PLANTAS CARNÍVORAS

Os seres vegetais, assim como os animais, precisam de condições adequadas para sobreviverem. No caso das plantas, a adequação reside num solo com umidade necessária a cada espécie onde suas raízes encontram os nutrientes que a manterão saudáveis. Algumas plantas substituem o solo por um meio aquático, sem prescindir do trabalho de suas raízes na busca de nutrientes. Depois que as raízes absorvem do meio os nutrientes essenciais, um complexo processo de metabolismo, associado à fotossíntese (aproveitamento da luz solar pela planta para produzir energia e a responsável pela cor verde das folhas) nas espécies denominadas clorofiladas, transformam tudo em alimento e água, e o resultado é uma planta sadia e bonita (na ilustração, a espécie Dionaea muscipula).

 

De acordo com a Botânica, já foram catalogadas mais de 350.000 espécies de vegetais. Cada família com suas respectivas necessidades nutricionais e ambientais. A lógica então, quando se fala em vegetais, é vislumbrar uma planta fixa no solo firme através de sua raiz, ou então com a raiz num ambiente alagadiço ou até mesmo completamente dentro d’água. E no meio adaptada, ela adquire os nutrientes que precisa. Mas como toda regra tem a sua exceção, eis que existem algumas plantas que se alimentam de proteína animal. Sim, são as chamadas plantas carnívoras. Aparentemente, contraria uma norma criada pela natureza, até parecendo um contra-ataque verde, pois os vegetais foram postulados como alimentos determinantes não somente ao grupo de animais denominados herbívoros, mas também a várias outras espécies, desde larvas de insetos até ao maior animal terrestre, o elefante.

 

Existe um bordão de venda que faz a seguinte pergunta: o tal biscoito vende mais porque é sempre fresco e crocante ou é sempre fresco e crocante porque vende mais? Como as plantas carnívoras geralmente vivem em solos muito pobres em nutrientes cabe a pergunta: elas se alimentam de proteína animal porque o solo é pobre e se não fizerem isso morrem de fome? Talvez sim, talvez não. O que se sabe é que as plantas carnívoras também realizam a fotossíntese. E se elas realizam a fotossíntese, a proteína animal não é uma necessidade extrema da planta, isto é, se não pegarem um inseto qualquer, morrem de fome. Na verdade, elas sofreram uma evolução que colaborou com a sobrevivência nos solos pobres em nutrientes. Quer dizer, elas passaram a se alimentar de pequenos insetos e animais do habitat natural para complementar a dieta e ficarem mais bonitas e resistentes. Este processo natural de adaptação não foi curto, quem sabe uns 65 milhões de anos.

 

Mais de 500 espécies já foram registradas mundo afora. O Brasil é o segundo país em quantidade, contendo mais de 80, só perdendo para a Austrália. Dizem os botânicos que as plantas carnívoras, talvez, tenham alcançado esta capacidade de digerir proteína animal a partir de espécies de vegetais que secretavam um líquido colante em suas folhas para capturarem insetos com a única finalidade de se verem livres do incômodo. Apesar de ser difícil assimilar a idéia de uma planta sendo incomodada por um inseto, eis que os insetos naturalmente morriam e apodreciam. Aí, milhões e milhões de anos se passaram e as plantas se especializaram em capturar os insetos para se alimentarem.

 

A primeira etapa da refeição das plantas carnívoras é atrair a sua presa. Para tanto, elas possuem cores berrantes e chamativas, e segregam substâncias químicas odoríferas. Atraída a presa, vem a segunda parte, que é capturá-la. Neste quesito existe grande variedade de táticas inerentes a cada espécie. Uma das formas mais comuns de captura é a secreção de um líquido viscoso com aparência de gotículas de orvalho, no qual o inseto fica grudado. Depois, ao se debater, o inseto ativa as outras folhas, que se inclinam e prendem o inseto. Numa outra forma, as armadilhas são minúsculas folhas modificadas, que se assemelham a pequenas bolas, e bombeiam o ar e a água que têm dentro para fora, formando um vácuo entre suas paredes. A presa chega perto da bola, toca os pelinhos existentes na abertura e é sugada para dentro. Um dos sistemas de captura mais elaborados é uma planta que tem folhas em forma de vasos. Nesses vasos, elas acumulam água da chuva e enzimas que a planta secreta. Neles os insetos caem e se afogam. Numa outra espécie, as paredes internas dos vasos são lisas, revestidas com cristais serosos e, no fundo, há um líquido produzido pela planta: o inseto atraído pousa na abertura, escorrega e cai, molhando as asas no líquido. Ao perceber que está em perigo, ele tenta escapar, escalando as paredes do jarro, mas, quando chega próximo à abertura, os cristais serosos dessa região se quebram. O inseto cai novamente. Depois de três ou quatro tombos, ele acaba afundando e morre (na ilustração, a espécie Nephentes rajah).

 

Existem muitas outras formas de captura utilizadas pelas plantas carnívoras. A literatura teima em caracterizar estas plantas de insetívoras. Nem tanto, pois elas não se alimentam apenas de insetos. Estes são, realmente, o prato principal, mas elas não rejeitam, por exemplo, organismos aquáticos microscópicos, lesmas e caramujos, aranhas, centopéias, besouros, borboletas e, de vez em quando, até sapos, pássaros e roedores

 

A terceira etapa da refeição consiste no modo como as plantas carnívoras digerem as presas. Há semelhanças com os animais evoluídos. Não que elas tenham boca, estômago e intestinos, como nós humanos. Por exemplo, quando os carnívoros se alimentam, enzimas digerem o que eles comem, desde a boca até o intestino. Depois de digeridos, isto é, os alimentos transformados em partículas microscópicas, estas são absorvidas por células próprias. É mais ou menos assim que acontece nas plantas carnívoras. No espaço onde a presa é capturada, células produzem líquidos digestivos (enzimas) fortíssimos que digerem a presa em partículas minúsculas. Estão são absorvidas por células próprias, contribuindo para manter a saúde da planta e garantindo a sua sobrevivência.