Nas hortas e jardins do Brasil, a espécie mais comum desse molusco terrestre é a Helix similaris, um inimigo terrível do agricultor porque se alimenta exclusivamente de vegetais, causando sérios estragos nas plantações. Como quase todas as plantas, venenosas ou não, lhes servem de refeição, pode provocar acidentes prejudiciais, sobretudo quando mancha com sua baba frutos como os morangos, por exemplo, que muitas vezes são comidos sem o prévio cuidado de serem lavados em água pura.
O caracol, que tem concha relativamente fina e quase sempre escura, embora em algumas variedades elas sejam mais claras e até de uma só cor, não deve ser confundido com o caramujo (de concha mais grossa e de ambiente aquático). Ele mede entre 28 e 35 milímetros e pesa em torno de 8 a 12 gramas. Suas estrias (sulcos, riscas, traços) de crescimento são pouco visíveis e as faixas espirais bem escuras e destacadas na variedade padrão. É à noite, principalmente, que ele sai à procura de alimento, e apesar de se locomover de arrasto, percorre uma longa extensão em pouco tempo. Por isso o agricultor pode ser surpreendido por sua invasão em plantações onde no dia anterior não havia o menor vestígio dele.
Mas é fácil conhecer, de manhã, o caminho seguido por este insaciável devorador de vegetais, em virtude da substância viscosa que ele segrega ao andar e que vai deixando cair; esta substância, quando seca, se torna consistente e brilhante. Seguindo-a, vai-se ao lugar onde ele se esconde durante o dia, sendo fácil, então, encontrá-lo e matá-lo. No tempo frio o caracol se esconde nas cavidades das árvores, nas fendas dos muros, sob as pedras, etc., onde fica como que entorpecido
O caracol é hermafrodita, ou seja, tem órgãos masculinos e femininos, mas para que haja a fecundação de um deles é preciso que ocorra o acasalamento. Este dura 10 horas, em média, podendo ser repetido várias vezes. A desova acontece após intervalo de 15 dias, mais ou menos, e nesse momento o caracol cava na terra um buraco com 3 ou 4 centímetros de profundidade, depositando nele, ao longo de várias horas, de 60 a 150 ovos com 4 mm de diâmetro, que são cobertos com terra. Inicia-se, então, a fase de incubação, cujo período varia de 14 a 30 dias, de acordo com a temperatura, até a eclosão dos ovos. O caracol já nasce com uma casca de 3 milímetros e peso médio de 27 miligramas, permanecendo no seu ninho durante alguns dias, alimentando-se dos resíduos orgânicos e restos dos ovos. A postura do caracol é feita duas ou três vezes a cada ano, donde se conclui que se sua proliferação não for devidamente combatida, não haverá planta de jardim, de horta ou de lavoura que possa resistir a esses devoradores constantemente esfaimados.
O habitat preferencial dos caracóis são as áreas úmidas com muita vegetação, e as hortas, encontrando nesses ambientes predadores naturais como os ratos e lagartixas, sapos, aves, alguns insetos e ácaros. Sensíveis quanto à temperatura ambiental (a ideal para eles varia entre os 16 e 24 graus centígrados), eles controlam sua atividade de conformidade com ela, hibernando nas épocas em que os termômetros chegam aos 5°C, e morrendo quando eles descem abaixo do 0°C. Na boca possuem uma espécie de língua denominada rádula, semelhante a uma fita membranosa móvel com numerosos dentes quitinosos (a mesma substância de que é feita a sua carapaça), que constitui o seu aparelho mastigador.
Uma das variedades dos caracóis é a Petit Gris, mais conhecida como escargot (ilustração), muito apreciado para fins culinários porque tem carne saborosa e rica em proteínas, segundo os especialistas. Por isso é a espécie mais criada em cativeiro. No Brasil, a helicicultura, ou criação de escargots, é ainda uma atividade econômica recente e pouco difundida, mas mesmo se tratando de uma prática que muitos consideram incomum, já conta com grandes criadores espalhados pelo país, obtendo uma produção abundante e de alta qualidade. O escargot recebe esta denominação francesa porque a França é o maior centro consumidor destes animais.
Na literatura especializada encontra-se a informação de que o escargot vem sendo recomendado desde a antiguidade como remédio para vários tipos de males. Dizem esses relatos que “Crendices ou não, é certo que os aminoácidos contidos nas proteínas das carnes do escargot, contribuem para a reconstituição da integridade dos tecidos gástricos e, portanto, para a cura da úlcera. Por ser um alimento rico em cálcio e ácidos graxos, polissaturados, a alimentação com escargot é recomendada nos casos de raquitismo e no combate ao colesterol. Em razão ao alto teor de sais minerais e ferro, são úteis durante a gravidez e amamentação. Pobre em lipídios, podem ser consumidos por aqueles que sofrem do fígado, arteriosclerose e obesidade. Na França e Alemanha são base de preparação de cosméticos e também são usados como artesanato em arranjos com conchas”.