A cagaita (Eugenia dysenterica) é uma fruta típica do Cerrado, produzida pela cagaiteira, uma árvore frutífera pertencente à família Myrtaceae. É freqüente em áreas com temperaturas médias anuais variando entre 21 e 25ºC e altitudes de 380 a 1.100m. Sua distribuição é bastante ampla, sendo mais comum nos estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia. Aparece com alta freqüência em algumas regiões, formando consideráveis grupamentos. Constitui-se em uma árvore de porte médio, densa copa, possuindo de 4 a 10 m de altura, tronco tortuoso e cilíndrico, com 20 a 40 cm de diâmetro e uma casca com aspecto de cortiça bem característica.
No Cerrado, o florescimento da cagaiteira dá-se de agosto a setembro, geralmente sincronizado com o início das primeiras chuvas ou até mesmo antes delas, não durando mais que uma semana. No espaço de um mês ocorre o florescimento, produção de nova folhagem e frutificação. As abelhas constituem-se em seus polinizadores preferenciais. O fruto da cagaiteira é uma baga globosa-achatada, amarelo-pálida, contendo de 1 a 3 sementes brancas, envoltas em uma polpa levemente ácida. Possui um grande potencial produtivo e pouca alternância de produção, podendo-se encontrar muitas árvores com mais de 1.500 frutos na mesma safra. O peso destes varia de 2,0 g a mais de 30 g, com maior concentração entre 6,0 e 14 g, e seu diâmetro, de 2,0 cm a 3,0 cm.
A cagaita é considerada uma espécie de interesse econômico, principalmente por seu aproveitamento na culinária. Além do consumo in natura, são inúmeras as receitas de doces e bebidas que levam o sabor de sua polpa. Esse aproveitamento é bastante difundido entre os habitantes do Cerrado, podendo ser encontrados inúmeros pratos típicos da região confeccionados com essa fruta: doces, geléias, licores, refrescos, sorvetes e sucos. Seus frutos, porém, quando consumidos em excesso ou quentes, podem causar diarréia e embriaguez. Ainda imaturos podem ser utilizados como forragem para o gado. De sua polpa também são obtidos vinagre e álcool. A madeira do caule da cagaiteira é pesada, com densidade de 0,82 g/cm², dura e de textura fina, mas de baixa qualidade, podendo ser usada como mourão, lenha e carvão. A casca, além de servir à indústria de curtume, é utilizada na medicina popular como antidiarréica, para problemas do coração e também no tratamento de diabetes e icterícia. Suas folhas consituem-se em um excelente pasto arbóreo, convenientemente aproveitado em algumas regiões. Foi verificada alta atividade antifúngica no óleo hidrolisado de folhas de cagaiteira no controle de Cryptococcus neoformans (levedura encapsulada causadora de meningoencefalite).
Estudos da composição nutricional de diversas frutas nativas do Cerrado verificaram que a cagaita possui um elevado teor de água (95,01%), sendo uma das frutas que apresentam maior percentagem de ácidos graxos poliinsaturados (linoléico e linolênico), ficando atrás apenas da amêndoa do baru e da polpa da mangaba. Possui maior teor de ácido linoléico (10,5%) que o azeite de oliva e de dendê. Quanto ao teor de ácido linolênico (11,86%), supera o do óleo de milho, girassol, amendoim, soja, oliva e dendê. Os teores de vitamina C da cagaita (18,28 mg/100 g) são superiores aos encontrados em muitas frutas convencionalmente cultivadas, como a banana madura e a maçã Argentina, de 6,4 e 5,9 mg/100 g, respectivamente.
Para o plantio com sementes, de acordo com recomendações, devem ser semeadas em saquinhos plásticos de 20 cm de largura e 30 cm de altura, a 2 cm de profundidade. A germinação é de 95% em um intervalo de 40 a 60 dias, índice considerado elevado para fruteiras do cerrado. O substrato mais usado tem sido a terra de barranco (subsolo), enriquecida com esterco de curral e adubos químicos. A cagaiteira é uma espécie adaptada a solos relativamente pobres, típicos do Cerrado. Mesmo com essa capacidade de adaptação, reage bem à adubação de P e Ca.
Para o plantio no local definitivo, é recomendado o espaçamento de 6 metros entre linhas e 5 metros entre plantas, em covas com dimensões de 40x40x40 cm, adubadas com: 64 g de calcário dolomítico ou magnesiano, 32 g de P2O5, 6 g de K2O, 128 mg de zinco, 64 mg de manganês, 32 mg de boro, 3,2 mg de molibdênio e 3 a 6 litros de esterco de curral. Posteriormente ao estabelecimento das mudas, recomenda-se a realização de adubações em cobertura com 5 g de N e 4 g de K2O por cova, a cada 30 dias, até o final do período chuvoso. A cagaiteira deve ser mantida sempre no limpo. Para isso, nas entrelinhas, faz-se uso de enxada ou grade. Se for difícil a manutenção desta limpeza, deve-se efetuar capina em coroamento, com diâmetro um pouco maior que a projeção da copa sobre o solo.
Após o estabelecimento da cultura, deve-se ter o cuidado de iniciar o combate às formigas, cujos danos constituem um dos fatores limitantes do sucesso de plantações recentes de cagaiteira. Entre os produtos com essa finalidade encontrados no mercado, destacam-se os de forma sólida (granulado ou pó), os líquidos e os gasosos, que permitem combatê-las em qualquer situação. Os frutos da cagaiteira são bastante atacados por moscas-das-frutas, principalmente, da espécie Anastrepha obliqua, o que tem limitado o consumo nacional e a exportação destes.
A produção de frutos de cagaiteira tem seu início após o quarto ano de plantio desta frutífera. A época de maturação destes frutos varia de outubro a dezembro, dependendo do ano e do local. Os frutos estão aptos para consumo ao caírem no chão ou quando apresentarem coloração verde amarelada (de vez), desprendendo-se das árvores ao sacudir levemente os ramos. O grande problema da cagaita é a sua conservação em condições ambientais naturais. Elas perecem em apenas três dias se conservadas a 28°C, mas podem ser conservadas por até treze dias quando colocadas em geladeira. A polpa mantém-se em condições de consumo por mais de um ano se for congelada. Para a obtenção da polpa, após devidamente lavados e colocados em uma peneira, sobre uma bacia, os frutos devem ser espremidos e pressionados. Na peneira ficam retidas as cascas e as sementes da fruta. O rendimento da cagaita para produção de suco ou polpa depende da qualidade do fruto. Pode-se obter rendimento de até 60% de suco centrifugado ou 70% de polpa.
Fonte: Boletim Técnico nº 78 (2008), Editora UFLA, de Breno Régis Santos, Cristiano Martinotto, Fernanda Pereira Soares, Raírys Cravo Nogueira e Renato Paiva.