduo atoleimado, tolo, apalermado), Nogueira Accioly enfrentou diversos movimentos que visavam sua derrubada. Em uma delas - a Passeata das Crianças pelas ruas de Fortaleza - várias pessoas foram mortas pela repressão policial, o que acabou provocando sua renúncia ao cargo que ocupava. Em conseqüência, o militar e político Marcos Franco Rabelo (1851-1940) foi nomeado interventor no Ceará em 14/07/1912, direcionando suas ações no sentido de enfraquecer as lideranças regionais do estado, entre elas a do Padre Cícero, então intendente (prefeito) de Juazeiro do Norte.
Antigamente, Juazeiro do Norte era a Vila Tabuleiro Grande, pertencente ao município de Crato. Emancipada em 22/11/1911, passou a se chamar Joaseiro (somente em 30/12/1943 o nome atual foi adotado). Relatos históricos revelam que essa desvinculação foi conseqüência da atividade religiosa do Padre Cícero, que após ter ficado famoso devido ao suposto milagre da Beata Maria de Araújo (cuja hóstia teria se transformado em sangue), conquistou uma imensa massa de sertanejos pobres e religiosos. Muitos deles levaram seus familiares para Juazeiro, de modo que em pouco tempo o local passou a abrigar milhares de moradores. Como não tinha o apoio da alta hierarquia católica, Padre Cícero procurou evitar que Juazeiro tivesse o mesmo fim trágico de Canudos e aliou-se ao poder político dos coronéis, posicionando-se ao lado da oligarquia de Nogueira Accioli. Embora mantendo a proximidade com o povo, o padre já era conhecido no sertão nordestino como homem santo e fazedor de milagres, embora para alguns ele tivesse se tornado um coronel de batinas.
Determinado a executar o que planejara, Franco Rabelo depôs o Padre Cícero do cargo de prefeito e ordenou sua prisão, enviando soldados para o cumprimento dessa ordem. Mas ao saber da notícia, Floro Bartolomeu da Costa (1876-1926), médico, deputado federal e aliado do influente senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado, agiu imediatamente em defesa do sacerdote, de quem era amigo incondicional: formou um batalhão com jagunços e romeiros (ilustração) que em uma semana protegeram a cidade com um valado de quinze quilômetros, erguendo, ainda, na colina do Horto uma muralha de pedra que recebeu o nome de Círculo da Mãe de Deus.
Ao chegarem à cidade e perceberem o que havia sido feito por seus defensores, os soldados de Franco Rabelo concluíram que não conseguiriam romper o círculo, e por isso recuaram para pedir reforços. Mais homens foram então deslocados para Juazeiro, levando com eles um canhão com que pretendiam derrubar a muralha protetora da cidade. Mas este falhou, e os romeiros e jagunços armados com algumas espingardas, facas, foices e muita fé, venceram os invasores e dirigiram-se em seguida para Fortaleza pretendendo derrubar o governador. Nesse meio tempo, Floro Bartolomeu conseguira no Rio de Janeiro o apoio do senador Pinheiro Machado, e por isso, quando os revoltosos chegaram à capital cearense, encontraram navios de guerra da Marinha impondo um bloqueio marítimo à orla fortalezense. Cercado por mar e terra, Franco Rabelo não teve como resistir: entregou-se e foi deposto pelas autoridades federais. Vitoriosos, os romeiros retornaram a Juazeiro, desocupando as cidades que haviam tomado durante a sedição. Para assumir o governo cearense Hermes da Fonseca nomeou interinamente o militar gaúcho Fernando Setembrino de Carvalho (1861-1947), substituído poucos meses depois por Benjamim Liberato Barroso (1859-1933), cearense de Quixeramobim e também militar, eleito em votação popular e tendo o Padre Cícero como seu vice.
A Guerra que tomou conta do Ceará entre dezembro de 1913 e março do ano seguinte, refletiu a situação da política interna do país, caracterizada pela disputa das oligarquias pelo poder.