RIO TIETÊ

O Rio Tietê nasce no município de Salesópolis, na região metropolitana da capital paulista, distando apenas 22km do litoral. Mas a Serra do Mar não lhe permite chegar até ela, e por isso suas águas são direcionadas rumo ao interior, primeiro no sentido sudeste, e depois noroeste, até chegar ao Rio Paraná (município de Itapura), na divisa com o Mato Grosso do Sul, após percorrer 1.136km. Em sua jornada ele banha 62 municípios localizados em uma das regiões mais ricas do hemisfério sul.

 

O Tietê teve grande importância histórica, sendo durante muito tempo o caminho dos bandeirantes que partiam em busca de ouro, índios e novas terras. Rico em lendas e tradições, ele motiva muitos estudos e contos regionais. Em O Rio Tietê e sua História, consta que “Algumas das mais remotas manifestações do folclore paulista tomaram forma na área do antigo povoamento do Tietê. De lá vem histórias de mães d'água encantadas que levantavam grandes ondas e atraíam os navegantes ao fundo do rio; de cobras gigantescas, como a sucuri que, morta por um índio, tornou-se o Salto de Avanhandava; de almas penadas de sertanistas sumidos em redemoinhos ou mortos por doença, flechados por índios, estraçalhados por onças ou picados de urubu, que nas noites de bruma subiam e desciam o rio em embarcações misteriosas; de religiosos, como o Padre Anchieta, que teria sido resgatado seco e rezando sentado sobre uma pedra do fundo do rio, depois de ter afundado quando virou a canoa em que viajava”.

 

Suas nascentes ficam no Parque Nascentes do Rio Tietê, brotando suas águas entre rochas que ladeiam um minúsculo lago povoado por pequenos peixes. Com 134 hectares, o parque esteve Inicialmente nas mãos de particulares, época em que sua flora original foi destruída. Mas após ser tombado pelo Estado, essa área foi recuperada, apresentando agora uma floresta secundária. Em seu trajeto inicial o rio recebe a contribuição de vários lençóis freáticos, mostrando bom volume de água nesse trecho. Ao cruzar a região metropolitana da capital paulista ele é margeado por duas vias que compõem o principal sistema viário da cidade, as marginais Tietê e Pinheiros.

 

Nele foram erguidas barragens que visam o aproveitamento do seu potencial hidroelétrico. Entre elas a da Usina Parque de Salesópolis, em Salesópolis; a Edgard de Souza, em Santana do Parnaíba; a de Pirapora do Bom Jesus, na cidade do mesmo nome; a do Rasgão, em Pirapora do Bom Jesus; a Laras, próxima a Laranjal Paulista; a de Anhembi, próxima à cidade de Anhembi; a de Barra Bonita, próxima à cidade do mesmo nome; a Barragem Bariri, próxima a esta cidade;  a Barragem Ibitinga; entre Borborema e Iacanga; a Usina Hidroelétrica Mário Lopes Leão, próxima às cidades de Promissão e Avanhandava; e a Três Irmãos, que permitiu o aproveitamento de parte da água do Rio Tietê na usina da Ilha Solteira, através do desvio pelo canal Pereira Barreto, que interliga os lagos das duas barragens.

 

Em algumas delas foram implantados serviços de eclusas que viabilizam a manutenção da navegação fluvial, permitindo que barcaças façam o transporte dos produtos da região a um custo menor que o do transporte rodoviário. Pela hidrovia Tietê-Paraná a navegação é feita até Itaipu, atingindo 2.400km de via navegável. Por ela já são movimentados mais de um milhão de toneladas de grãos, mas se forem consideradas as cargas de pequena distância, como areia, cascalho, e cana de açúcar, essa movimentação, segundo o DNIT, aproxima-se de 2 milhões de toneladas.

 

Embora seja um rio economicamente importante, o Tietê ficou conhecido pelos seus problemas ambientais, especialmente no trecho em que banha a capital paulista. Essa degradação surgiu na década de 1920, com a construção da represa de Guarapiranga para posterior geração de energia elétrica, intervenção que alterou o regime de águas do rio na capital e foi acompanhada de alguns trabalhos que deixaram seu leito menos sinuoso em determinados trechos. Mesmo assim ele ainda era utilizado para pesca e atividades desportivas, mas entre 1940 e 1980 o processo de industrialização e desordenada expansão urbana originou sua degradação por poluição industrial e esgotos domésticos, no trecho da Grande São Paulo. O que foi agravado pelo aumento populacional no município. Essa degradação afetou o Tamanduateí e Aricanduva, seus principais afluentes, principalmente o primeiro, que trazia da região do ABC os esgotos industriais das grandes fábricas lá instaladas. A falta de vontade política dos governantes aliada à pouca consciência e educação ambiental da população, além da crescente demanda, acabaram por levar a degradação do rio a níveis intoleráveis, em 1980 (na ilustração, eclusa de Barra Bonita).

 

As inundações provocadas por enchentes do Rio Tietê e afluentes também constituem um outro problema ambiental decorrente da impermeabilização do solo na Grande São Paulo. Construções, asfalto, passeios e pátios cimentados passaram a impedir que a água da chuva penetrasse no solo que a reteria, fazendo com que grande parte dessa precipitação corresse para as galerias de águas pluviais e dali para os córregos, sendo então despejada no Tietê. Como ele não tem condição de absorvê-la, devido ao grande volume, ocorrem as enchentes e inundações, causando prejuízos aos moradores das circunvizinhanças e trazendo perigo à saúde dos que por ela são afetados.

 

Diante da pressão popular o governador de São Paulo eleito em 1990 ordenou que a Sabesp, empresa de saneamento básico do estado, viabilizasse um programa de despoluição do rio. Foi elaborado, então, o Projeto Tietê, que além de atuação direta nas áreas de saneamento básico, previa o controle da poluição industrial e dos resíduos sólidos, a abertura e urbanização dos fundos de vale e o incremento da educação ambiental. Com início em 1992, buscou metas ambiciosas: estender o serviço de coleta de esgotos a mais de 250 mil famílias, ampliando o percentual de população urbana, atendida nos municípios tratados pela Sabesp, de 63% naquele ano, para 83% em 1999. Contudo, caminhou vagarosamente até 1994. A expectativa não satisfeita de aproveitar o rio para lazer em menos de cinco anos desmereceu o Projeto perante a população. Ninguém enfatizara que o sucesso do Programa de Despoluição do Rio Tâmisa, na Inglaterra, por exemplo, começou a ser buscado em 1895 e apresentou os primeiros resultados apenas a partir de 1930. Alcançou os objetivos no final da década de 70, quase 100 anos após o início da implantação. Pode-se dizer outro tanto do Sena, na França, que voltou a ter vida somente após décadas de luta