MORÉIA

A moréia é um peixe ósseo de corpo longo e cilíndrico, comum nas costas do Mediterrâneo e encontrado em todos os mares, inclusive ao longo do litoral brasileiro. Dela existem cerca de 200 espécies (como a pintada, verde, amarela, de areia, dourada, banana, etc.), das quais a maior mede até 3 metros de comprimento. Animal carnívoro, a moréia tem como habitat as áreas com fundos de pedras ou frestas em recifes de corais, nelas permanecendo entocada durante o dia, só saindo à noite para caçar os polvos, crustáceos e peixes de que se alimenta.

 

Uma de suas características é a ausência de nadadeiras peitorais e ventrais (também lhe faltando praticamente a anal, pois a dorsal se une a ela), o que a torna parecida com uma serpente. Desprovida de escamas, mas revestida de um muco protetor que cobre todo o seu corpo robusto, a moréia mais comum tem dorso com coloração variando do bege ao amarelo-claro com manchas arredondadas marrom-escuro ou mesmo negras espalhadas por toda a extensão do corpo, e ventre esbranquiçado. Ela possui boca grande e mandíbulas poderosas dotadas de  dentes finos e fortes. Seu focinho aguçado expressa a voracidade e agressividade que lhe marcam o comportamento, enquanto o corpo alongado e quase cilíndrico permite que seja uma nadadora exímia, deslocando-se com movimentos ondulatórios assemelhados aos dos ofídios.

 

Os índios tupinambás que habitavam o litoral baiano chamavam-na de Caramuru, o mesmo nome com que - por volta de 1510 - batizaram Diogo Álvares Corrêa, náufrago português que viria a ser tornar personagem de relativa importância na história do Brasil. Essa denominação (Caramuru), bem como o de Cobra d’Água, continua sendo usado até hoje por leigos de algumas regiões do país para nomear as moréias, embora elas não sejam cobras marinhas, mas peixes de bom tamanho, de família numerosa e com grande diversidade de cores, mas que apesar disso não despertam maior atenção e interesse para a pesca esportiva, apesar do bom tamanho e peso de determinadas espécies, e da carne saborosa que possuem.

 

Embora habitem normalmente as regiões costeiras de águas rasas, as moréias também podem ser encontradas em profundidades maiores, de até 40 metros. Os mergulhadores amadores e profissionais as conhecem bem e por isso sabem que elas raramente oferecem perigo ao homem, precisando ser provocadas para morder a quem delas se aproximar. Geralmente solitárias, passam o dia em suas tocas, vigiando as redondezas, costumando reagir com violência diante da aproximação de outros indivíduos. Nesses momentos a moréia abre a boca ameaçadoramente, como se estivesse desejando mostrar seus dentes afiados para desencorajar o intruso, chegando até mesmo a atacá-lo com fortes mordidas caso ele persista nessa sua aproximação.

 

A maior das moréias brasileiras é a que tem o nome de verde devido à sua coloração (ilustração abaixo), um peixe que ocorre em todo o litoral brasileiro. Ele tem até 2,5 metros de comprimento, 15 quilos de peso, e respira abrindo e fechando a boca, forçando dessa forma a passagem da água para as brânquias, mas dando com isso a impressão de querer morder.

 

Outra variedade é a moréia dourada, também encontrada em todo o litoral brasileiro, sempre em recifes de coral e contornos de costa rochosos, em profundidades de até 60 metros. Sua coloração é marrom escuro com numerosos pontos amarelos, menores na cabeça e maiores na região próxima à cauda onde eles são irregulares e confluentes.

 

Já a moréia pintada, cujo corpo apresenta manchas e pintas marrom-escuras ou mesmo negras, com o dorso freqüentemente amarelo e ventre esbranquiçado, é muito perigosa se manuseada viva sem o devido cuidado. Além de sua mordida provocar grandes lacerações e hemorragia, a ferida resultante desse ataque normalmente infecciona devido à enorme quantidade de bactérias existentes no material não digerido que permanece entre seus dentes.

 

A carne da moréia foi muito apreciada na antiguidade. Relatos pouco divulgados a esse respeito dizem que na Roma antiga um cidadão de nome Hírio, cuja biografia se perdeu no tempo, idealizou, naquela cidade, viveiros para esse tipo de peixe, justamente para atender aos que pretendessem saborear sua carne. Também dizem que, naquele tempo, acreditava-se que esse peixe se tornaria ainda mais saboroso caso fosse alimentado com carne humana. Talvez por isso a existência de uma outra referência nesse sentido, inserida em texto explicativo sobre a palavra moréia, publicado por determinada enciclopédia, alude ao fato de que um outro cidadão romano, de nome Pólio, chegava a alimentar as moréias de seu viveiro com escravos que tivessem cometido alguma falta.